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| Ioannes Paulus PP. II Pastores Dabo Vobis IntraText CT - Texto |
46. O texto conciliar merece uma cuidada meditação, da qual se podem facilmente extrair alguns valores fundamentais e exigências do caminho espiritual do candidato ao sacerdócio.
Impõe-se, antes de mais nada, o valor e a exigência de "viver intimamente unidos" a Jesus Cristo. A união ao Senhor Jesus, que se fundamenta no Baptismo e se alimenta com a Eucaristia, exige exprimir-se na vida de cada dia, renovando-a radicalmente. A íntima comunhão com a Santíssima Trindade, ou seja, a vida nova da graça que nos torna filhos de Deus, constitui a "novidade" do crente: uma novidade que envolve o ser e o operar. Constitui o "mistério" da existência cristã que está sob o influxo do Espírito: deve constituir, por conseguinte, o "ethos" da vida do cristão. Jesus ensinou-nos este maravilhoso conteúdo da vida cristã, que é ao mesmo tempo o coração da vida espiritual, com a alegoria da videira e dos sarmentos: "Eu sou a verdadeira videira e o meu Pai é o agricultor (...) permanecei em mim e eu em vós. Como o ramo não pode dar fruto se não estiver unido à videira, assim também vós se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, porque sem mim nada podereis fazer" (Jo 15, 1.4-5).
Na cultura actual, não faltam, é certo, valores espirituais e religiosos, e o homem, apesar de toda a aparência em contrário, permanece incansavelmente um faminto e sedento de Deus. Porém, muitas vezes a religião cristã arrisca-se a ser considerada uma religião entre muitas outras, senão mesmo a ser reduzida a uma pura ética social ao serviço do homem. Assim nem sempre emerge a sua desconcertante "novidade" na história: ela é "mistério", é o evento do Filho de Deus, que se faz homem, e dá a quantos o acolhem "o poder de se tornarem filhos de Deus" (Jo 1, 12), é o anúncio, mais, é o dom da aliança pessoal de amor e de vida de Deus com o homem. Só se os futuros sacerdotes, por meio de uma adequada formação espiritual, tiverem de facto uma consciência profunda e experiência crescente deste "mistério", poderão comunicar aos outros tão surpreendente e beatificante anúncio (cf. 1 Jo 1,1-4).
O texto conciliar, ainda que consciente da absoluta transcendência do mistério cristão, conota a íntima comunhão dos futuros sacerdotes com Jesus, com o matiz da amizade. Esta não é uma absurda presunção do homem. É simplesmente o dom inestimável de Cristo, que disse aos seus apóstolos: "Já não vos chamo servos porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamo-vos amigos porque tudo o que ouvi de meu Pai vo-lo dei a conhecer" (Jo 15,15).
O trecho referido indicando um segundo grande valor espiritual: a procura de Jesus. "Ensinem-se a procurar Cristo". E este, juntamente com o quaerere Deum, um tema clássico da espiritualidade cristã, que encontra uma aplicação específica no âmbito da vocação dos apóstolos. João, ao narrar o seguimento de Jesus dos dois primeiros discípulos, põe em claro o lugar ocupado por esta "procura". É o próprio Jesus que põe a pergunta: "Que procurais?" E os dois respondem: "Mestre, onde moras?". Prossegue o evangelista: "Disse-lhes: 'vinde ver'. Foram e viram onde habitava e naquele dia ficaram com ele" (Jo 1, 37-39). Em certo sentido, a vida espiritual de quem se prepara para o sacerdócio é dominada por esta procura: por esta e pelo "encontrar" o Mestre, para o seguir e permanecer em comunhão com Ele. Também no ministério e na vida sacerdotal, esta procura deverá continuar, tão inesgotável é o mistério da imitação e da participação na vida de Cristo. Assim como deverá continuar este "encontrar" o Mestre, para transmiti-lo aos outros, melhor ainda, para despertar nos outros o desejo de procurar o Mestre. Mas isto só é verdadeiramente possível se for proposta aos outros uma "experiência" de vida, uma experiência que mereça ser partilhada. Foi este o caminho seguido por André para conduzir o irmão, Simão, a Jesus: André, escreve o evangelista João, "encontrou em primeiro lugar Simão, seu irmão, e disse-lhe: encontrámos o Messias (que significa Cristo) e conduziu-o a Jesus" (Jo 1, 41-42). E assim também Simão será chamado como apóstolo, para o seguimento do Messias: "Jesus, fixando nele o olhar, disse: 'Tu és Simão filho de João; chamar-te-ás Cefas (que quer dizer Pedro)'" (Jo 1,42).
Mas que significa na vida espiritual procurar Cristo? E onde encontrá-Lo? "Mestre, onde moras?". O decreto conciliar Optatam totius indica um tríplice caminho a percorrer: a fiel meditação da Palavra de Deus, a activa participação nos mistérios sacrossantos da Igreja, o serviço da caridade aos simples. São três grandes valores e exigências que definem ulteriormente o conteúdo da formação espiritual do candidato ao sacerdócio.