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| Ioannes Paulus PP. II Pastores Dabo Vobis IntraText CT - Texto |
53. A formação intelectual do futuro sacerdote baseia-se e constrói-se sobretudo sobre o estudo da sacra doctrina, da teologia. O valor e a autenticidade da formação teológica dependem do respeito escrupuloso pela própria natureza da teologia, que os Padres sinodais compendiaram do seguinte modo: "A verdadeira teologia provém da fé e quer conduzir à fé" [163]. É esta a concepção que a Igreja, e o seu Magistério de uma forma especial, têm constantemente proposto. É esta a linha seguida pelos grandes teólogos que, ao longo dos séculos, vêm enriquecendo o pensamento da Igreja. S.Tomás é bem explícito ao afirmar que a fé é como que o habitus da teologia, ou seja, o seu princípio operativo permanente, [164] e que toda a teologia se ordena para a alimentação da fé [165].
Portanto o teólogo é antes de mais um crente, um homem de fé. Mas é um crente e fá-lo sobre a própria fé (fides quaerens intellectum), que se interroga com o fim de atingir uma compreensão mais profunda da própria fé. Os dois aspectos, a fé e a reflexão madura, estão profundamente conexos, entrelaçados: precisamente a sua íntima coordenação e compenetração decide a verdadeira natureza da teologia, e, consequentemente decide, os conteúdos, modalidades e espírito, segundo o qual a sacra doctrina deve ser elaborada e estudada.
Porque a fé, ponto de partida e de chegada da teologia, realiza uma relação pessoal do crente com Jesus Cristo na Igreja, também a teologia possui intrínsecas conotações cristológicas e eclesiais, que o candidato ao sacerdócio deve conscientemente assumir, não só pelas implicações que dizem respeito à sua vida pessoal, mas também por aquelas que tocam o seu ministério pastoral. Se é acolhimento da Palavra de Deus, a fé gera um "sim" radical do crente a Jesus Cristo, Palavra plena e definitiva de Deus ao mundo (cf. Heb 1, 1-2). Em consequência disto, a reflexão teológica encontra o próprio centro na adesão a Jesus Cristo, Sabedoria de Deus: a própria reflexão madura deve considerar-se uma participação no "pensamento" de Cristo (cf. 1 Cor 2, 16), na forma humana de uma ciência (scientia fidei). Ao mesmo tempo, a fé insere o crente na Igreja e torna-o participante na vida desta, enquanto comunidade de fé. Por conseguinte, a teologia possui uma dimensão eclesial porque é uma reflexão madura sobre a fé da Igreja, realizada pelo teólogo que é membro da Igreja [166].
Estas perspectivas cristológicas e eclesiais, que são conaturais à teologia, ajudam a desenvolver nos candidatos ao sacerdócio, juntamente com o rigor científico, um grande e vivo amor a Jesus Cristo e à sua Igreja: este amor, ao mesmo tempo que nutre a sua vida espiritual, orienta-os para o generoso desempenho do seu ministério. No fim de contas, era precisamente esta a intenção do Concílio Vaticano II ao solicitar a reorganização dos estudos eclesiásticos, dispondo melhor as várias disciplinas filosóficas e teológicas e fazendo com que elas "se coordenem de forma apta e concorram de modo harmónico para que a mente dos alunos se abra ao mistério de Cristo, que atinge toda a história do género humano, continuamente penetra a vida da Igreja e se actua principalmente através do ministério sacerdotal" [167].
A formação intelectual teológica e a vida espiritual, particularmente a vida de oração, encontram-se e reforçam-se mutuamente, sem nada tirar nem à seriedade da investigação nem ao sabor espiritual da oração. S. Boaventura adverte-nos: "Ninguém pense que lhe baste a leitura sem a unção, a especulação sem a devoção, a busca sem o assombro, a observação sem a exultação, a actividade sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade, o estudo sem a graça divina, a investigação sem a sabedoria da inspiração divina" [168].