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Ioannes Paulus PP. II
Pastores Dabo Vobis

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72. Um primeiro aprofundamento diz respeito à dimensão humana da formação sacerdotal. No contacto quotidiano com os homens, partilhando a sua vida de cada dia, o sacerdote deve aumentar e aprofundar aquela sensibilidade humana que lhe permite compreender as necessidades e acolher os pedidos, intuír as questões não expressas, partilhar as esperanças, as alegrias e as fadigas do viver comum, ser capaz de encontrar a todos e de dialogar com todos. Sobretudo conhecendo e partilhando, isto é, fazendo sua a experiência humana da dor na multiplicidade das suas manifestações, desde a indigência à doença, da marginalização à ignorância, à solidão, à pobreza material e moral, o padre enriquece a própria humanidade e torna-a mais autêntica e transparente, num crescente e apaixonado amor pelo homem.

No amadurecimento da sua formação humana, presbítero recebe uma particular ajuda da graça de Jesus Cristo: a caridade do Bom Pastor, de facto, exprimiu-se não só com o dom da salvação aos homens, mas também com a partilha da sua vida, da qual o Verbo, que se fez "carne"(cf. Jo 1, 14), quis conhecer a alegria e o sofrimento, experimentar a fadiga, partilhar as emoções, consolar a dor. Vivendo como homem entre e com os homens, Jesus Cristo oferece a mais absoluta, genuína e perfeita expressão de humanidade: vemo-l'O a fazer festa nas bodas de Caná, a frequentar uma família de amigos, a comover-se com a multidão faminta que O segue, a restituir aos pais os seus filhos doentes ou mortos, a chorar a morte de Lázaro...

Do sacerdote, cada vez mais amadurecido na sua sensibilidade humana, o Povo de Deus deve poder dizer algo de análogo ao que o autor da Carta aos Hebreus escreve de Jesus: "Não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo,à nossa semelhança, excepto no pecado" (Heb 4, l5).

A formação na sua dimensão espiritual é uma exigência da vida nova e evangélica, à qual o presbítero é chamado, de um modo específico, pelo Espírito Santo infundido no sacramento da Ordem. O Espírito, consagrando-o e configurando-o a Jesus Cristo Cabeça e Pastor, cria uma ligação que, situada no próprio ser do sacerdote, precisa de ser assimilada e vivida de maneira pessoal, isto é, consciente e livre, mediante uma comunhão de vida e de amor cada vez mais rica e uma partilha sempre mais ampla e radical dos sentimentos e das atitudes de Jesus Cristo. Neste ligame entre o Senhor Jesus e o padre, ligame ontológico e psicológico, sacramental e moral, está o fundamento e, ao mesmo tempo, a força para aquela "vida segundo o Espírito" e aquela "radicalidade evangélica", à qual é chamado todo o sacerdote, e que é favorecida pela formação permanente no seu aspecto espiritual. Esta formação mostra-se também necessária à autenticidade e fecundidade do ministério sacerdotal. "Exercitas a cura de almas?", perguntava S. Carlos Borromeu no seu discurso dirigido aos sacerdotes, e respondia deste modo: "Não descuides por causa disso o cuidado de ti mesmo, e não te dês aos outros até ao ponto de não restar nada de ti, para ti próprio. Certamente, deves ter presente a recordação das almas de quem és pastor, mas não te esqueças de ti mesmo. Compreendei, irmãos, que nada é tão necessário a todas as pessoas eclesiásticas como a meditação que precede, acompanha e segue todas as nossas acções: cantarei, diz o profeta, e meditarei (cf. Sal 100, 1). Se administras os sacramentos, ó irmão, medita no que fazes. Se celebras a Missa, medita no que ofereces. Se recitas os salmos em coro, medita a quem e de que coisa falas. Se guias as almas, medita com que sangue foram lavadas; e tudo se faça entre vós na caridade(1 Cor 16, 14). Assim poderemos superar as dificuldades que encontramos, e são inumeráveis, cada dia. De resto, isto é-nos pedido pela tarefa que nos foi confiada. Se assim fizermos, teremos a força para gerar Cristo em nós e nos outros" [216].

Em particular, a vida de oração deve ser continuamente "renovada" no sacerdote. A experiência, de facto, ensina que na oração não se vive dos rendimentos: em cada dia é preciso não só reconquistar a fidelidade exterior aos momentos de oração, sobretudo aos que se destinam à celebração da Liturgia das Horas e àqueles deixados à escolha pessoal livres de prazos e horários de serviço litúrgico, mas também e especialmente reeducar à contínua procura de um verdadeiro encontro pessoal com Jesus, de um confiante colóquio com o Pai, de uma profunda experiência do Espírito.

Quando o apóstolo Paulo diz de todos os crentes que devem chegar " a formar o homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo" (Ef 4, 13), isto aplica-se de modo específico aos sacerdotes chamados à perfeição da caridade e, portanto, à santidade, até porque o seu próprio ministério pastoral pede que eles sejam modelos vivos para todos os fiéis.

Também a dimensão intelectual da formação precisa de ser continuada e aprofundada durante toda a vida do presbítero em particular mediante um estudo e actualização cultural séria e empenhada. Participante da missão profética de Jesus e inserido no mistério da Igreja Mestra da verdade, ele é chamado a revelar aos homens, em Jesus Cristo, o rosto de Deus e, com isso, o verdadeiro rosto do homem [217]. Mas isto exige que o próprio sacerdote procure esse rosto e O contemple com veneração e amor (cf. Sal 26, 8; 41, 2): só assim o pode dar a conhecer aos outros. Em particular, a continuação do estudo teológico mostra-se necessária para que ele possa desempenhar com fidelidade o ministério da Palavra, anunciando-a sem confusões nem ambiguidades, distinguindo-a das simples opiniões humanas, mesmo se famosas e muito difusas. Assim poderá verdadeiramente colocar-se ao serviço do Povo de Deus, ajudando-o a dar as razões da esperança cristã a quem as pedir (cf. 1 Ped 3, 15). Além disso,"o sacerdote, aplicando-se com consciência e constância ao estudo teológico, está em condições de assimilar de forma segura e pessoal a genuína riqueza eclesial. Pode, portanto, cumprir a missão que o empenha na resposta às dificuldades acerca da autêntica doutrina católica, e superar a inclinação própria e a dos outros para a divergência e a atitude negativa a respeito do Magistério e da Tradição" [218].

O aspecto pastoral da formação permanente está bem expresso nas palavras do apóstolo Pedro: "Como bons dispenseiros das graças de Deus, cada um de vós ponha à disposição dos outros os dons que recebeu" (1 Ped 4, 10). Para viver em cada dia segundo os dons recebidos, é preciso que o sacerdote esteja cada vez mais aberto para acolher a caridade pastoral de Jesus Cristo, que lhe foi dada pelo Seu Espírito no sacramento recebido. Assim como toda a actividade do Senhor foi o fruto e o sinal da caridade pastoral, assim deve ser também a actividade ministerial do padre. A caridade pastoral é um dom e, ao mesmo tempo, uma tarefa, uma graça e uma responsabilidade à qual é preciso ser fiel, ou seja, é preciso acolhê-la e viver o seu dinamismo até às exigências mais radicais. Esta mesma caridade pastoral, como se disse, impele e estimula o presbítero a conhecer cada vez melhor a condição real dos homens aos quais é enviado, a discernir os apelos do Espírito nas circunstâncias históricas em que está inserido, a procurar os métodos mais adaptados e as formas mais úteis para exercer hoje o seu ministério. Assim, a caridade pastoral anima e sustenta os esforços humanos do sacerdote em vista de uma acção pastoral que seja actual, credível e eficaz. Mas isto exige uma permanente formação pastoral.

O caminho para a maturidade não requer só que o sacerdote continue a aprofundar as diversas dimensões da sua formação, mas também e sobretudo que saiba integrar cada vez mais harmoniosamente entre si estas mesmas dimensões, chegando progressivamente à unidade interior: isso tornar-se-á possível pela caridade pastoral. Esta, de facto, não só coordena e unifica os diferentes aspectos mas especifica-os, conotando-os como aspectos da formação do sacerdote enquanto tal, ou seja, enquanto transparência, imagem viva, ministro de Jesus Bom Pastor.

A formação permanente ajuda-o a vencer a tentação de reduzir o seu ministério a um activismo que se torna fim em si mesmo,a uma impessoal prestação de coisas mesmo espirituais ou sagradas, a um mero emprego ao serviço da organização eclesiástica. Só a formação permanente ajuda o padre a guardar com amor vigilante o "mistério" que traz em si para o bem da Igreja e da humanidade.




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