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Ioannes Paulus PP. II
Pastores Dabo Vobis

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74. A formação permanente ajuda o sacerdote, dentro da Igreja "comunhão", a amadurecer a consciência de que o seu ministério é, em última instância, ordenado a reunir a família de Deus como fraternidade animada pela caridade e a conduzí-la ao Pai por meio de Cristo no Espírito Santo [219].

O presbítero deve crescer no conhecimento da profunda comunhão que o liga ao Povo de Deus: ele não está apenas "à frente" da Igreja, mas e primariamente "na" Igreja. É irmão entre irmãos. Agraciado pelo baptismo, com a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus no Filho unigénito, o sacerdote é membro do mesmo e único Corpo de Cristo (cf. Ef 4, 16). A consciência desta comunhão desemboca na necessidade de suscitar e desenvolver a corresponsabilidade na comum e única missão de salvação, com a pronta e cordial valorização de todos os carismas e tarefas que o Espírito oferece aos crentes para a edificação da Igreja. É sobretudo na realização do ministério pastoral, por sua natureza ordenada ao bem do Povo de Deus, que o padre deve viver e testemunhar a sua profunda comunhão com todos, como escrevia Paulo VI: "É preciso fazer-se irmão dos homens no mesmo acto em que queremos ser seus pastores, pais e mestres. O clima do diálogo é a amizade; ou melhor, o serviço" [220].

De modo mais específico, o sacerdote é chamado a amadurecer a consciência de ser membro da Igreja particular, na qual está incardinado, ou seja, inserido por uma ligação ao mesmo tempo jurídica, espiritual e pastoral. Essa consciência supõe e faz crescer um amor particular à própria Igreja. Esta, na realidade, é o termo vivo e permanente da caridade pastoral que deve acompanhar a vida do padre e que o leva a partilhar a história ou a experiência de vida desta Igreja particular nas suas riquezas e fragilidades, nas suas dificuldades e esperanças, a trabalhar nela para o seu crescimento. Cada qual unido aos outros présbíteros deve, portanto, sentir-se enriquecido pela Igreja particular e empenhado activamente na sua edificação, prolongando aquela acção pastoral que distinguiu os irmãos que o precederam. Uma exigência insuprimível da caridade pastoral à própria Igreja particular e do seu amanhã ministerial é a solici tude que o sacerdote deve ter para encontrar, por assim dizer, alguém que o substitua no sacerdócio.

O padre deve amadurecer na consciência da comunhão que subsiste entre as várias Igrejas particulares, uma comunhão radicada no seu próprio ser de Igrejas que vivem in loco a Igreja única e universal de Cristo. Uma tal consciência de comunhão inter-eclesial favorecerá o "intercâmbio de dons", a começar pelos dons vivos e pessoais que são os próprios sacerdotes. Daqui a disponibilidade, ou melhor, o empenho generoso na realização de uma equitativa distribuição do clero [221]. Entre estas Igrejas particulares são de recordar as que, "privadas da liberdade, não podem ter vocações próprias", como também as "Igrejas recentemente saídas da perseguição e as Igrejas pobres às quais foramdadas ajudas, durante muito tempo e por parte de muitos, e continuam ainda a ser ajudadas com ânimo grande e fraterno" [222].

Dentro da comunhão eclesial, o sacerdote é particularmente chamado a crescer, na sua formação permanente, no e com o próprio presbitério unido ao Bispo. Na sua verdade plena, o presbitério é um mysterium: de facto, é uma realidade sobrenatural porque se radica no sacramento da Ordem. Este é a sua fonte, a sua origem. É o "lugar" do seu nascimento e crescimento. Com efeito, "os presbíteros, mediante o sacramento da Ordem, estão ligados a Cristo único Sacerdote por um vínculo pessoal e indissolúvel. A Ordem é-lhes conferida como pessoas singulares, mas são inseridos na comunhão de todo o presbitério com o Bispo (Lumen gentium, 28; Presbyterorum ordinis, 7 e 8)" [223].

Esta origem sacramental reflecte-se e prolonga-se no âmbito do exercício do ministério presbiteral: do mysterium ao ministerium. "A unidade dos presbíteros com o Bispo e entre si não se acrescenta de fora à natureza própria do seu serviço, mas exprime a sua essência enquanto é o cuidado de Cristo Sacerdote pelo Povo reunido na unidade da Santíssima Trindade" [224]. Esta unidade presbiteral, vivida no espírito da caridade pastoral, torna os sacerdotes testemunhas de Jesus Cristo, que pediu ao Pai "para que todos sejam um só" (Jo 17, 21).

A fisionomia do presbitério é, portanto, a de uma verdadeira família, de uma fraternidade, cujos laços não são da carne nem do sangue mas os da graça sacramental da Ordem: uma graça que assume e eleva as relações humanas, psicológicas, afectivas e espirituais entre os sacerdotes; uma graça que se expande, penetra, se revela e concretiza nas mais variadas formas de ajuda recíproca, não só espirituais mas também materiais. A fraternidade presbiteral não exclui ninguém, mas pode e deve ter as suas preferências: são as preferências evangélicas, reservadas a quem tem maior necessidade de ajuda ou encorajamento. Assim essa fraternidade "tem um cuidado especial pelos jovens presbíteros, tem um cordial e fraterno diálogo com os de meia idade e os de idade avançada e com os que, por razões diversas, experimentam dificuldades; e também aos sacerdotes que abandonaram esta forma de vida ou que não a seguem, não os abandona, pelo contrário, acompanha-os ainda mais com fraterna solicitude" [225].

Do único presbitério fazem também parte, a título diferente, os presbíteros religiosos que residem e trabalham na Igreja particular. A sua presença constitui um enriquecimento para todos; e os e os vários carismas particulares, por eles vividos, enquanto são um apelo a que os presbíteros cresçam na compreensão do próprio sacerdócio, contribuem para estimular e acompanhar a formação permanente dos sacerdotes. O dom da vida religiosa, na estrutura diocesana, quando é acompanhado de sincera estima e de justo respeito pela particularidade de cada instituto e de cada tradição espiritual, alarga o horizonte do testemunho cristão e contribui de vários modos para enriquecer a espiritualidade sacerdotal, sobretudo no que se refere à correcta relação e ao recíproco influxo entre os valores da Igreja particular e da universalidade do Povo de Deus. Por seu lado, os religiosos estarão atentos para garantirem um espírito de verdadeira comunhão eclesial, uma participação cordial no caminho da diocese e nas opções pastorais do Bispo, pondo voluntariamente à disposição o próprio carisma para a edificação de todos na caridade [226].

Enfim, no contexto da Igreja comunhão e do presbitério, pode-se enfrentar melhor o problema da solidão do sacerdote, sobre o qual reflectiram os Padres sinodais. Há uma solidão que faz parte da experiência de todos e que é algo de absolutamente normal. Mas há também aquela solidão que nasce de dificuldades várias e que, por sua vez, provoca ulteriores contrariedades. Neste sentido, "a activa participação no presbitério diocesano, os contactos regulares com o Bispo e com os outros sacerdotes, a mútua colaboração, a vida comum ou fraterna entre colegas, como também a amizade e a cordialidade com os fiéis leigos actuantes nas paróquias são meios muito úteis para ultrapassar os efeitos da solidão que algumas vezes o sacerdote pode experimentar" [227].

A solidão, porém, não criadificuldades, oferece também oportunidades positivas para a vida sacerdotal: "aceite com espírito de oferta e procurada na intimidade com Jesus Cristo Senhor, a solidão pode ser uma oportunidade para a oração e o estudo, como também uma ajuda para a santificação e o crescimento humano" [228]. Uma certa forma de solidão é elemento necessário para a formação permanente. Jesus, sabia retirar-se por vezes, para orar sozinho (cf. Mt 14, 23). A capacidade de aguentar uma boa solidão é condição indispensável para o cuidado da vida interior. Trata-se de uma solidão habitada pela presença do Senhor, que, na luz do Espírito Santo, nos põe em contacto com o Pai. Neste sentido, a procura do silêncio e de espaços e tempos de "deserto" é necessária à formação permanente, quer no campo intelectual, quer no campo espiritual e pastoral. Neste sentido ainda, pode-se afirmar que não é capaz de verdadeira e fraterna comunhão, quem não sabe viver bem a própria solidão.




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