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| Ioannes Paulus PP. II Pastores Dabo Vobis IntraText CT - Texto |
23. O princípio interior, a virtude que orienta e anima a vida espiritual do presbítero, enquanto configurado a Cristo Cabeça e Pastor, é a caridade pastoral, participação da própria caridade pastoral de Cristo Jesus: dom gratuito do Espírito Santo, e ao mesmo tempo tarefa e apelo a uma resposta livre e responsável do sacerdote.
O conteúdo essencial da caridade pastoral é o dom de si, o total dom de si mesmo à Igreja, à imagem e com o sentido de partilha do dom de Cristo. "A caridade pastoral é aquela virtude pela qual nós imitamos Cristo na entrega de si mesmo e no seu serviço. Não é apenas aquilo que fazemos, mas o dom de nós mesmos que manifesta o amor de Cristo pelo seu rebanho. A caridade pastoral determina o nosso modo de pensar e de agir, o modo de nos relacionarmos com as pessoas. E não deixa de ser particularmente exigente para nós" [51].
O dom de si mesmo, raiz e síntese da caridade pastoral, tem como destinatária a Igreja. Assim foi com Cristo que "amou a sua Igreja e se entregou por ela" (Ef 5, 25); assim deve ser com o presbítero. Pela caridade pastoral, que assinala o exercício do ministério sacerdotal como "amoris officium" [52], "o sacerdote que acolhe a vocação ao ministério, está em condições de fazer disto uma escolha de amor, pela qual a Igreja e as almas se tornam o seu principal interesse e, com tal espiritualidade concreta, se torna capaz de amar a Igreja universal e a porção dela que lhe é confiada, com todo o entusiasmo de um esposo na sua relação com a esposa" [53]. O dom de si mesmo não tem fronteiras, porque é marcado pelo mesmo dinamismo apostólico e missionário de Cristo Bom Pastor, que disse:"Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil; também as devo conduzir; escutarão a minha voz e então haverá um só rebanho e um só pastor" (Jo 10, 16).
No interior da comunidade eclesial, a caridade pastoral do sacerdote preconiza e exige de um modo particular e específico o seu relacionamento pessoal com o presbitério, unido no e com o Bispo, como explicitamente escreve o Concílio: "a caridade pastoral exige que os presbíteros, para que não corram em vão, trabalhem sempre em união com os Bispos e com os outros irmãos no sacerdócio" [54].
O dom de si à Igreja tem a ver com ela, enquanto Corpo e Esposa de Jesus Cristo. Por isso a caridade do padre se refere primariamente a Jesus Cristo: só se amar e servir a Cristo Cabeça e Esposo, a caridade se torna fonte, critério, medida, impulso de amor e de serviço do sacerdote para com a Igreja corpo e esposa de Cristo. É esta a consciência clara e viva do apóstolo Paulo, que, aos cristãos da Igreja de Corinto, escreve: "quanto a nós, somos vossos servos por amor de Jesus" (2 Cor 4, 5). É esta sobretudo a doutrina explícita e programática de Jesus quqndo confia a Pedro o ministério de apascentar o rebanho, só depois da sua tríplice afirmação de amor, melhor dito, de um amor de predilecção: "Perguntou-lhe pela terceira vez: 'Simão, filho de João, tu amas-me?'. E Pedro respondeu: 'Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo'. Replicou-lhe Jesus:'Apascenta as minhas ovelhas'"(Jo 21, 17).
A caridade pastoral, que tem a sua fonte específica no sacramento da Ordem, encontra a sua plena expressão e supremo alimento na Eucaristia: "Esta caridade pastoral - diz-nos o Concílio - brota sobretudo do sacrifício eucarístico, o qual constitui, portanto, o centro e a raiz de toda a vida do presbítero, de modo que a alma sacerdotal se esforçará por espelhar em si mesma o que é realizado sobre o altar do sacrifício" [55]. É na Eucaristia, de facto, que é re-presentado, ou seja, de novo tornado presente o sacrifício da cruz, o dom total de Cristo à sua Igreja, o dom do seu Corpo entregue e do seu Sangue derramado, qual testemunho supremo do seu ser Cabeça e Pastor, Servo e Esposo da Igreja. Precisamente por isto, a caridade pastoral do sacerdote não apenas brota da Eucaristia, mas encontra na celebração desta a sua mais alta realização, da mesma forma que da Eucaristia recebe a graça e a responsabilidade de conotar em sentido "sacrificial" a sua inteira existência.
Esta mesma caridade pastoral constitui o princípio interior e dinâmico capaz de unificar as múltiplas e diferentes actividades do sacerdote. Graças a ela, pode encontrar resposta a exigência permanente e essencial de unidade entre a vida interior e tantas actividades e responsabilidades do ministério, exigência sempre mais urgente num contexto sócio-cultural e eclesial fortemente assinalado pela complexidade, desagregação e dispersão. Somente a concentração de cada instante e de cada gesto à volta da opção fundamental e qualificante de "dar a vida pelo rebanho" pode garantir esta unidade vital, indispensável para a harmonia e para o equilíbrio espiritual do sacerdote: "A unidade de vida - recorda o Concílio - pode ser conseguida pelos presbíteros seguindo, no desempenho do próprio ministério, o exemplo de Cristo Senhor, cujo alimento era o cumprimento da vontade d'Aquele que o tinha enviado a realizar a sua obra (...) Assim, representando o Bom Pastor, no mesmo exercício pastoral da caridade, encontrarão o vínculo da perfeição sacerdotal que tornará efectiva a unidade entre a sua vida e actividade" [56].