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| Ioannes Paulus PP. II Pastores Dabo Vobis IntraText CT - Texto |
28. "Entre as virtudes que se afiguram mais necessárias no ministério dos presbíteros, convém recordar aquela disposição de ânimo pela qual estão sempre prontos a procurar não a própria vontade, mas a d'Aquele que os enviou (cf. Jo 4, 34; 5, 30; 6, 38)" [74]. Trata-se da obediência que, no caso da vida espiritual do sacerdote, reveste algumas características particulares.
É, antes de mais, uma obediência "apostólica", no sentido que reconhece, ama e serve a Igreja na sua estrutura hierárquica. Não existe, efectivamente ministério sacerdotal senão na comunhão com o Sumo Pontífice e com o Colégio Episcopal, e de uma forma particular com o próprio Bispo diocesano, aos quais se deve guardar "o filial respeito e a obediência" prometidos no rito da ordenação. Esta "submissão" a quantos estão investidos da autoridade eclesial não tem nada de humilhante, antes deriva da liberdade responsável do presbítero, que acolhe não só as exigências de uma vida eclesial orgânica e organizada, mas também aquela graça de discernimento e de responsabilidade nas decisões eclesiais, que Jesus garantiu aos apóstolos e seus sucessores, a fim de ser conservado com fidelidade o mistério da Igreja e para que a coesão da comunidade cristã seja servida no seu unitário caminho para a salvação.
A obediência cristã autêntica, rectamente motivada e vivida sem servilismos, ajuda o presbítero a exercitar com evangélica transparência a autoridade que lhe é confiada perante o Povo de Deus: sem autoritarismos ou preferências demagógicas. Só quem sabe obedecer em Cristo, sabe como requerer, segundo o Evangelho, a obediência de outrem.
A obediência presbiteral reveste, além disso, uma exigência "comunitária": não se trata da obediência de um indivíduo singular que como tal se relaciona com a autoridade, mas pelo contrário, de uma obediência profundamente inserida na unidade do presbitério que, como tal, é chamado a viver a colaboração harmoniosa com o Bispo e, por meio dele, com o Sucessor de Pedro [75].
Este aspecto da obediência do sacerdote requer uma notável ascese, seja no sentido de um hábito a não se prender demasiado às próprias preferências ou a pontos de vista particulares, seja na linha de deixar espaço aos irmãos no sacerdócio para que possam valorizar os seus talentos e capacidades, fora de qualquer ciúme, inveja ou rivalidade. A do sacerdote é uma obediência vivida em comum, que parte da pertença a um único presbitério e que, sempre no interior dele e com ele, exprime orientações e opções corresponsáveis.
Finalmente, a obediência sacerdotal possui um particular carácter de "pastoralidade". A saber, vive-se num clima de constante disponibilidade para se deixar agarrar, como que "devorar", pelas necessidades e exigências do rebanho. Estas últimas devem revestir uma justa racionalidade, e por vezes terão de ser seleccionadas e sujeitas a controle, mas é inegável que a vida do presbítero é "ocupada" de modo pleno pela fome de Evangelho, de fé, de esperança e de amor de Deus, e do seu mistério, a qual mais ou menos conscientemente está presente no Povo de Deus a ele confiado.