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| Ioannes Paulus PP. II Redemptionis Donum IntraText CT - Texto |
5. A vocação encerra em si a resposta à pergunta: para quê ser homem - e como sê-lo? Esta resposta confere à vida toda uma nova dimensão e determina o seu sentido definitivo. Este sentido emerge no horizonte do paradoxo evangélico acerca da vida que se perde quando se quer salvá-la, e que, ao contrário, se salva perdendo-a «por causa de Cristo e do Evangelho», como lemos em São Marcos. (16)
À luz destas palavras reveste-se de plena evidência o chamamento de Cristo: «vai, vende o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me». (17) Entre o termo «vai» e o sucessivo «vem e segue-me» estabelece-se uma relação íntima. Pode-se dizer que estas últimas palavras determinam a própria essência da vocação; com efeito, trata-se de seguir as pegadas de Cristo (sequi = palavra latina, de onde vem a sequela Christi). Os termos «vai ... vende ... dá-o» parecem determinar bem a condição que precede a vocação. No entanto, esta condicão não é, por outro lado, algo que esteja «fora» da vocação; mas já se encontra «no interior» da mesma. O homem, efectivamente, faz a descoberta do novo sentido da própria humanidade, não apenas para «seguir» a Cristo, mas na medida em que O segue. Quando «vende o que possui» e «o dá aos pobres», é então que ele descobre que aqueles bens e aquela «vida na abundância», de que já dispunha, não constituíam o tesouro junto do qual pudesse aquietar-se: o tesouro está no seu coração, por Cristo feito capaz de «dar» aos outros, dando-se a si próprio. Rico não é aquele que possui; mas sim aquele que «dá», aquele que é capaz de dar.
Aqui neste ponto o paradoxo evangélico adquire uma expressividade particular. Torna-se um programa do ser: ser pobre, no sentido dado a este «ser» pelo Mestre de Nazaré, significa tornar-se um dispensador de bem com a própria humanidade. Isto quer dizer, igualmente, descobrir «o tesouro». Este tesouro é indestrutível. Conjuntamente ao homem ele prolonga-se na dimensão da eternidade, pertence à escatologia divina do mesmo homem. Mediante este tesouro o homem passa a ter o seu futuro definitivo em Deus. Cristo disse: «terás um tesouro no céu». E este tesouro não é «um prémio» somente, depois da morte, pelas boas obras praticadas a exemplo do divino Mestre; mas é sobretudo o completamento escatológico daquilo que se escondia por detrás dessas boas obras, já aqui na terra, no «tesouro» interior do coração. O próprio Cristo, aliás, no Sermão da Montanha, (18) ao exortar a angariar tesouros no céu, acrescentava: «onde está o teu tesouro, ai estará também o teu coração». (19) Estas palavras indicam o carácter escatológico da vocação cristã e, mais ainda, o carácter escatológico da vocação que se realiza seguindo o caminho das núpcias espirituais com Cristo, mediante a prática dos conselhos evangélicos.