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| Ioannes Paulus PP. II Pastores Dabo Vobis IntraText CT - Texto |
As razões teológicas da formação permanente
70. "Exorto-te a que reanimes o dom de Deus que está em ti" (2 Tim l, 6).
As palavras do Apóstolo ao bispo Timóteo podem legitimamente aplicar-se àquela formação permanente, à qual são chamados todos os sacerdotes por força do "dom de Deus" que receberam na sagrada ordenação. Elas introduzem-nos na compreensão da verdade plena e da originalidade inconfundível da formação permanente dos presbíteros. Nisto somos ajudados também por um outro texto de Paulo, que escreve ao mesmo Timóteo: "Não descuides o dom espiritual que recebeste e que te foi concedido por uma intervenção profética, com a imposição das mãos dos presbíteros. Atende a estas coisas e ocupa-te nelas com todo o empenho, a fim de que o teu aproveitamento seja manifesto a todos. Cuida de ti mesmo e do teu ensino; insiste nestas coisas, porque, fazendo isto, salvar-te-ás a ti mesmo e aos outros que te escutam" (1 Tim 4, 14-16).
O Apóstolo pede a Timóteo para "reanimar", ou seja, para reacender o dom divino, como se faz com o fogo sob as cinzas, no sentido de acolhê-lo sem nunca perder ou esquecer aquela "novidade permanente" que é própria de todo o dom de Deus, d'Aquele que faz novas todas as coisas (cf. Ap 21, 5) e, portanto, de vivê-lo na sua inesgotável pujança e beleza original.
Mas aquele "reanimar" não é só sucesso o de uma tarefa confiada à responsabilidade de Timóteo, nem apenas o resultado de um empenhamento da sua memória e vontade. É o efeito de um dinamismo de graça intrínseco ao dom de Deus: é o próprio Deus, portanto, a reanimar o Seu próprio dom, melhor, a libertar toda a extraordinária riqueza de graça e responsabilidade que nele está encerrada.
Com a efusão sacramental do Espírito Santo que consagra e envia, o presbítero é configurado a Jesus Cristo Cabeça e Pastor da Igreja e é mandado a exercer o ministério pastoral. Assim, o sacerdote é assinalado para sempre e de modo indelével no seu ser como ministro de Jesus e da Igreja, é inserido numa condição permanente e irreversível de vida, e é encarregado dum ministério pastoral que, radicado no ser, compromete toda a sua existência e é também ele permanente. O sacramento da Ordem confere ao sacerdote a graça sacramental que o torna participante não só do "poder" e do "ministério" salvífico de Jesus, mas também do seu "amor" pastoral; ao mesmo tempo assegura ao sacerdote todas aquelas graças actuais que lhe serão dadas sempre que forem necessárias e úteis para o digno e perfeito cumprimento do ministério recebido.
A formação permanente encontra, assim, o seu fundamento próprio e a sua motivação original no dinamismo do sacramento da Ordem.
É certo que não faltam razões mesmo puramente humanas que solicitem o sacerdote a realizar a formação permanente. Esta é uma exigência da sua realização progressiva: cada vida é um caminho incessante em direcção à maturidade, e esta passa através da formação contínua. Além disso, é uma exigência do ministério sacerdotal, visto simplesmente na sua natureza genérica e comum a qualquer profissão, ou seja, como um serviço prestado aos outros: hoje não existe profissão, compromisso ou trabalho que não exija uma contínua actualização, se quiser ser credível e eficaz. A exigência de "acertar o passo" com o caminho da história é outra razão humana que justifica a formação permanente.
Mas estas e outras razões são assumidas e especificadas pelas razões teológicas já recordadas e que se podem aprofundar ulteriormente.
O sacramento da Ordem, pela sua natureza de "sinal" que é própria de todos os sacramentos, pode considerar-se, como realmente é, Palavra de Deus: é Palavra de Deus que chama e envia, é a expressão mais forte da vocação e da missão do sacerdote. Mediante o Sacramento da Ordem, Deus chama «coram Ecclesia» o candidato "ao" sacerdócio. O "vem e segue-me" de Jesus encontra a sua proclamação plena e definitiva na celebração do sacramento da sua Igreja: manifesta-se e comunica-se através da voz dela, que ressoa nos lábios do Bispo que reza e impõe as mãos. E o sacerdote responde, na fé, ao chamamento de Jesus: "venho e sigo-te". A partir desse momento, tem início aquela resposta que, como escolha fundamental, deve exprimir-se e reafirmar-se ao longo dos anos do sacerdócio em numerosíssimas outras respostas, todas elas radicadas e vivificadas pelo "sim" da Ordem sagrada.
Neste sentido, pode falar-se duma vocação "no" sacerdócio. Na realidade, Deus continua a chamar e a enviar, revelando o seu desígnio salvífico no desenrolar histórico da vida do sacerdote e das vissicitudes da Igreja e da sociedade. É precisamente desta perspectiva que emerge o significado da formação permanente: ela é necessária para discernir e seguir esse contínuo chamamento ou vontade de Deus. Assim, o apóstolo Pedro é chamado a seguir Jesus já depois de o Senhor ressuscitado lhe ter confiado a sua grei: "Respondeu-lhe Jesus: 'Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos e outro te cingirá e te levará para onde tu não queres'. E disse isto para indicar o género de morte com que ele havia de glorificar a Deus. E, dito isto, acrescentou: 'Segue-me' " (Jo 2l, 17-19). É, portanto, um "segue-me" que acompanha a vida e a missão do apóstolo. É um "segue-me" que acompanha o apelo e a exigência de fidelidade até à morte (cf. Jo 21, 22), um "segue-me" que pode significar uma sequela Christi até ao dom total de si no martírio [214].
Os Padres sinodais expressaram a razão que justifica a necessidade da formação permanente e, ao mesmo tempo, revela a sua natureza profunda, designando-a como "fidelidade" ao ministério sacerdotal e como "processo de contínua conversão" [215]. É o Espírito Santo, infundido pelo sacramento, que sustém o presbítero nesta fidelidade e que o acompanha e estimula neste caminho de incessante conversão. O dom do Espírito não dispensa, antes solicita a liberdade do sacerdote, para que coopere responsavelmente e assuma a formação permanente como um dever que lhe é confiado. Assim esta é expressão e exigência da fidelidade dele ao seu ministério, ou melhor, ao seu próprio ser. É, portanto, amor a Jesus Cristo e coerência consigo mesmo. Mas constitui também um acto de amor ao Povo de Deus, ao serviço do qual o sacerdote está posto. É ainda um acto de verdadeira e própria justiça: ele é devedor ao Povo de Deus, chamado como é a reconhecer e a promover aquele seu "direito" fundamental de ser destinatário da Palavra de Deus, dos Sacramentos e do serviço da Caridade, que são o conteúdo original e irrenunciável do ministério pastoral do padre. A formação permanente é necessária para que ele esteja em condições de responder condignamente a tal direito do Povo de Deus.
Alma e forma da formação permanente do sacerdote é a caridade pastoral: o Espírito Santo, que infunde a caridade pastoral, introduz e acompanha-o no conhecimento sempre mais profundo do mistério de Cristo, que é insondável na sua riqueza (cf. Ef 3, 14-19), e, por conseguinte, no conhecimento do mistério do sacerdócio cristão. A mesma caridade pastoral impele o presbítero a conhecer cada vez mais as esperanças, as necessidades, os problemas, as sensibilidades dos destinatários do seu ministério: destinatários envolvidos nas suas concretas situações pessoais, familiares, e sociais.
A tudo isto tende a formação permanente, vista como consciente e livre proposta em ordem ao dinamismo da caridade pastoral e do Espírito Santo, que é a sua primeira fonte e alimento contínuo. Neste sentido, a formação permanente é uma exigência intrínseca ao dom e ao ministério sacramental recebido e revela-se necessária em todos os tempos. Hoje, porém, ela é particularmente urgente, não só pela rápida mudança das condições sociais e culturais dos homens e dos povos, no meio dos quais se exerce o ministério pastoral, mas também por aquela "nova evangelização" que constitui a tarefa essencial e inadiável da Igreja no final do segundo milénio.