A POBREZA
14. «O conselho evangélico da pobreza,
à imitação de Cristo, que sendo rico se fez pobre por
nós, além de uma vida pobre na realidade e no espírito, a
ser vivida laboriosamente na sobriedade e alheia às riquezas terrenas
implica a dependência e a limitação no uso e na
disposição dos bens, de acordo com o direito próprio de
cada instituto»23 .
A sensibilidade em relação com a
pobreza não é nova, nem na Igreja, nem na vida religiosa. O que
talvez é novo, é uma vida religiosa que se caracteriza hoje por
uma particular sensibilidade para com os pobres e para a pobreza no mundo.
Existem hoje formas de pobreza em grande escala, vividas por indivíduos
ou suportadas por sociedades inteiras: a fome, a ignorância, a
doença, o desemprego, a repressão das liberdades fundamentais, a
dependência econômica e política, a corrupção
administrativa, sobretudo o fato de que a sociedade humana parece organizada de
tal forma que produz e reproduz essas formas de pobreza, etc.
Nessas condições os religiosos
são estimulados a uma maior aproximação aos mais
empobrecidos e necessitados, aqueles que o próprio Jesus preferiu sempre
e para os quais disse ter sido enviado, 24 e com os quais se
identificou. 25 Essa aproximação os leva a adotar um
estilo de vida pessoal e comunitária mais coerente com seu compromisso
de seguir mais de perto a Jesus Cristo pobre e humilhado.
Essa «opção preferencial»26 e
evangélica dos religiosos pelos pobres implica desprendimento interior,
uma austeridade de vida comunitária e, por vezes, o partilhar sua
própria vida, suas lutas, sem esquecer, contudo, que a missão
específica dos religiosos é a de «testemunhar de modo esplendente
e eminente que o mundo não pode ser transformado e oferecido a Deus sem
o espírito das bemaventuranças».27
Deus ama toda a família humana e quer
reuni-la toda sem exclusivismos».28 Para os religiosos e religiosas,
também é uma forma de pobreza não deixar-se fechar a
apenas um só ambiente ou a uma só classe social.
O estudo da doutrina social da Igreja, e,
particularmente o da encíclica Sollicitudo rei socialis e o da Instrução
sobre a liberdade cristã e a libertação, 29
ajudará no discernimento requerido para uma prática atualizada da
pobreza apostólica.
A educação para a vivência da
pobreza evangélica preocupar-se-á com os seguintes aspectos:
7 - antes de entrar na vida religiosa, alguns
jovens gozaram de certa autonomia financeira e se acostumaram a providenciar
tudo o que desejavam. Outros encontram na comunidade religiosa um nível
de vida mais alto que o da sua infância ou o de seus anos de estudo ou de
trabalho. A pedagogia da pobreza levará em conta a história de
cada um. Também não esquecerá que em certas culturas as
famílias esperam poder aproveitar-se daquilo que aparece como uma promoção
para seus filhos;
- é próprio da virtude da pobreza
empenhar-se numa vida laboriosa, em atos conncretos e humildes de
desprendimento, de despojamento, que fazem a pessoa mais livre para a
missão; admirar e respeitar a criação e os objetos
materiais postos à disposição, partilhar o nível de
vida da comunidade e desejar lealmente que «tudo seja comum» e «que se dê
a cada um segundo suas necessidades» (At 4, 32.35).
Tudo isso têm a finalidade de centrar a sua
vida em Jesus Cristo pobre, contemplado, amado e seguido. Sem isso, a pobreza
religiosa sob a forma de solidariedade e de participação torna-se
facilmente ideológica e política. Somente um
coração de pobre, que segue a Jesus Cristo pobre, pode ser a
fonte de uma autêntica solidariedade e de um autêntico
desprendimento.
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