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Ioannes Paulus PP. II
Pastores Dabo Vobis

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7. Com estes e outros factores positivos, encontram-se, porém, entrelaçados muitos elementos problemáticos ou negativos.

Apresenta-se ainda muito difundido, o racionalismo que, em nome de uma concepção redutora da "ciência", torna insensível a razão humana ao encontro com a Revelação e com a transcendência divina.

Regista-se uma defesa exasperada da subjectividade da pessoa, que tende a fechá-la no individualismo, incapaz de verdadeiras relações humanas. Assim muitos, sobretudo entre os adolescentes e os jovens, procuram compensar esta solidão com substitutos de vária natureza, a través de formas mais ou menos agudas de hedonismo e de fuga às responsabilidades; prisioneiros do instante fugaz, procuram "consumir" experiências individuais o mais fortes e gratificantes possível no plano das emoções e das sensações imediatas, encontrando-se, porém, inevitavelmente indiferentes e como que paralisados frente ao apelo de um projecto de vida que inclua uma dimensão espiritual e religiosa e um compromisso de solidariedade.

Além disso, difunde-se por toda a parte, mesmo depois da queda das ideologias que tinham feito do materialismo um dogma e da recusa da religião um programa, uma espécie de ateísmo prático e existencial, que coincide com uma visão secularista da vida e do destino do homem. Este homem, "todo voltado para si mesmo, que se considera não só centro de todo o interesse, mas ousa dizer-se princípio e razão de toda a realidade" [12], encontra-se sempre mais empobrecido daquele "suplemento de alma" que lhe é tanto mais necessário quanto mais uma larga disponibilidade de bens materiais e de recursos o ilude na autosuficiência. Já não é necessário combater Deus, pensa-se simplesmente poder prescindir d'Ele.

Neste quadro, refira-se, em particular, a desagregação da realidade familiar e o obscurecimento ou a falsificação do verdadeiro sentido da sexualidade humana: são fenómenos que incidem de modo fortemente negativo sobre a educação dos jovens e sobre a sua disponibilidade para toda e qualquer vocação religiosa. Além disso, deve notar-se o agravamento das injustiças sociais e a concentração das riquezas nas mãos de poucos, como fruto de um capitalismo desumano, [13] que alarga cada vez mais a distância entre povos opulentos e povos indigentes: são deste modo introduzidas, na convivência humana, tensões e inquietações que perturbam profundamente a vida das pessoas e das comunidades.

Também no âmbito eclesial, se registam fenómenos preocupantes e negativos que têm influência directa sobre a vida e o ministério dos sacerdotes. Assim, a ignorância religiosa que permanece em muitos crentes; a escassa incidência da catequese, sufocada pelas mais difusas e persuasivas mensagens dos meios de comunicação de massa; o pluralismo teológico, cultural e pastoral mal compreendido que, embora partindo muitas vezes de boas intenções, acaba por tornar difícil o diálogo ecuménico e por atentar contra a necessária unidade da ; o persistir de um sentido de desconfiança e quase insensibilidade para com o magistério hierárquico; as iniciativas unilaterais e redutoras das riquezas da mensagem evangélica, que transformam o anúncio e o testemunho da num exclusivo factor de libertação humana e social ou num alienante refúgio na superstição e na religiosidade sem Deus [14].

Um fenómeno de grande relevo, ainda que relativamente recente em muitos países de antiga tradição cristã, é a presença de consistentes núcleos de raças e de religiões diferentes num mesmo território. Desenvolve-se, assim, cada vez mais a sociedade multirracial e multirreligiosa. Se isto, por um lado, pode ser ocasião para um exercício de diálogo mais frequente e frutuoso, para uma abertura de mentalidade, para experiências de acolhimento e de justa tolerância, por outro pode ser causa de confusão e relativismo, sobretudo em pessoas e populações de menos amadurecida.

A estes factores, e em estreita ligação com o crescimento do individualismo, acrescenta-se o fenómeno da subjectivização da . Com efeito, num crescente número de cristãos nota-se uma menor sensibilidade ao conjunto global e objectivo da doutrina da , em favor de uma adesão subjectiva ao que agrada, que corresponde à própria experiência, que não incomoda os próprios hábitos. Até o apelo à inviolabilidade da consciência individual, legítimo em si mesmo, não deixa de assumir, neste contexto, um perigoso carácter de ambiguidade.

Daqui deriva também o fenómeno de pertenças à Igreja cada vez mais parciais e condicionadas, que exercem influência negativa sobre o ressurgimento de novas vocações ao sacerdócio, sobre a própria autoconsciência do sacerdote e sobre o seu ministério na comunidade.

Enfim, em muitas realidades eclesiais, é, ainda hoje, a escassa presença e disponibilidade das forças sacerdotais a criar os problemas mais graves. Os fiéis estão abandonados, por vezes durante longos períodos, sem o adequado apoio pastoral: disso se vem a ressentir o crescimento da vida cristã no seu conjunto, e sobretudo, a sua capacidade de se tornarem ulteriormente promotores de evangelização.




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