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Na Vida dos Irmãos e Comunidades:
23. O nível de vida das
comunidades - os lugares, as casas, os equipamentos, o serviço, os gestos, os
orçamentos.
A
casa onde vive a comunidade exerce um papel importante porque é ali que podemos
encontrar-nos como família e satisfazer normalmente as necessidades básicas da
vida humana: as psicológicas e da intimidade, as espirituais próprias de uma
vida consagrada. Querer que todos sejam e ajam de forma igual costuma estar em
contradição com a caridade e a fraternidade. Talvez não sejam harmonizáveis
todos os pontos de vista e sensibilidades, mas não é saudável decidir sem
discernimento ou simplesmente para não desagradar determinados Irmãos.
Em
algumas ocasiões pode ser difícil chegar a um acordo em comunidade sobre "o
desprendimento", particularmente naquilo que tange à própria
comunidade, e não me refiro apenas às comunidades maristas. Contudo, supõe-se
que os religiosos e religiosas deveriam ser peritos na matéria ! Nossas
Constituições definem a exigência mínima que o voto de pobreza implica:
"Renunciamos a usar e a dispor de qualquer dinheiro ou de outro bem
material, de algum valor, sem autorização" (C. 29). Também assinalam o
idealismo intrínseco de quem se atreve a seguir a Cristo "que se fez pobre
por nós" (Fil.2), e o que isso significa para nós, para os demais e para a
própria Igreja. Que sinais tornam visível esse idealismo para os que vivem ao
nosso derredor ?
Tenho
a impressão de que, em geral e em todos os continentes, as comunidades
religiosas têm um nível de vida equivalente à classe média-alta do respectivo
país. Parece que as pessoas costumam ver-nos assim, e eu mesmo faço essa
avaliação, embora não tenha conseguido encontrar estudos para fundamentar esse
sentimento pessoal. Talvez
eu esteja equivocado ou minhas impressões sejam generalizadas. Em sua
Província, o que ocorre a respeito disso? Creio que devemos ter a coragem de
fazer um estudo sério da nossa situação, reconhecê-la com sinceridade e tomar
as medidas adequadas que, por sua coerência e visibilidade, nos dêem
credibilidade diante do povo de Deus.
24. Não estou pensando em um nível
de vida igual para todas as comunidades do Instituto, já que é preciso levar em
conta as circunstâncias dos diferentes lugares e contextos. Não importa qual
seja a situação econômica de uma Província, temos de procurar que nossos Irmãos
vivam de maneira digna e aceitável, sabendo que não podem desligar-se do
vínculo que possuem com o povo onde vivem. Num país pobre os Irmãos não
deveriam viver como ricos e nos países chamados industrializados os Irmãos
deveriam viver com simplicidade e sobriedade. E oxalá que muitas comunidades se
atrevam a viver austeramente para partilhar com os necessitados, sendo
"profecia" e "Boa nova de Jesus" nessa realidade. Não seria
precisamente nesses contextos que somos chamados a ser essa profecia contracultural?
Visitando
uma Província, percebi que os Irmãos bebiam somente água durante as refeições.
No dia da Assembléia tiveram cerveja. Estranhei, mas a resposta do Irmão
Provincial encheu-me de alegria: "O preço de uma cerveja é quase o mesmo
que a comida de todo um dia. Se não vivêssemos assim não poderíamos trabalhar
com os pobres". Este fato evoca a experiência dos primeiros Irmãos em
l'Hermitage, que viviam com sobriedade para não encarecer os honorários nas
escolas.
Há
alguns anos, criaram-se comunidades em meios populares ou fora da grande
estrutura escolar e, sem dúvida, trouxeram algumas vantagens. Mas nem sempre
temos aproveitado dessa oportunidade para recuperar um novo estilo comunitário,
não somente de moradia, de sobriedade e de simplicidade de vida, senão de
relações humanas, de comunicação e partilha. Visitando algumas dessas
comunidades, tive a impressão de estar numa comunidade que repetia os esquemas
do restante das comunidades da Província, porque tinham o mesmo que antes,
inclusive com mais pessoal de serviço. Que critérios existem em sua comunidade
diante da qualidade dos carros, do número de empregados e do nível de vida que
desejam ter? Ou seja, como querem viver? Por que assim?
É
salutar que as pessoas e a comunidade sintamos que temos em demasia e, em
conseqüência, tomemos decisões de ir aliviando peso, cultivar a sensibilidade
ante a necessidade dos demais e abrir as janelas para ver o que ocorre na
periferia ou ao nosso lado. Uma comunidade deveria conhecer as necessidades do
ambiente que a cerca e sentir-se tão solidária quanto diante de catástrofes num
país distante, através do apoio a projetos que outras instituições humanitárias
ou de caridade realizam nesse país ou na região.
25. Há meios que podem ser convenientes nas obras educativas
mas que não são adequados na comunidade. Com liberdade e para ajudá-los a
prosseguir e realizar esse ponto, ofereço-lhes algumas sugestões. Certamente
encontrarão outras mais acertadas ao refletir sobre estas comunitariamente:
Seria
interessante que a comunidade fosse uma das últimas famílias da localidade
a adquirir uma novidade que, à primeira vista, parece útil para a
residência. Da mesma forma, não se deveria comprar algo que não fosse útil
para os dois terços de seus membros.
Há coisas
que, mesmo que as recebamos de presente ou possamos comprá-las a bom preço
e como "ocasião", não deveriam ser aceitas pela comunidade (nem
pelo Irmão Provincial ) porque elevam o nível de vida.
É possível
e realista adaptar nosso nível de vida ao nível que levam 50% das famílias
menos ricas do nosso país?. Não há dúvida de que as comunidades situadas
em zonas populares poderiam ter um perfil bastante similar com o ambiente
que as cerca, estando atentas para não ofender os pobres com um nível de
vida mais folgado que o necessário (Cf. C. 34).
O número
de empregados a serviço das comunidades é outro tema a refletir. Pouco a
pouco nos habituamos a "ser servidos" e, às vezes, tornamo-nos
exigentes e um pouco ineptos para resolver serviços caseiros. O trabalho
manual talvez tenha outras expressões em muitos países hoje, entre outros,
os serviços relativos à residência comunitária. Um Irmão de uma comunidade
situada num meio operário comentava que, por razões humanas e à espera da
aposentadoria, haviam mantido o trabalho de uma cozinheira. Para a
população do bairro era um indicador de que podiam permitir-se gastos que
não estavam ao alcance das pessoas desse local.
Parece
enriquecedor que as comunidades percam o medo e realizem gestos concretos.
Conheço várias famílias que no Natal, Páscoa ou em outras celebrações
importantes, convidam alguma pessoa marginalizada (anciãos que vivem
sozinhos, alguns órfãos, um jovem recém libertado da prisão e que não tem
onde ir, etc.) para fazer parte de sua mesa. Às vezes escolhem pessoas que
Deus põe em seu caminho. Irmãos, vocês poderiam realizar estes ou outros
gestos semelhantes em suas comunidades?
Os
orçamentos comunitários se reduzem apenas a um relatório de dados ou são
uma oportunidade realista para refletir sobre a incidência da economia na
vida dos pobres, de corrigir algumas infidelidades e de expressar através
de ações nossa atitude de seguir a Cristo pobre? Não seria um bom momento
para exercitar o discernimento comunitário?
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