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EPÍLOGO
Tornar-se Arautos da Dignidade Humana (Mensagem, Dia Mundial da Paz, 13)
“Mães
traziam-lhe crianças para que as tocasse, mas os discípulos as repreendiam.
Jesus ficou indignado e disse: “Deixai as crianças virem a mim. Não as
impeçais, pois delas é o Reino de Deus”... Então, abraçando-as,
abençoou-as, impondo as mãos sobre elas” (Mc 10, 13-16). O exegeta
Daniel Harrington, SJ, diz que no tempo de Jesus, os escritores apresentavam as
crianças como “exemplificação de comportamentos desarrazoados ou como objetos
que deviam ser exercitados. Nesta passagem elas são tomadas a sério como
pessoas e desfrutam de um relacionamento com Jesus e o Reino” (Jerome
Biblical Commentary, 618). Já antes, no evangelho de Marcos, Jesus diz que “ aquele que receber uma destas crianças
por causa do meu nome, a mim recebe; e aquele que me recebe, não é mim que
recebe, mas sim aquele que me enviou” (Mc 9, 37). Harrington diz que “em meu nome” é a locução
tópico. Todo aquele que recebe o emissário de alguém, recebe a própria
pessoa que o envia. “Assim, todo aquele que recebe uma criança recebe a Jesus,
e todo aquele que recebe Jesus, recebe Deus que enviou Jesus” (Jerome
Biblical Commentary, 616). Em sua comovente meditação para a véspera de
Natal, nosso Fundador associa esse pensamento com Apocalipse 3:20:
“Há quanto tempo Jesus se está chegando a vós e bate na porta de vosso
coração, para morar nele, e não o quisestes receber? Por quê? Porque se
apresenta na forma de um pobre, de um escravo, de um homem de dores. (Med. 85, 1). Jesus vem a
nós como um pobre homem, porque vem a nós como crianças desamparadas,
exploradas, abandonadas. Os textos litúrgicos da missa do Dia do Natal nos
recordam que Jesus é o Verbo, o Verbo que se fez carne e viveu entre nós (Jo
1,1, 14). “Muitas vezes, e de modos diversos, falou Deus outrora, aos Pais
pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do
seu Filho (Hb 1, 1-2). Jesus nos fala hoje nas crianças que vêm a nós
“em seu nome”. Nós encontramos Jesus Cristo nas crianças quando lhes damos as
boas-vindas como crianças, quando as amamos e respeitamos como elas
são. Como Jesus torna claro sem ambigüidades na sua descrição do Juízo
Final, nós respondemos a Cristo quando respondemos com amor às pessoas como
elas são. Em resposta à pergunta: “Senhor, quando foi que te vimos com fome e
te alimentamos?”, Jesus explica que eles responderam a Ele quando alimentaram
os que estavam com fome . “Eu estava com fome e vós me destes de comer” (Mt
25, 35-40). Não se trata de penetrar através de uma “casca” exterior de
crianças para encontrar e amar Cristo, como que escondido no centro. Não. Pelo
contrário. Jesus se identifica com as crianças assim como elas são. Somente
quando as encontramos como elas são que encontramos a Cristo. No evangelho para
a Missa de Natal, do dia, João diz que aqueles que aceitam Cristo recebem o
“poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1, 12). O Senhor convida não
apenas os jovens, mas a todos nós, para entrarmos na família de Deus como
crianças. Na sua meditação para a véspera de Natal, São João Batista de La
Salle nos exorta a preparar nossos
corações para receber Jesus, de maneira que possa fazer ali sua morada... Foi
para isto que o Filho de Deus veio à terra, e quer entrar em nosso coração,
para fazer-nos participantes de sua natureza e para transformar-nos
inteiramente em homens celestiais” (Med. 85, 3). Na oração inicial da mesma celebração
eucarística, pedimos a Deus que nos faça participantes na divindade de seu
Filho. É nossa vocação participar na divindade do Filho, de “tornar visível a
amorosa e salvadora presença de Cristo”. Nós “podemos e devemos dizer” que nós
“não somente pertencemos a Cristo”, mas que “nos tornamos Cristo” (Vita
Consecrata, 76, 109). Assim como Cristo, nós proclamamos às crianças e aos
jovens em aflição a verdade que os torna livres. Nós nos empenhamos para
construir o Reino de Deus. Por aquilo que dizemos, por aquilo que fazemos, e
acima de tudo, por aquilo que somos, proclamamos a fraternidade Universal,
porque todos os homens e todas as mulheres são filhos e filhas do mesmo Pai, e
irmãos e irmãs em Cristo”. Nós chamamos para a fé e a conversão aqueles que
“Deus confiou aos nossos cuidados”. Nós promovemos a “comunhão entre todos os
seres humanos – uns com os outros e com Deus”. Nós trabalhamos para a
“libertação” das crianças e os dos jovens “do mal sob todas as suas formas” (Redemptoris
Missio, 43, 15, 43). La Salle nos pergunta, há quanto tempo Jesus se está
chegando a nós e bate na porta de nosso coração, e não o recebemos, porque se
apresenta na forma de um pobre, de um escravo, de um homem de dores, de
crianças abandonadas ou rejeitadas (cf. Med. 85, 1). Jonathan Kozol
conta a história de uma dama rica que disse a São Vicente de Paula: “ Os pobres
me metem medo!”. São Vicente respondeu: “ Os pobres são atemorizadores, tão atemorizadores como a justiça de Deus”.
E, então, Kozol pergunta: “O quê devemos fazer com aqueles que nos metem medo?
Afastamo-los de nós tanto quanto possível”, - e esperamos como um estudante me falou no verão passado –
“que eles morram ou desapareçam” (Jonatahn Kozol, in Amazing Grace, 186). Como
homens, que nos consagramos inteiramente a Deus no ministério em favor dos
jovens, especialmente dos pobres, e como animadores da Família Lassalista, não podemos permitir que continue a
trágica situação de crianças exploradas que nos “metem medo” ou “das quais nos evadimos”. Pelo contrário, devemos
ESTAR ATENTOS a elas, e RESPONSÁVEIS por elas: “Atento, em primeiro lugar, às
carências educativas dos pobres, que aspiram a tomar consciência de sua
dignidade de homens e de filhos de Deus e procuram que esta lhes seja
reconhecida, o Instituto cria, renova e diversifica suas obras de acordo com as
necessidades do Reino de Deus” (Regra, 11). João Paulo II diz que a parábola do
rico opulento demonstra claramente que no “rigoroso contraste entre o rico
insensível e do pobre carente de tudo, Deus está do lado deste último. Nós
também temos que estar do lado dele”. Depois, o Papa exorta todos os cristãos:
“Tornem-se arautos da dignidade humana”. (Mensagem, Dia Mundial da Paz, 13).
Irmãos, em união com todos os outros Lassalistas, como arautos da
dignidade humana, vamos renovar e revitalizar nosso compromisso de promover
o Reino de Deus, edificar uma comunhão internacional de pessoas, em que todas
as crianças possam viver como crianças,
assim como elas têm o direito de ser. Deus de piedade e de misericórdia,
venha a nós o vosso Reino!
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