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| Ioannes Paulus PP. II Pastores Dabo Vobis IntraText CT - Texto |
22. A imagem de Jesus Cristo Pastor da Igreja, seu rebanho, retoma e repropõe, com novos e mais sugestivos matizes, os mesmos conteúdos da de Jesus Cristo Cabeça e servo. Tornando realidade o anúncio profético do Messias Salvador, cantado jubilosamente pelo Salmista e pelo profeta Ezequiel (cf. Sal 22; Ez 34, 11-31), Jesus auto-apresenta-se como "o Bom Pastor" (Jo 10, 11.14) não só de Israel mas de todos os homens (Jo 10, 16). E a sua vida é uma ininterrupta manifestação, melhor, uma quotidiana realização da sua "caridade pastoral": sente compaixão pelas multidões porque estão cansadas e esgotadas como ovelhas sem pastor (cf. Mt 9, 35-36); procura as dispersas e tresmalhadas (cf. Mt 18, 12-14) e festeja o tê-las reencontrado, recolhe-as e defende-as, conhece-as e as chama uma a uma pelo seu nome (cf. Jo 10, 3), condu-las aos pastos verdejantes e às águas refrescantes (cf. Sal 22), para elas põe a mesa, alimentando-as com a Sua própria vida. Esta vida a oferece o Bom Pastor com a sua morte e ressurreição, como canta a liturgia romana da Igreja: "Ressuscitou o bom Pastor que deu a vida pelas suas ovelhas, e pelo Seu rebanho se entregou à morte. Aleluia" [48].
Pedro chama a Jesus o "Príncipe dos Pastores" (1 Ped 5, 4), porque a sua obra e missão continuam na Igreja através dos Apóstolos (cf. Jo 21, 15-17) e seus sucessores (cf. 1 Ped 5, 1-4), e através dos presbíteros. Em virtude da sua consagração, estes são configurados a Jesus Bom Pastor e são chamados a imitar e a reviver a sua própria caridade pastoral.
A entrega de Cristo à sua Igreja, fruto do seu amor, está conotada com aquela dedicação original que é própria do esposo no seu relacionamento com a esposa, como por mais de uma vez sugerem os textos sagrados. Jesus é o verdadeiro Esposo que oferece o vinho da salvação à Igreja (cf. Jo 2, 1-11). Ele, que é "cabeça da Igreja (...) e salvador do seu corpo" (Ef 5, 23), "amou a Igreja e se entregou a si mesmo por ela, a fim de a tornar santa, purificando-a por meio do banho da água acompanhado da palavra, de modo a fazer aparecer diante de si a Igreja resplandecente, sem mancha nem ruga ou qualquer coisa de semelhante, mas santa e imaculada" (Ef 5, 25-27). A Igreja é efectivamente o Corpo, no qual está presente e operante Jesus Cristo Cabeça, mas é também a Esposa, que surge como nova Eva do lado aberto do Redentor sobre a cruz: por isto mesmo, Cristo está "diante" da Igreja, "alimenta-a e cuida dela" (Ef 5, 29) com o dom da sua vida. O sacerdote é chamado a ser imagem viva de Jesus Cristo, Esposo da Igreja [49]: certamente ele permanece sempre parte da comunidade como crente, juntamente com todos os outros irmãos e irmãs convocados pelo Espírito, mas por força da sua incorporação a Cristo Cabeça e Pastor, encontra-se na referida posição de esposo perante a comunidade. "Enquanto representa a Cristo Cabeça, Pastor e Esposo da Igreja, o sacerdote coloca-se não só na Igreja mas perante a Igreja" [50]. Portanto ele é chamado, na sua vida espiritual, a reviver o amor de Cristo Esposo na sua relação com a Igreja Esposa. A sua vida deve iluminar-se e orientar-se também por este tratamento nupcial que lhe exige ser testemunha do amor nupcial de Cristo, ser, por conseguinte, capaz de amar a gente com um coração novo, grande e puro,com um autêntico esquecimento de si mesmo, com dedicação plena, contínua e fiel, juntamente com uma espécie de "ciúme" divino (cf. 2 Cor 11, 2), com uma ternura que reveste inclusivamente os matizes do afecto materno, capaz de assumir as "dores de parto" até que "Cristo seja formado" nos fiéis (cf. Gal 4, 19).