| Índice | Palavras: Alfabética - Freqüência - Invertidas - Tamanho - Estatísticas | Ajuda | Biblioteca IntraText |
| Ioannes Paulus PP. II Redemptionis Donum IntraText CT - Texto |
Obediência
13. Cristo, «subsistindo na natureza de Deus, não julgou o ser igual a Deus um bem a que não devesse nunca renunciar; mas despojou-se a si mesmo, tomando a natureza de servo e tornando-se semelhante aos homens; e, reconhecido como homem por todo o seu exterior, humilhou-se, fazendo-se obediente até à morte e à morte de cruz». (71)
Tocamos aqui, por estas palavras da Carta de São Paulo aos Filipenses, a própria essência da Redenção. Nesta realidade está inscrita, primária e constitutivamente, a abediência de Cristo. Confirmam este dado também aqueloutras palavras do mesmo Apóstolo, que encontramos desta vez na Carta aos Romanos: «Assim como pela desobediência de um só homem todos foram constituídos pecadores, assim também, pela obediência de um só todos serão constituidos justos». (72)
O conselho evangélico da obediência é o chamamento que promana desta obediência de Cristo «até à morte». Os que acolhem tal chamamento, expresso pela palavra «segue-me», decidem-se — como diz o Concilio Vaticano II — a seguir Cristo, «que redimiu e santificou os homens pela sua obediência até à morte de Cruz». (73) Ao porem em prática o conselho evangélico da obediência, eles atingem a essência profunda de toda a economia da Redenção. Ao cumprirem este conselho, demonstram o desejo de obter uma participação especial na obediência daquele «um só», por cuja obediência «todos serão constituídos justos».
Pode-se dizer, portanto, que aqueles que decidem viver segundo o conselho da obediência se colocam, de uma maneira singular, entre o mistério do pecado (74) e o mistério da justificação e da graça salvífica. Passam a estar nessa «situação» com todo o estrato pecaminoso subjacente na própria natureza humana, com toda a herança da «soberba da vida» e com todas as tendências egoístas para dominar e para não servir; e decidem-se, exactamente mediante o voto de obediência, a transformar-se à semelhança de Cristo, que «redimiu e santificou os homens pela sua obediência». No conselho da obediência desejam encontrar o próprio papel na obra da Redenção de Cristo e o próprio caminho de santificação.
Foi este o caminho que Cristo traçou no Evangelho, ao falar muitas vezes do cumprimento da vontade de Deus e da busca incessante da mesma. «O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou a realizar a sua obra». (75) «Porque eu não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou». (76) «Aquele que me enviou está comigo; e não me deixou só, porque eu faço sempre o que é do seu agrado». (77) «Porque desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou». (78) Este cumprimento constante da vontade do Pai faz-nos pensar também naquela confissão messiânica do Salmista da Antiga Aliança: «Num livro está escrito de mim: cumprir a vossa vontade; meu Deus, isto eu quero e a vossa lei tenho-a fixa no íntimo do meu coração». (79)
Esta obediência do Filho — repassada de alegria — atinge o seu auge perante a Paixão e a Cruz: «Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; não seja, porém, a minha vontade a fazer-se, mas a tua». (80) Desde a oração no Getsémani por diante, a disponibilidade de Cristo para fazer a vontade do Pai foi sendo plenamente actuada, até ao extremo limite do sofrimento; e traduz-se naquela obediência «até à morte e morte de Cruz», de que fala São Paulo.
As pessoas consagradas, com o voto de obediência decidem-se a imitar com humildade a obediência do Redentor de um modo especial. Com efeito, se bem que a submissão à vontade de Deus e a obediência à sua lei sejam para todos os estados condição para levar vida cristã, contudo, no «estado religioso», no «estado de perfeição», o voto de obediência cria no coração de cada um e de cada uma de vós, amados Irmãos e Irmãs, o dever de uma referência especial a Cristo «obediente até a morte». E uma vez que esta obediência de Cristo constitui o núcleo essencial da obra da Redenção, como resulta das palavras do Apóstolo acima citadas, também na observância do conselho evangélico da obediência se há-de vislumbrar um momento particular daquela «economia da Redenção» que impregna totalmente a vossa vocação na Igreja.
Daqui deriva aquela «disponibilidade total ao Espírito Santo», que age primeiro que tudo na Igreja, como se exprime o meu Predecessor Paulo VI na Exortação Apostólica Evangelica Testificatio; (81) e como, aliás, estará bem claro nas Constituições dos vossos Institutos. Daqui dimana também aquela religiosa submissão que, com espírito de fé, as pessoas consagradas hão-de demonstrar para com os próprios Superiores legítimos, que ocupam o lugar de Deus. (82) Na Carta aos Hebreus encontramos, acerca deste ponto, uma indicação muito significativa: «Sede obedientes e submissos aos vossos superiores, pois eles velam pelas vossas almas, pelas quais terão de dar contas». E o Autor da Carta acrescenta: Obedecei, para que eles façam «isto com alegria e não gemendo, coisa que não redundaria em vossa utilidade». (83)
Os Superiores, por seu turno, recordando-se de que têm o dever de excercer com espírito de serviço o múnus que lhes foi conferido, mediante o ministério da Igreja, mostrem-se sempre disponíveis para ouvir os próprios irmãos, a fim de poderem discernir melhor aquilo que o Senhor pede a cada um, salvaguardada sempre a autoridade que lhes compete para decidir e mandar o que julgarem oportuno.
A par com a submissão-obediência, concebida deste modo, anda a atitude de serviço, que informará toda a vossa vida, seguindo o exemplo do Filho do homem, o qual «não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos». (84) E a sua Mãe, no momento decisivo da Anunciação-Encarnação, penetrando desde o início em toda a economia salvífica da Redenção, disse: «Eis a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra». (85)
Recordai ainda, amados Irmãos e Irmãs, que a obediência à qual vos comprometestes, consagrando-vos a Deus sem reservas, mediante a profissão dos conselhos evangélicos, constitui uma particular expressão de liberdade interior, assim como a expressão definitiva da liberdade de Cristo foi a sua obediência «até à morte»: «eu dou a minha vida, para retomá-la depois. Ninguém ma pode tirar, mas sou eu que a dou por mim mesmo». (86)