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Ioannes Paulus PP. II
Pastores Dabo Vobis

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O diálogo vocacional: a iniciativa de Deus e a resposta do homem

36. A história de cada vocação sacerdotal, como aliás de qualquer outra vocação cristã, é a história de um inefável diálogo entre Deus e o homem, entre o amor de Deus que chama e a liberdade do homem que no amor responde a Deus. Estes dois aspectos indissociáveis da vocação, o dom gratuito de Deus e a liberdade responsável do homem, emergem de modo tão extraordinário quanto eficaz das brevíssimas palavras com as quais o evangelista Marcos apresenta a vocação dos Doze: Jesus "subiu depois ao monte, chamou a si aqueles que quis e eles foram ter com Ele" (Mc 3, 13). De um lado está a decisão absolutamente livre de Jesus, do outro o "ir" dos doze, ou seja, o "seguir" Jesus.

É este o paradigma constante, o dado irrecusável de cada vocação: a dos profetas, a dos apóstolos, dos sacerdotes, dos religiosos, dos leigos, de toda e qualquer pessoa.

Mas inteiramente prioritária, mais, prévia e decisiva é a intervenção livre e gratuita de Deus que chama. A iniciativa do chamamento pertence a Ele. É esta, por exemplo, a experiência do profeta Jeremias: "Foi-me dirigida a Palavra do Senhor: 'Antes de te formares no ventre materno, eu te conhecia, antes que viesses à luz eu te tinha consagrado; constituí-te profeta das nações'"(Jer 1, 4-5). É a mesma verdade apresentada pelo apóstolo Paulo que fundamenta toda a vocação na eterna eleição de Cristo, levada a cabo "antes da criação do mundo" e "segundo o beneplácito da sua vontade" (Ef 1, 5). O absoluto primado da graça na vocação encontra a sua perfeita proclamação na palavra de Jesus: "Não fostes vós que Me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos estabeleci para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça" (Jo 15, 16).

Se a vocação sacerdotal testemunha de modo inequívoco o primado da graça, a livre e soberana decisão de Deus de chamar o homem exige absoluto respeito, não pode de modo algum ser forçada por qualquer pretensão humana, não pode ser substituída por qualquer decisão humana. A vocação é um dom da graça divina e jamais um direito do homem, da mesma forma que "não se pode considerar a vida sacerdotal como uma promoção simplesmente humana, nem a missão do ministro como um simples projecto pessoal" [101]. Fica assim radicalmente excluída qualquer vaidade ou presunção dos chamados (cf. Heb 5,4-5). Todo o espaço espiritual do seu coração é tomado por uma maravilhada e comovida gratidão, por uma confiança e esperança inabaláveis, porque os chamados sabem que estão assentes não nas próprias forças, mas sobre a incondicional fidelidade de Deus que chama.

"Chamou aqueles que quis e estes foram ter com Ele" (Mc 3, 1). Este "ir", que se identifica com o "seguir" Jesus, exprime a resposta livre dos Doze ao chamamento do Mestre. Foi assim o caso de Pedro e de André: "E disse-lhes: 'segui-me e farei de vós pescadores de homens'. E eles, imediatamente deixando as redes, seguiram-no" (Mt 4, 19-20). Idêntica foi a experiência de Tiago e João (cf. Mt 4, 21-22). É sempre assim: na vocação, resplandece conjuntamente o amor gratuito de Deus e a exaltação mais alta possível da liberdade do homem - a da adesão ao chamamento de Deus e do confiar-se a Ele.

Na realidade, graça e liberdade não se opõem entre si. Pelo contrário, a graça anima e sustenta a liberdade humana, livrando-a da escravidão do pecado (cf. Jo 8, 34-36), sanando e elevando-a na sua capacidade de abertura e de acolhimento do dom de Deus. E se não se pode atentar contra a iniciativa absolutamente gratuita de Deus que chama, também não pode atentar contra a extrema seriedade com que o homem é desafiado na sua liberdade. Assim, ao "vem e segue-me" de Jesus, o jovem rico opõe uma recusa, sinal - mesmo que negativo - da sua liberdade: "mas ele, entristecido por aquelas palavras, retirou-se abatido porque possuía muitos bens" (Mc 10, 22).

A liberdade, portanto, é essencial à vocação, uma liberdade que na resposta positiva se qualifica como adesão pessoal profunda, como doação de amor, ou melhor, de reentrega ao Doador que é Deus que chama, como oblação. "O chamamento - dizia Paulo VI - avalia-se pela resposta. Não pode haver vocações que não sejam livres; se elas não forem realmente oferta espontânea de si mesmo, conscientes, generosas, totais (...) Oblações, digamos: aqui se encontra praticamente o verdadeiro problema (...) É a voz humilde e penetrante de Cristo que diz, hoje como ontem, e mais do que ontem: "vem!". A liberdade é colocada na sua base suprema: exactamente a da oblação, da generosidade, do sacrifício" [102].

A oblação livre que constitui o núcleo íntimo e mais precioso da resposta do homem a Deus que chama, encontra o seu incomparável modelo, mais, a sua raiz viva na libérrima oblação de Jesus Cristo, o primeiro dos chamados, à vontade do Pai: "Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: 'Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas preparaste-me um corpo (...) Então eu disse: Eis que venho (...) para fazer, ó Deus, a tua vontade" (Heb 10, 5-7).

Em íntima comunhão com Cristo, Maria, a Virgem Mãe, foi a criatura que, mais do que qualquer outra, viveu a plena verdade da vocação, porque ninguém como ela respondeu com um amor tão grande ao amor imenso de Deus [103].




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