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Ioannes Paulus PP. II
Ecclesia in Asia

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Áreas-chave de inculturação

22. O Sínodo encorajou os teólogos no cumprimento do seu delicado trabalho de desenvolver uma teologia inculturada, especialmente na área da cristologia. 91foi observado que « este trabalho teológico tem de ser realizado com coragem, fidelidade à Sagrada Escritura e à Tradição da Igreja, sincera adesão ao Magistério e conhecimento das realidades pastorais ».92 Desejo também incitar os teólogos a trabalharem em espírito de união com os Pastores e o povo, que — cada um em união com os outros, e nunca um separado dos outros — « reflecte aquele sentido da , que é necessário nunca perder de vista ».93 O trabalho teológico deve procurar sempre respeitar a sensibilidade dos cristãos, para que, graças a um crescimento gradual para formas inculturadas de exprimir a , o povo nunca seja confundido nem escandalizado. Em todo o caso, a inculturação há-de ser marcada pela compatibilidade com o Evangelho e a comunhão com a da Igreja universal, em plena concordância com a Tradição da Igreja e com o intuito de fortalecer a do povo. 94 O teste de uma inculturação verdadeira é verificar se o povo adere mais à sua cristã, porque a melhor com os olhos da sua própria cultura.

A liturgia é a fonte e o vértice de toda a vida e missão cristã. 95 É decisivamente um meio de evangelização, sobretudo na Ásia, onde os seguidores das diferentes religiões são muito sensíveis ao culto, festas religiosas e devoções populares. 96 Na sua maior parte, a liturgia das Igrejas Orientais tem sido inculturada com bom êxito ao longo de séculos de interacção com a cultura circundante, mas as Igrejas de formação mais recente precisam de assegurar que a liturgia se torne uma fonte ainda maior de nutrimento para os seus povos, através de um uso claro e efectivo de elementos tirados das culturas locais. Mas, para a inculturação litúrgica, não basta fixar a atenção sobre os valores, símbolos e rituais da cultura tradicional; é preciso atender também às mudanças causadas na consciência e nos comportamentos pelas culturas secularistas e consumistas emergentes, que estão a afectar o sentido asiático do culto e da oração. Nem se podem descuidar, numa inculturação litúrgica genuinamente asiática, as necessidades específicas dos pobres, migrantes, refugiados, jovens e mulheres.

As Conferências Nacionais e Regionais dos Bispos têm necessidade de trabalhar de forma mais estreita com a Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos na busca de meios efectivos para fomentar formas de culto apropriadas ao contexto asiático. 97 Tal cooperação é essencial porque a Liturgia Sagrada exprime e celebra a única professada por todos e, sendo herança de toda a Igreja, não pode ser determinada pelas Igrejas locais isoladamente da Igreja universal.

Os Padres Sinodais assinalaram de forma particular a importância da palavra da Bíblia na transmissão da mensagem de salvação aos povos da Ásia, porque neste Continente a palavra é muito importante para a salvaguarda e comunicação da experiência religiosa. 98 Daqui se deduz que é necessário desenvolver um efectivo apostolado bíblico a fim de assegurar que o texto sagrado seja mais amplamente difundido e mais intensa e devotamente usado entre os membros da Igreja da Ásia. Os Padres Sinodais incitaram a fazer dela a base de todo o anúncio missionário, catequese, pregação e géneros de espiritualidade. 99necessidade de estimular e apoiar iniciativas para traduzir a Bíblia para as línguas locais. A formação bíblica deveria ser considerada um meio importante para educar as pessoas na e habilitá-las para a tarefa do anúncio. Cursos sobre a Bíblia, de orientação pastoral, com a devida ênfase na aplicação dos seus ensinamentos às complexas realidades da vida asiática, devem ser incorporados nos programas de formação para o clero, as pessoas de vida consagrada e o laicado. 100 A Sagrada Escritura deveria ser dada a conhecer também entre os seguidores doutras religiões; a Palavra de Deus possui, inerente a si mesma, um poder que toca o coração das pessoas, visto que, através das Escrituras, o Espírito Santo revela o plano de Deus para a salvação do mundo. Além disso, o estilo narrativo presente em muitos livros da Bíblia tem afinidades com os textos religiosos próprios da Ásia. 101

Outro aspecto-chave do processo de inculturação é a formação dos evangelizadores, de que depende em grande parte o futuro do mesmo. No passado, a formação seguiu frequentemente o estilo, os métodos e programas importados do Ocidente; os Padres Sinodais, ao mesmo tempo que manifestavam o seu apreço pelo serviço prestado por este modo de formação, reconheceram, como evolução positiva, os esforços que se têm feito recentemente para adaptar a formação dos evangelizadores ao contexto cultural da Ásia. Juntamente com um sólido fundamento nos estudos bíblicos e patrísticos, os seminaristas deveriam adquirir uma detalhada e firme compreensão do património teológico e filosófico da Igreja, como recomendei na Encíclica Fides et ratio. 102 Tendo esta preparação por base, ser-lhes-á proveitoso o contacto com as tradições filosóficas e religiosas asiáticas. 103 Os Padres Sinodais encorajaram também os professores e orientadores dos Seminários a procurarem uma profunda compreensão dos elementos de espiritualidade e oração próprios do continente asiático, e a comprometerem-se mais profundamente na luta dos povos asiáticos por uma vida mais abundante. 104 Tendo isso em vista, foi realçada a necessidade de assegurar a formação apropriada dos orientadores dos Seminários. 105 O Sínodo falou também da formação das pessoas de vida consagrada, deixando claro que a sua espiritualidade e estilo de vida há-de ser sensível à herança religiosa e cultural da gente com quem vivem e a quem servem, sempre pressupondo o necessário discernimento do que é, ou não, conforme ao Evangelho. 106 Além disso, visto que a inculturação do Evangelho envolve todo o povo de Deus, o papel do laicado é de suprema importância. São sobretudo os leigos os que são chamados a transformar a sociedade, em colaboração com os Bispos, clero e religiosos, infundindo o « pensamento de Cristo » na mentalidade, costumes, leis e estruturas do mundo secular onde vivem. 107 Uma inculturação do Evangelho alargada a todos os níveis da sociedade asiática dependerá imenso da formação adequada que as Igrejas locais poderem dar ao laicado.

 




91) Cf. propositio 7.



92) Ibid., 7.



93) João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990), 54: AAS 83 (1991), 302.



94) Cf. ibid., 54: o. c., 301.



95) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada liturgia Sacrosanctum concilium, 10; Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio post disceptationem, 14.



96) Cf. Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio post disceptationem, 14; propositio 43.



97) Cf. propositio 43.



98) Cf. Assembleia Especial para a Ásia do Sínodo dos Bispos, Relatio post disceptationem, 13.



99) Cf. propositio 17.



100) Cf. propositio 18.



101) Cf. propositio 17.



102) Nn. 60, 62 e 105: AAS 91 (1999), 52-53, 54 e 85-86.



103) Cf. propositio 24.



104) Cf. propositio 25.



105) Cf. ibid., 25.



106) Cf. propositio 27.



107) Cf. propositio 29.






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