- I. O EMPENHO ECUMÉNICO DA IGREJA CATÓLICA
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I. O EMPENHO ECUMÉNICO
DA IGREJA CATÓLICA
O desígnio de Deus e a comunhão
5.
Juntamente com todos os discípulos de Cristo, a Igreja Católica funda, sobre o
desígnio de Deus, o seu empenho ecuménico de reunir a todos na unidade. De
facto, « a Igreja não é uma realidade voltada sobre si mesma, mas aberta
permanentemente à dinâmica missionária e ecuménica, porque enviada ao mundo
para anunciar e testemunhar, actualizar e expandir o mistério de comunhão que a
constitui: a fim de reunir a todos e tudo em Cristo; ser para todos
"sacramento inseparável de unidade" ».
Já no
Antigo Testamento, referindo-se à situação do povo de Deus de então, o profeta
Ezequiel, recorrendo ao símbolo simples de duas varas, primeiro separadas e
depois juntas uma à outra, exprimia a vontade divina de « reunir de toda a
parte » os membros do seu povo dividido: « Serei o seu Deus e eles serão o meu
povo. Então as nações reconhecerão que Eu sou o Senhor que santifica Israel »
(cf. 37, 16-28). Por sua vez, o Evangelho de S. João, pensando na situação do
povo de Deus daquele tempo, vê na morte de Jesus a razão da unidade dos filhos
de Deus: « Devia morrer pela Nação. E não somente pela Nação, mas também para
trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos » (11, 51-52). De
facto, como explicará a Carta aos Efésios, « destruindo o muro de inimizade que
os separava (...), pela Cruz levando em Si próprio a morte à inimizade », Ele fez
a unidade entre o que estava dividido (cf. 2, 14.16).
6.
A vontade de Deus é a unidade de toda a humanidade dispersa. Por este motivo,
enviou o seu Filho a fim de que, morrendo e ressuscitando por nós, nos desse o
seu Espírito de amor. Na véspera do sacrifício da Cruz, Jesus mesmo pede ao Pai
pelos seus discípulos e por todos os que acreditarem n'Ele, para que sejam um só, uma comunhão viva. Daqui
deriva o dever e a responsabilidade que incumbe, diante de Deus e do seu
desígnio, sobre aqueles e aquelas que, através do Baptismo, se tornam o Corpo
de Cristo: Corpo no qual se deve realizar em plenitude a reconciliação e a
comunhão. Como é possível permanecer divididos, se, pelo Baptismo, fomos «
imersos » na morte do Senhor, ou seja, naquele mesmo acto pelo qual Deus,
através do seu Filho, abateu os muros da divisão? A « divisão contradiz
abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também
prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura ».
O caminho ecuménico: caminho da Igreja
7.
« O Senhor dos séculos, porém, prossegue sábia e pacientemente o plano da sua
graça a favor de nós pecadores. Começou ultimamente a infundir de modo mais
abundante nos cristãos separados entre si a compunção de coração e o desejo de
união. Por toda a parte, muitos homens sentiram o impulso desta graça. Também
surgiu entre os nossos irmãos separados, por moção da graça do Espírito Santo, um movimento cada vez mais intenso em ordem
à restauração da unidade de todos os cristãos. Este movimento de unidade é
chamado ecuménico. Participam dele os que invocam Deus Trino e confessam a
Cristo como Senhor e Salvador, não só individualmente, mas também reunidos em
assembleias. Cada qual afirma que o grupo onde ouviu o Evangelho é Igreja sua e
de Deus. Quase todos, se bem que de modo diverso, aspiram a uma Igreja de Deus una e visível, que seja
verdadeiramente universal e enviada ao mundo inteiro, a fim de que o mundo se
converta ao Evangelho e assim seja salvo, para glória de Deus ».
8.
Esta asserção do Decreto Unitatis
redintegratio há-de ser lida no contexto de todo o magistério conciliar. O
Concílio Vaticano II exprime a decisão da Igreja de assumir a tarefa ecuménica
em prol da unidade dos cristãos e de a propor convicta e vigorosamente: « Este
sagrado Concílio exorta todos os fiéis a que, reconhecendo os sinais dos
tempos, solicitamente participem do trabalho ecuménico ».
Ao indicar os
princípios católicos do ecumenismo, o citado Decreto retoma primariamente o
ensinamento sobre a Igreja presente na Constituição Lumen gentium, no capítulo que trata do povo de Deus. E
ao mesmo tempo, tem em conta o que se afirma na Declaração conciliar Dignitatis humanae sobre a liberdade
religiosa.
Cheia de
esperança, a Igreja Católica assume o empenho ecuménico como um imperativo da
consciência cristã, iluminada pela fé e guiada pela caridade. Também aqui se
podem aplicar as palavras de S. Paulo aos primeiros cristãos de Roma: « O amor
de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi
concedido »; assim a nossa « esperança não nos deixa confundidos » (Rm 5, 5). Esta é a esperança da unidade
dos cristãos, que encontra a sua fonte divina na unidade trinitária do Pai e do
Filho e do Espírito Santo.
9.
O próprio Jesus, na hora da sua Paixão, pediu « que todos sejam um » (Jo 17, 21). Esta unidade, que o Senhor deu
à sua Igreja e na qual Ele quer abraçar a todos, não é um elemento acessório,
mas situa-se no centro mesmo da sua obra. Nem se reduz a um atributo secundário
da Comunidade dos seus discípulos. Pelo contrário, pertence à própria essência
desta Comunidade. Deus quer a Igreja, porque Ele quer a unidade, e na unidade
exprime-se toda a profundidade da sua ágape.
De facto,
esta unidade dada pelo Espírito Santo não consiste simplesmente na confluência
unitária de pessoas que se aglomeram umas às outras. Mas trata-se de uma
unidade constituída pelos vínculos da profissão de fé, dos sacramentos e da
comunhão hierárquica. Os fiéis são um, porque, no Espírito, eles estão em comunhão com o Filho, e, n'Ele, em comunhão com o Pai: « A nossa comunhão
é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo » (1 Jo 1, 3). Para a Igreja Católica, portanto, a comunhão dos cristãos não é senão a
manifestação neles daquela graça, pela qual Deus os torna participantes da sua
própria comunhão, que é a vida
eterna. Por isso, as palavras de Cristo — « que todos sejam um » — são a oração
dirigida ao Pai para que se cumpra plenamente o seu desígnio, de tal modo que a
todos fique claro « qual seja a economia do mistério escondido desde tempos
antigos em Deus, que tudo criou » (Ef
3, 9). Acreditar em Cristo significa querer a unidade; querer a unidade
significa querer a Igreja; querer a Igreja significa querer a comunhão de graça
que corresponde ao desígnio do Pai desde toda a eternidade. Este é o
significado da oração de Cristo: « Ut unum
sint ».
10.
Na actual situação de divisão entre os cristãos e de procura respeitosa da
plena comunhão, os fiéis católicos sentem-se profundamente interpelados pelo
Senhor da Igreja. O Concílio Vaticano II reforçou o seu empenho com uma visão
eclesiológica clara e aberta a todos os valores eclesiais presentes nos outros
cristãos. Os fiéis católicos enfrentam a problemática ecuménica com espírito de
fé.
O Concílio
diz que « a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor
de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele », e contemporaneamente reconhece
que « fora da sua comunidade visível, se encontram muitos elementos de
santificação e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes à Igreja de
Cristo, impelem para a unidade católica ».
« Por isso,
as Igrejas e Comunidades separadas, embora creiamos que tenham defeitos, de
forma alguma estão despojadas de sentido e de significação no mistério da
salvação. Pois o Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como de meios de
salvação cuja virtude deriva da própria plenitude de graça e verdade confiada à
Igreja Católica ».
11.
Deste modo, a Igreja Católica afirma que, ao longo dos dois mil anos da sua
história, foi conservada na unidade com todos os bens que Deus quer dotar a sua
Igreja, e isto apesar das crises, por vezes graves, que a abalaram, as faltas
de fidelidade de alguns dos seus ministros, e os erros que diariamente investem
os seus membros. A Igreja Católica sabe que, graças ao apoio que lhe vem do
Espírito Santo, as fraquezas, as mediocridades, os pecados, e às vezes as
traições de alguns dos seus filhos, não podem destruir aquilo que Deus nela
infundiu tendo em vista o seu desígnio de graça. E até « as portas do inferno
nada poderão contra ela » (Mt 16,
18). Contudo, a Igreja Católica não esquece que, no seu seio, muitos eclipsam o
desígnio de Deus. Ao evocar a divisão dos cristãos, o Decreto sobre o
ecumenismo não ignora « a culpa dos homens dum e doutro lado »,
reconhecendo que a responsabilidade não pode ser atribuída somente aos « outros
». Por graça de Deus, porém, não foi destruído o que pertence à estrutura da
Igreja de Cristo e nem mesmo aquela comunhão que permanece com as outras
Igrejas e Comunidades eclesiais.
Com efeito,
os elementos de santificação e de verdade presentes nas outras Comunidades
cristãs, em grau variável duma para outra, constituem a base objectiva da
comunhão, ainda imperfeita, que existe entre elas e a Igreja Católica.
Na medida
em que tais elementos se encontram nas outras Comunidades cristãs, a única
Igreja de Cristo tem nelas uma presença operante. Por este motivo, o Concílio
Vaticano II fala de uma certa comunhão, embora imperfeita. A Constituição Lumen gentium ressalta que a Igreja
Católica « vê-se unida por muitos títulos » a estas Comunidades,
por uma certa união verdadeira no Espírito Santo.
12.
A mesma Constituição explicitou amplamente « os elementos de santificação e de
verdade » que, de modo distinto, se encontram e actuam para além das fronteiras
visíveis da Igreja Católica: « Muitos há, com efeito, que têm e prezam a
Sagrada Escritura como norma de fé e de vida, manifestam sincero zelo
religioso, crêem de coração em Deus Pai omnipotente e em Cristo, Filho de Deus
Salvador, são marcados pelo Baptismo que os une a Cristo e reconhecem e recebem
mesmo outros sacramentos nas suas próprias igrejas ou comunidades
eclesiásticas. Muitos de entre eles têm mesmo um episcopado, celebram a sagrada
Eucaristia e cultivam a devoção para com a Virgem Mãe de Deus. Acrescenta-se a
isto a comunhão de orações e outros bens espirituais; mais ainda, existe uma
certa união verdadeira no Espírito Santo, o qual neles actua com os dons e
graças do seu poder santificador, chegando a fortalecer alguns deles até ao
martírio. Deste modo, o Espírito suscita em todos os discípulos de Cristo o
desejo e a prática efectiva em vista de que todos, segundo o modo estabelecido
por Cristo, se unam pacificamente num só rebanho sob um só pastor ».
O Decreto
conciliar sobre o ecumenismo, referindo-se às Igrejas Ortodoxas, chega mesmo a
declarar que, « pela celebração da Eucaristia do Senhor, em cada uma dessas
Igrejas, a Igreja de Deus é edificada e cresce ». Reconhecer tudo
isto é uma questão de verdade.
13.
Este último documento enumera brevemente as implicações doutrinais desta
situação. A propósito dos membros dessas Comunidades, declara: « Justificados
no Baptismo pela fé, são incorporados a Cristo, e, por isso, com direito se
honram com o nome de cristãos e justamente são reconhecidos pelos filhos da
Igreja Católica como irmãos no Senhor ».
Pensando
nos múltiplos bens presentes nas outras Igrejas e Comunidades eclesiais, o Decreto
acrescenta: « Tudo isso, que de Cristo provém e a Cristo conduz, pertence por
direito à única Igreja de Cristo. Também não poucas acções sagradas da religião
cristã são celebradas entre os nossos irmãos separados. Por vários modos,
conforme a condição de cada Igreja ou Comunidade, estas acções podem realmente
produzir a vida da graça. Devem mesmo ser tidas como aptas para abrir a porta à
comunhão da salvação ».
Trata-se de
textos ecuménicos da maior importância. Para além dos limites da Comunidade
Católica, não existe o vazio eclesial. Muitos elementos de grande valor (eximia), que estão integrados na Igreja
Católica na plenitude dos meios de salvação e dos dons de graça que a edificam,
acham-se também nas outras Comunidades cristãs.
14.
Todos estes elementos trazem consigo o apelo à unidade, para nela encontrarem a
sua plenitude. Não se trata de aglomerar todas as riquezas dispersas nas
Comunidades cristãs, com o fim de se chegar a uma Igreja que Deus teria em
vista para o futuro. Segundo a grande Tradição atestada pelos Padres do Oriente
e do Ocidente, a Igreja Católica crê que, no acontecimento do Pentecostes, Deus
já manifestou a Igreja na sua
realidade escatológica, que Ele preparava « desde o tempo de Abel, o justo ».
Ela já está presente. Por este motivo, já nos encontramos no fim dos tempos. Os
elementos desta Igreja, já presente, existem, incorporados na sua plenitude, na
Igreja Católica e, sem tal plenitude, nas outras Comunidades, onde
certos aspectos do mistério cristão foram, por vezes, mais eficazmente
manifestados. O ecumenismo busca precisamente fazer crescer a comunhão parcial
existente entre os cristãos até à plena comunhão na verdade e na caridade.
Renovação e conversão
15.
Passando dos princípios, do imperativo da consciência cristã à realização do
caminho ecuménico rumo à unidade, o Concílio Vaticano II põe em relevo
sobretudo a necessidade da conversão do
coração. O anúncio messiânico — « completou-se o tempo e o Reino de Deus
está perto » —, e o consequente apelo — « convertei-vos e crede no Evangelho »
(Mc 1, 15) —, com os quais Jesus
inaugura a sua missão, indicam o elemento essencial que deve caracterizar
qualquer novo início: a exigência fundamental da evangelização em cada etapa do
caminho salvífico da Igreja. Mas isso aplica-se de modo particular ao processo
desencadeado pelo Concílio Vaticano II que incluiu, no âmbito da renovação, a
tarefa ecuménica de unir os cristãos divididos entre si: « Não existe verdadeiro ecumenismo sem conversão interior ».
O Concílio
apela tanto à conversão pessoal, como à conversão comunitária. O anseio de cada
Comunidade cristã pela unidade cresce ao ritmo da sua fidelidade ao Evangelho.
Ao referir-se às pessoas que vivem a sua vocação cristã, o Concílio fala de
conversão interior, de renovação da mente.
Assim, cada
um tem que se converter mais radicalmente ao Evangelho e, sem nunca perder de
vista o desígnio de Deus, deve rectificar o seu olhar. Com o ecumenismo, a
contemplação das « maravilhas de Deus » (mirabilia
Dei) enriqueceu-se de novos espaços onde o Deus Trino suscita a acção de
graças: a percepção de que o Espírito age nas outras Comunidades cristãs, a
descoberta de exemplos de santidade, a experiência das infindáveis riquezas da
comunhão dos santos, o contacto com aspectos surpreendentes do compromisso
cristão. E correlativamente estendeu-se também a necessidade de penitência: a
consciência de certas exclusões que ferem a caridade fraterna, de certas
recusas em perdoar, de um certo orgulho, daquele entrincheiramento
anti-evangélico na condenação dos « outros », de um desprezo que deriva de
falsa presunção. Assim, toda a vida dos cristãos está marcada pela solicitude
ecuménica e, de certo modo, eles são chamados a deixarem-se plasmar por ela.
16.
No magistério conciliar, há um nexo claro entre renovação, conversão e reforma.
Afirma: « A Igreja peregrina é chamada por Cristo a essa reforma perene. Como
instituição humana e terrena, a Igreja necessita perpetuamente desta reforma.
Assim, se em vista das circunstâncias das coisas e dos tempos houve
deficiências (...), tudo seja recta e devidamente restaurado no momento
oportuno ». Nenhuma Comunidade cristã pode furtar-se a este apelo.
Dialogando
com franqueza, as Comunidades ajudam-se a olhar-se conjuntamente à luz da
Tradição Apostólica. Isto leva-as a perguntar-se se realmente exprimem adequadamente
tudo aquilo que o Espírito transmitiu através dos Apóstolos. Pelo
que diz respeito à Igreja Católica, várias vezes, como, por exemplo, por
ocasião do aniversário do Baptismo da Rus',
ou da comemoração, ao cumprirem-se onze séculos, da acção
evangelizadora dos Santos Cirilo e Metódio, chamei a atenção para
tais exigências e perspectivas. Mais recentemente, o Directório para a aplicação dos princípios e das normas sobre o
ecumenismo, publicado com a minha aprovação pelo Pontifício Conselho para a
Promoção da Unidade dos Cristãos, aplicou-as no campo pastoral.
17.
Relativamente aos outros cristãos, os documentos principais da Comissão Fé e Constituição e as
declarações de numerosos diálogos bilaterais forneceram já às Comunidades
cristãs úteis instrumentos para discernir o que é necessário ao movimento
ecuménico e à conversão que este deve suscitar. Tais estudos são importantes
sob dois aspectos: mostram os notáveis progressos já alcançados e infundem
esperança por constituirem uma base segura para a busca da unidade que se há-de
continuar e aprofundar.
A
progressiva comunhão numa contínua reforma, realizada à luz da Tradição
Apostólica, é, sem dúvida, um dos traços típicos e mais importantes do
ecumenismo, na actual situação do povo cristão. Por outro lado, aquela é também
uma garantia essencial para o seu futuro. Os fiéis da Igreja Católica não podem
ignorar que o ímpeto ecuménico do Concílio Vaticano II é um dos resultados do
grande empenhamento da Igreja de então em perscrutar-se à luz do Evangelho e da
grande Tradição. Bem o compreendera o meu predecessor, Papa João XXIII, que, ao
convocar o Concílio, se recusou a separar a actualização da abertura ecuménica.
No final da Assembleia Conciliar, o Papa Paulo VI consagrou a
vocação ecuménica do Concílio ao retomar o diálogo da caridade com as Igrejas
em comunhão com o Patriarca de Constantinopla, realizando com ele aquele gesto
concreto e altamente significativo que « relegou para o esquecimento » — e «
tirou da memória e do meio das Igrejas » — as excomunhões do passado. Há que
lembrar que a criação de um organismo especial para o ecumenismo coincidiu com
o próprio início da preparação do Concílio Vaticano II, e que,
através de tal organismo, os pareceres e avaliações das outras Comunidades
cristãs tiveram a sua parte nos grandes debates sobre a Revelação, a Igreja, a
natureza do ecumenismo, e a liberdade religiosa.
Importância fundamental da doutrina
18.
Retomando uma ideia que o próprio Papa João XXIII tinha expresso na abertura do
Concílio, o Decreto sobre o ecumenismo menciona a forma de expor a
doutrina, entre os elementos de reforma contínua. Não se trata,
neste contexto, de modificar o depósito da fé, de mudar o significado dos
dogmas, de banir deles palavras essenciais, de adaptar a verdade aos gostos de
uma época, de eliminar certos artigos do Credo
com o falso pretexto de que hoje já não se compreendem. A unidade querida por
Deus só se pode realizar na adesão comum ao conteúdo integral da fé revelada.
Em matéria de fé, a cedência está em contradição com Deus, que é a Verdade. No
Corpo de Cristo — Ele que é « Caminho, Verdade e Vida » (Jo 14, 6) —, quem poderia considerar legítima uma reconciliação
levada a cabo à custa da verdade? A Declaração conciliar sobre a liberdade
religiosa atribui à dignidade humana a procura da verdade, « sobretudo no que
diz respeito a Deus e à sua Igreja », e a adesão às suas
exigências. Portanto um « estar juntos » que traísse a verdade, estaria em
oposição com a natureza de Deus, que oferece a sua comunhão, e com a exigência
de verdade que vive no mais profundo de todo o coração humano.
19.
Contudo, a doutrina deve ser apresentada de modo que se torne compreensível
àqueles para quem o próprio Deus a destina. Na Epístola encíclica Slavorum apostoli, lembrava como, por
tal motivo, Cirilo e Metódio se esforçaram em traduzir as noções da Bíblia e os
conceitos da teologia grega num contexto de experiências históricas e de
pensamento muito diverso. Queriam que a única palavra de Deus fosse assim «
tornada acessível pela adopção dos meios de se exprimir próprios de cada
civilização ». Compreenderam que não podiam « impor aos povos aos
quais deviam pregar nem sequer a indiscutível superioridade da língua grega e
da cultura bizantina, ou os costumes e modos de comportar-se da sociedade mais
desenvolvida, em que eles próprios haviam sido educados ». Desta
forma, praticavam aquela « perfeita comunhão no amor 1 preserva a Igreja de
qualquer forma de particularismo, exclusivismo étnico ou preconceito racial,
bem como de qualquer sobrançaria nacionalista ». No mesmo espírito,
não hesitei em dizer aos aborígenes da Austrália: « Não deveis ser um povo
dividido em duas partes (...). Jesus exorta-vos a acolher as suas palavras e os
seus valores na vossa própria cultura ». Já que, por sua própria natureza,
o dado de fé se destina à humanidade inteira, isso requer que ele seja
traduzido em todas as culturas. De facto, o elemento que decide a comunhão na
verdade é o significado da verdade. A
expressão da verdade pode ser multiforme. E a renovação das formas de expressão
torna-se necessária para transmitir ao homem de hoje a mensagem evangélica no
seu significado imutável.
« Esta
renovação tem, por isso, grande importância ecuménica ». E não só
uma renovação no modo de exprimir a fé, mas da própria vida de fé. Poder-se-ia
então perguntar: quem deve actuá-la? O Concílio responde com clareza a esta
pergunta: tal solicitude « vale para toda a Igreja, tanto para os fiéis como
para os pastores. Afecta a cada um em particular, de acordo com a sua
capacidade, quer na vida cristã quotidiana, quer nas investigações teológicas e
históricas ».
20.
Tudo isto é extremamente importante e de significado fundamental para a
actividade ecuménica. Vê-se, de modo inequívoco, que o ecumenismo, o movimento
a favor da unidade dos cristãos, não é só
uma espécie de « apêndice », que se vem juntar à actividade tradicional da
Igreja. Pelo contrário, pertence organicamente à sua vida e acção, devendo, por
conseguinte, permeá-la no seu todo e ser como que o fruto de uma árvore que
cresce sadia e viçosa até alcançar o seu pleno desenvolvimento.
Assim
acreditava na unidade da Igreja o Papa João XXIII, e desse modo contemplava ele
a unidade de todos os cristãos. Ao referir-se aos outros cristãos, à grande
família cristã, constatava: « É muito mais forte aquilo que nos une do que
quanto nos divide ». E o Concílio Vaticano II, por seu lado, exorta: «
Lembrem-se todos os cristãos de que tanto melhor promoverão a união dos
cristãos quanto mais se esforçarem por levar uma vida mais pura, de acordo com
o Evangelho. Porque, quanto mais unidos estiverem em comunhão estreita com o
Pai, o Verbo e o Espírito, tanto mais íntima e facilmente conseguirão aumentar
a fraternidade mútua ».
Primado da oração
21.
« Esta conversão do coração e esta
santidade de vida, juntamente com as orações particulares e públicas pela
unidade dos cristãos, devem ser tidas como a alma de todo o movimento ecuménico,
e com razão podem ser chamadas ecumenismo espiritual ».
Avança-se
pelo caminho que conduz à conversão dos corações ao ritmo do amor que se dedica
a Deus e, ao mesmo tempo, aos irmãos: a todos os irmãos, inclusive àqueles que
não estão em plena comunhão connosco. Do amor nasce o desejo de unidade, mesmo
naqueles que sempre ignoraram tal exigência. O amor é artífice de comunhão
entre as pessoas e entre as Comunidades. Se nos amamos, tendemos a aprofundar a
nossa comunhão, a orientá-la para a perfeição. O amor é dedicado a Deus como fonte perfeita de comunhão — a
unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo —, para dela haurir a força de
suscitar a comunhão entre as pessoas e as Comunidades, ou de a restabelecer
entre os cristãos ainda divididos. O amor é a corrente mais profunda que dá
vida e infunde vigor ao processo que leva à unidade.
Este amor encontra a sua expressão mais acabada na
oração em comum. Quando os irmãos que não estão em perfeita comunhão entre
si, se reunem em comum para rezar, esta sua oração é definida pelo Concílio
Vaticano II como alma de todo o movimento
ecuménico. Essa oração comum é « um meio muito eficaz para impetrar a
unidade », « uma genuína manifestação dos
vínculos pelos quais ainda estão unidos os católicos com os irmãos separados
». Mesmo quando não se reza formalmente pela unidade dos cristãos,
mas por outros motivos como, por exemplo, pela paz, a oração torna-se, por si
própria, expressão e confirmação da unidade. A oração comum dos cristãos convida
o próprio Cristo a visitar a comunidade dos que Lhe rezam: « Pois onde
estiverem reunidos, em meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles » (Mt 18, 20).
22.
Quando os cristãos rezam juntos, a meta da unidade fica mais próxima. A longa
história dos cristãos, marcada por múltiplas fragmentações, parece recompor-se
tendendo para a Fonte da sua unidade que é Jesus Cristo. Ele « é sempre o mesmo
ontem, hoje e por toda a eternidade » (Heb
13, 8). Na comunhão de oração, Cristo está realmente presente; reza « em
nós », « connosco » e « por nós ». É Ele que guia a nossa oração no Espírito
Consolador, que prometeu e deu à sua Igreja no Cenáculo de Jerusalém, quando a
constituiu na sua unidade original.
No caminho
ecuménico para a unidade, a primazia pertence, sem dúvida, à oração comum, à união orante daqueles
que se congregam à volta do próprio Cristo. Se os cristãos, apesar das suas
divisões, souberem unir-se cada vez mais em oração comum ao redor de Cristo,
crescerá a sua consciência de como é reduzido o que os divide em comparação com
aquilo que os une. Se se encontrarem sempre mais assiduamente diante de Cristo
na oração, os cristãos poderão ganhar coragem para enfrentar toda a dolorosa
realidade humana das divisões, e reencontrar-se-ão juntos naquela comunidade da
Igreja, que Cristo forma incessantemente no Espírito Santo, apesar de todas as
debilidades e limitações humanas.
23.
Enfim, a comunhão na oração induz a ver
com olhos novos a Igreja e o cristianismo. Com efeito, não se deve esquecer
que o Senhor implorou do Pai a unidade dos seus discípulos, para que servisse
de testemunho à sua missão e o mundo pudesse acreditar que o Pai O tinha
enviado (cf. Jo 17, 21). Pode-se
afirmar que o movimento ecuménico teve início, em determinado sentido, da
experiência negativa daqueles que, anunciando o único Evangelho, se apelavam
cada qual à própria Igreja ou Comunidade eclesial: uma contradição que não
podia passar despercebida a quem escutava a mensagem de salvação e que nisso via
um obstáculo para acolher o anúncio evangélico. Infelizmente, este grave
impedimento não está superado. É verdade! Não estamos ainda em plena comunhão.
E todavia, não obstante as nossas divisões, estamos percorrendo o caminho para
a plena unidade — aquela unidade que caracterizava a Igreja Apostólica nos seus
inícios e que nós procuramos sinceramente: prova-o a nossa oração comum, guiada
pela fé. Nela, reunimo-nos no nome de Cristo que é Um. Ele é a nossa
unidade.
A oração « ecuménica » está ao serviço da
missão cristã e da sua credibilidade. Por isso, deve estar especialmente presente
na vida da Igreja e em cada actividade que tenha a finalidade de favorecer a
unidade dos cristãos. É como se tivéssemos sempre de voltar a reunir-nos no
Cenáculo de Quinta-Feira Santa, embora a nossa presença juntos, em tal lugar,
aguarde ainda a sua completa realização até quando, superados os obstáculos que
se interpõem à perfeita comunhão eclesial, todos os cristãos possam reunir-se
na única celebração da Eucaristia.
24.
É motivo de alegria constatar como os vários encontros ecuménicos incluem,
quase sempre, a oração, antes, culminam nela. A Semana de Oração pela unidade dos cristãos, que se celebra no mês de
Janeiro ou, em alguns países, por volta do Pentecostes, tornou-se uma tradição
difusa e consolidada. Mas, mesmo fora dela, muitas são as ocasiões, ao longo do
ano, que induzem os cristãos a rezarem juntos. Neste contexto, desejo mencionar
aquela experiência particular que é o peregrinar
do Papa pelas Igrejas, nos diversos continentes e nos vários países daoikoumene contemporânea. Estou ciente de
que foi o Concílio Vaticano II que encaminhou o Papa para este especial
exercício do seu ministério apostólico. Mais: o Concílio fez deste peregrinar
do Papa um preciso dever no cumprimento do papel do Bispo de Roma ao serviço da
comunhão. Estas minhas visitas comportaram, quase sempre, um
encontro ecuménico e a oração comum de
irmãos que procuram a unidade em Cristo e na sua Igreja. Recordo, com
particular emoção, a oração em comum com o Primaz da Comunhão Anglicana na
Catedral de Cantuária, em 29 de Maio de 1982, quando, naquele templo admirável,
reconhecia uma « demonstração eloquente dos
nossos longos anos de herança comum e dos tristes anos de separação que se lhes
seguiram »; nem posso esquecer os encontros ecuménicos nos
Países Escandinavos e Nórdicos (1-10 de Junho de 1989), nas Américas e na
África, ou aqueloutro na sede do Conselho Ecuménico das Igrejas (12 de Junho de
1984), o organismo que se propõe como objectivo chamar as Igrejas e as
Comunidades eclesiais, que dele fazem parte, « à meta da unidade visível numa
só fé e numa única comunidade eucarística, expressa no culto e na vida comum em
Cristo ». E como poderei esquecer a minha participação na liturgia
eucarística na igreja de S. Jorge, no Patriarcado Ecuménico (30 de Novembro de
1979), e a celebração na Basílica de S. Pedro, durante a visita a Roma do meu
venerável Irmão, o Patriarca Dimítrios I (6 de Dezembro de 1987)? Naquela
circunstância, junto do altar da Confissão, nós professamos juntos o Símbolo
Niceno-Constantinopolitano, conforme o texto original grego. É impossível
descrever em poucas palavras os traços específicos que caracterizaram cada um
destes encontros de oração. Pelos condicionalismos do passado que, de modo
variável, pesavam sobre cada um deles, todos se revestem de uma própria e
singular expressividade; todos estão esculpidos na memória da Igreja, que é
guiada pelo Espírito Paráclito na procura da unidade de todos os crentes em
Cristo.
25.
Não foi só o Papa que se fez peregrino. Durante estes anos, numerosos dignos
representantes de outras Igrejas e Comunidades eclesiais me visitaram em Roma,
e pude rezar com eles em ocasiões públicas e privadas. Aludi já à presença do
Patriarca ecuménico Dimítrios I. Gostaria agora de lembrar também aquele
encontro de oração que congregou, na Basílica de S. Pedro, para a celebração
das Vésperas, a minha pessoa e os Arcebispos luteranos, primazes da Suécia e da
Finlândia, por ocasião do VIo centenário da canonização de Santa Brígida (5 de
Outubro de 1991). Trata-se só de um exemplo, já que a consciência do dever de
orar pela unidade se tornou parte integrante da vida da Igreja. Não existe
acontecimento importante, significativo, que não goze da presença recíproca e
da oração dos cristãos. É-me impossível enumerar todos estes encontros, embora
cada um merecesse ser nomeado. Verdadeiramente o Senhor tomou-nos pela mão e
guia-nos. Estes encontros, estas orações escreveram já páginas e páginas do
nosso « Livro da unidade », um « Livro » que devemos sempre folhear e reler
para dele obter inspiração e esperança.
26.
A oração, a comunhão de oração permite-nos voltar à verdade evangélica das
palavras: « Um só é o vosso Pai » (Mt 23, 9) — aquele Pai, Abbà, que o próprio Cristo invoca, Ele
que é seu Filho unigénito e consubstancial. E o mesmo se diga quanto à
afirmação: « Um só é o vosso Mestre,
e vós sois todos irmãos » (Mt 23, 8). A oração « ecuménica »
descobre esta dimensão fundamental da fraternidade em Cristo, que morreu para
reunir na unidade todos os filhos de Deus que estavam dispersos, morreu para
que, tornando-nos « filhos no Filho » (cf. Ef
1, 5), reflectíssemos mais plenamente a insondável realidade da paternidade de
Deus e, ao mesmo tempo, a verdade sobre a humanidade própria de cada um e de
todos.
A oração «
ecuménica », a oração dos irmãos e irmãs exprime tudo isso. Precisamente por
estarem separados entre si, eles, com esperança ainda maior, unem-se em Cristo, confiando-Lhe o futuro da
sua unidade e da sua comunhão. Aqui poder-se-ia aplicar, uma vez mais e
muito a propósito, o ensinamento do Concílio: « Quando o Senhor Jesus pede ao
Pai « que todos sejam um (...), como
nós somos um » (Jo 17, 21-22), sugere
— abrindo perspectivas inacessíveis à razão humana — que há uma certa analogia
entre a união das pessoas divinas entre Si e a união dos filhos de Deus na
verdade e na caridade ».
A própria
conversão interior do coração, condição essencial de toda a autêntica procura
da unidade, deriva da oração e por ela é orientada para a sua perfeição: « Os
anseios de unidade nascem e amadurecem a partir da renovação da mente, da abnegação
de si mesmo e da libérrima efusão da caridade. Por isso, devemos implorar do Espírito divino a graça da
sincera abnegação, humildade e mansidão em servir, e da fraterna generosidade
para com os outros ».
27.
No entanto, rezar pela unidade não está só reservado a quem vive num contexto
de divisão entre os cristãos. Naquele diálogo íntimo e pessoal, que cada um de
nós deve estabelecer com o Senhor na oração, a preocupação pela unidade não
pode ficar de fora. Pois só assim é que tal preocupação fará parte plenamente
da realidade da nossa vida e dos compromissos que assumimos na Igreja. Para
confirmar esta exigência, eu quis propor aos fiéis da Igreja Católica um
modelo, que me parece exemplar, o de uma freira trapista, Maria Gabriela da Unidade, que proclamei beata no dia 25 de Janeiro
de 1983. A Irmã Maria Gabriela, chamada pela sua vocação a estar
fora do mundo, dedicou a existência à meditação e à oração, centradas no
capítulo 17 do Evangelho de S. João, oferecendo-as pela unidade dos cristãos.
Está aqui o fulcro de toda a oração: a oferta total e sem reservas da própria
vida ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. O exemplo da Irmã Maria Gabriela
ensina e faz-nos compreender como não haja tempos, situações ou lugares
particulares para rezar pela unidade. A oração de Cristo ao Pai é modelo para
todos, sempre e em qualquer lugar.
Diálogo ecuménico
28.
Se a oração é a « alma » da renovação ecuménica e do anseio pela unidade, sobre
ela se baseia e dela recebe apoio tudo
aquilo que o Concílio define « diálogo » . Essa definição não é certamente
independente do pensamento personalista
actual. A atitude de « diálogo » situa-se ao nível da natureza da pessoa e da
sua dignidade. Do ponto de vista filosófico, uma tal posição une-se à verdade
cristã sobre o homem expressa pelo Concílio: ele « é a única criatura sobre a
terra a ser querida por Deus por si mesma »; por isso, o homem não pode «
encontrar-se plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo ». O
diálogo é passagem obrigatória do caminho a percorrer para a auto-realização do homem, tanto do indivíduo como de cada
comunidade humana. Embora do conceito de « diálogo » pareça emergir em
primeiro plano o aspecto cognoscitivo (dia-logos),
todo o diálogo contém em si uma dimensão global, existencial. Por isso, ele
compromete o indivíduo humano na sua totalidade; o diálogo entre as comunidades
empenha, de modo particular, a subjectividade de cada uma delas.
Esta
verdade sobre o diálogo, expressa com tanta profundidade pelo Papa Paulo VI na
Encíclica Ecclesiam suam,
foi também assumida pela doutrina e pela prática ecuménica do Concílio. O
diálogo não é apenas uma troca de ideias; de algum modo, é sempre um « intercâmbio
de dons ».
29.
Por este motivo, também o Decreto conciliar sobre o ecumenismo põe em primeiro
plano « todos os esforços para eliminar palavras, juízos e acções que, segundo a
equidade e a verdade, não correspondem à condição dos irmãos separados e, por
isso, tornam mais difíceis as relações com eles ». Tal documento
enfrenta a questão do ponto de vista da Igreja Católica, referindo-se ao
critério que ela deve aplicar em relação aos outros cristãos. Em tudo isso,
porém, há uma exigência de reciprocidade. Ater-se a tal critério é compromisso
de cada uma das partes que quer dialogar, e é condição prévia para o iniciar. É
preciso passar de uma posição de antagonismo e de conflito para um nível onde
um e outro se reconheçam reciprocamente como partner. Quando se começa a dialogar, cada uma das partes deve pressupor uma vontade de reconciliação no seu
interlocutor, de unidade na verdade.
Para realizar tudo isso, devem desaparecer as manifestações de confrontação
recíproca. Somente assim o diálogo ajudará a superar a divisão e poderá
aproximar da unidade.
30.
Pode-se afirmar, com viva gratidão ao Espírito de verdade, que o Concílio
Vaticano II foi um acontecimento abençoado, durante o qual se estabeleceram as
condições basilares para a participação da Igreja Católica no diálogo
ecuménico. Por outro lado, a presença de numerosos observadores de várias
Igrejas e Comunidades eclesiais, a sua profunda participação no evento
conciliar, os inúmeros encontros e as orações comuns que o Concílio tornou
possível, contribuíram para criar as condições
para dialogar juntos. Durante o Concílio, os representantes das outras
Igrejas e Comunidades cristãs experimentaram a disponibilidade para o diálogo
por parte do episcopado católico de todo o mundo e, em particular, da Sé
Apostólica.
Estruturas locais de diálogo
31.
O empenhamento no diálogo ecuménico, tal como ficou patente desde os tempos do
Concílio, longe de ser prerrogativa da Sé Apostólica, incumbe também sobre cada
uma das Igrejas locais ou particulares. Especiais comissões para a promoção do
espírito e da acção ecuménica foram instituídas pelas Conferências Episcopais e
pelos Sínodos das Igrejas Orientais Católicas. Análogas e oportunas estruturas
operam ao nível de cada diocese. Tais iniciativas comprovam o envolvimento
concreto e geral da Igreja Católica na aplicação das orientações conciliares
sobre o ecumenismo: este é um aspecto essencial do movimento ecuménico.
O diálogo não só foi iniciado, mas tornou-se uma expressa necessidade, uma das prioridades da Igreja;
em consequência, foi aprimorada a « técnica » de dialogar, favorecendo,
contemporaneamente, o crescimento do espírito de diálogo. Neste contexto,
pretende-se aludir, antes de mais, ao diálogo entre os cristãos das diversas
Igrejas ou Comunidades, « estabelecido entre peritos competentes, (...) em que
cada qual explica mais profundamente a doutrina da sua Comunidade, e apresenta
com clareza as suas características ». No entanto, é útil a cada
fiel conhecer o método que permite o diálogo.
32.
Como afirma a Declaração conciliar sobre a liberdade religiosa, « a verdade
deve ser buscada pelo modo que convém à dignidade da pessoa humana e da sua
natureza social, isto é, por meio de uma busca livre, com a ajuda do magistério
ou ensino, da comunicação e do diálogo, com os quais os homens dão a conhecer
uns aos outros a verdade que encontraram ou julgam ter encontrado, a fim de se
ajudarem mutuamente na inquirição da verdade; uma vez conhecida esta, deve-se
aderir a ela com um firme assentimento pessoal ».
O diálogo
ecuménico tem uma importância essencial. « Com este diálogo, todos adquirem um
conhecimento mais verdadeiro e um apreço
mais justo da doutrina e da vida de cada Comunhão. Então estas Comunhões
conseguem também uma mais ampla
colaboração em certas obrigações que a consciência cristã exige em vista do
bem comum. E onde for possível, reunem-se em oração unânime. Enfim, todos
examinam a sua fidelidade à vontade de Cristo acerca da Igreja e, na medida da
necessidade, levam vigorosamente por diante o trabalho de renovação e de
reforma ».
Diálogo como exame de consciência
33.
Segundo o Concílio, o diálogo ecuménico tem o carácter de uma procura comum da
verdade, em particular sobre a Igreja. De facto, a verdade forma as consciências
e orienta-as na sua acção a favor da unidade. Ao mesmo tempo, exige que a
consciência dos cristãos, irmãos divididos entre si, e as suas obras sejam
submetidas à oração de Cristo pela unidade. Há sinergia entre oração e diálogo.
Uma oração mais profunda e consciente torna o diálogo mais rico de frutos. Se,
por um lado, a oração é a condição para o diálogo, por outro, ela torna-se, de
forma cada vez mais matura, o seu fruto.
34.
Graças ao diálogo ecuménico, podemos falar de uma maior maturidade da nossa
recíproca oração comum. Isto é possível na medida em que o diálogo exerce também, e contemporaneamente, a função de um exame de
consciência. Como não lembrar, neste contexto, as palavras da Primeira
Carta de João? « Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e
não há verdade em nós. Se confessarmos os nossos pecados, Ele (Deus) é fiel e
justo para nos perdoar os pecados e purificar-nos de toda a iniquidade » (1,
8-9). E João impele-nos a ir ainda mais longe, quando afirma: « Se dissermos
que não pecamos, fazemo-Lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós » (1,
10). Uma exortação tão radical a
reconhecer a nossa condição de pecadores, deve ser também uma
característica do espírito com que se encara o diálogo ecuménico. Se este não
se tornar um exame de consciência, como que um « diálogo das consciências »,
poderemos nós contar com aquela certeza que a mesma Carta nos transmite? «
Filhinhos meus, escrevo-vos estas coisas para que não pequeis; mas, se alguém
pecar, temos um advogado junto do Pai,
Jesus Cristo, o Justo. Ele é a
propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos
de todo o mundo » (2, 1-2). Todos os pecados do mundo foram incluídos no
sacrifício salvífico de Cristo, e, portanto, também os cometidos contra a
unidade da Igreja: os pecados dos cristãos, tanto dos pastores como dos fiéis.
Mesmo depois dos inúmeros pecados que contribuíram para as históricas divisões,
a unidade dos cristãos é possível com
a condição de estarmos humildemente conscientes de ter pecado contra a unidade,
e convencidos da necessidade da nossa conversão. Não só os pecados pessoais
devem ser perdoados e vencidos, mas também os sociais, quer dizer, as próprias
« estruturas » do pecado, que contribuíram e podem contribuir para a divisão e
sua consolidação.
35.
Mais uma vez, o Concílio Vaticano II vem em nossa ajuda. Pode-se afirmar que
todo o Decreto sobre o ecumenismo está permeado pelo espírito de conversão.
O diálogo ecuménico adquire neste documento um carácter próprio:
transforma-se em « diálogo da conversão
» e, portanto, segundo a expressão do Papa Paulo VI, em autêntico « diálogo da
salvação ». O diálogo não pode actuar-se seguindo uma direcção
exclusivamente horizontal, limitando-se ao encontro, à troca de pontos de
vista, ou mesmo dos dons próprios de cada Comunidade. Mas tende também e
sobretudo a uma dimensão vertical, que o orienta para Aquele que, como Redentor
do mundo e Senhor da história, é a nossa reconciliação. A dimensão vertical do
diálogo está no comum e recíproco reconhecimento da nossa condição de homens e
mulheres que pecaram. É precisamente isto que abrirá nos irmãos, que vivem em
Comunidades não plenamente em comunhão entre si, aquele espaço interior, onde
Cristo, fonte da unidade da Igreja, pode agir eficazmente, com toda a força do
seu Espírito Paráclito.
Diálogo para resolver as divergências
36.
O diálogo é também instrumento natural para confrontar os diversos pontos de
vista e, sobretudo, examinar aquelas divergências que são obstáculo à plena
comunhão dos cristãos entre si. O Decreto sobre o ecumenismo detém-se, em
primeiro lugar, a descrever as disposições morais com que se hão-de enfrentar
os colóquios doutrinais: « No diálogo ecuménico, os teólogos católicos, sempre
fiéis à doutrina da Igreja, quando investigarem juntamente com os irmãos
separados os divinos mistérios, devem proceder com amor pela verdade, com
caridade e humildade ».
O amor à
verdade é a dimensão mais profunda de uma autêntica procura da plena comunhão
entre os cristãos. Sem esse amor, seria impossível enfrentar as reais
dificuldades teológicas, culturais, psicológicas e sociais que se encontram ao
examinar as divergências. A esta dimensão interior e pessoal, está
inseparavelmente associado o espírito de caridade e de humildade: caridade para
com o interlocutor, humildade para com a verdade que se descobre e que poderia
exigir revisão de afirmações e de atitudes.
Em relação
ao estudo das divergências, o Concílio requer que toda a doutrina seja exposta
com clareza. Ao mesmo tempo, pede que o modo e o método de formular a doutrina
católica não seja obstáculo para o diálogo com os irmãos. É
certamente possível testemunhar a própria fé e explicar a sua doutrina de um
modo que seja correcto, leal e compreensível, e simultaneamente tenha presente
tanto as categorias mentais, como a experiência histórica concreta do outro.
Obviamente,
a plena comunhão deverá realizar-se mediante a aceitação completa da verdade,
na qual o Espírito Santo introduz os discípulos de Cristo. Há-de ser, portanto,
evitada absolutamente toda a forma de reducionismo ou de fácil « concordismo ».
As questões sérias têm de ser resolvidas, porque, caso contrário, ressurgirão
noutro momento, com idêntica configuração ou sob outra roupagem.
37.
O Decreto Unitatis redintegratio
indica também um critério a seguir quando se trata de os católicos apresentarem
ou confrontarem as doutrinas: « Lembrem-se que existe uma ordem ou
"hierarquia" das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas
com o fundamento da fé cristã é diferente. Assim se abre o caminho pelo qual,
mediante esta fraterna emulação, todos se sintam incitados a um conhecimento
mais profundo e a uma exposição mais clara das insondáveis riquezas de Cristo
».
38.
No diálogo, embate-se inevitavelmente com o problema das diferentes
formulações, mediante as quais se exprime a doutrina nas várias Igrejas e
Comunidades eclesiais, facto esse que tem as suas consequências na tarefa
ecuménica.
Em primeiro
lugar, diante de formulações doutrinais que se afastem das habituais à
comunidade a que se pertence, convém, sem dúvida, averiguar se as palavras não
subentenderão um idêntico conteúdo, como, por exemplo, se constatou em recentes
declarações comuns, assinadas pelos meus Predecessores e por mim juntamente com
os Patriarcas de Igrejas com as quais existia, há séculos, um contencioso
cristológico. No que diz respeito à formulação das verdades reveladas, a
Declaração Mysterium Ecclesiae
afirma: « As verdades que a Igreja intenta realmente ensinar com as suas
fórmulas dogmáticas, embora se distingam das concepções mutáveis próprias de
uma época particular e possam ser expressas prescindindo delas, pode acontecer,
todavia, que essas mesmas verdades sejam de facto enunciadas numa terminologia
que se ressente do influxo de tais concepções. Feitas estas considerações
preliminares, deve-se dizer que as fórmulas
dogmáticas do Magistério da Igreja foram, desde os inícios, aptas para
comunicar a verdade revelada, e que permanecem sempre aptas a comunicá-la a
todos aqueles que rectamente as compreenderem ». A este propósito,
o diálogo ecuménico que estimula as partes nele envolvidas a interrogarem-se,
compreenderem-se e explicarem-se reciprocamente, permite surpreendentes
descobertas. As polémicas e as controvérsias intolerantes transformaram em
afirmações incompatíveis aquilo que, de facto, era o resultado de dois olhares
ocupados a perscrutar a mesma realidade, mas de dois ângulos distintos. É
necessário hoje encontrar a fórmula que, recolhendo a realidade em toda a sua
integridade, permita superar leituras parciais e eliminar falsas
interpretações.
Uma das
vantagens do ecumenismo é que, por seu intermédio, as Comunidades cristãs são
ajudadas a descobrir a insondável riqueza da verdade. Também neste contexto,
tudo aquilo que o Espírito opera nos « outros » pode contribuir para a
edificação de cada comunidade, e, de certo modo, para a instruir
acerca do mistério de Cristo. O ecumenismo autêntico é uma graça de verdade.
39.
Por último, o diálogo põe os interlocutores diante de verdadeiras e precisas
divergências que tocam a fé. Estas divergências hão-de ser encaradas,
sobretudo, com sincero espírito de caridade fraterna, de respeito das
exigências da própria consciência e da consciência do próximo, com profunda
humildade e amor à verdade. Nesta matéria, o confronto tem dois pontos de
referência essenciais: a Sagrada Escritura e a grande Tradição da Igreja. Serve
de ajuda aos católicos o Magistério sempre vivo da Igreja.
A colaboração prática
40.
As relações entre os cristãos não tendem somente ao recíproco conhecimento, à
oração comum e ao diálogo. Prevêem e exigem, desde já, toda a colaboração
prática possível aos diversos níveis: pastoral, cultural, social, e ainda no
testemunho da mensagem do Evangelho.
« A
cooperação de todos os cristãos exprime vivamente aquelas relações pelas quais
já estão unidos entre si, e apresenta o rosto de Cristo Servo numa luz mais
radiante ». Tal cooperação baseada na fé comum não só aparece densa
de comunhão fraterna, mas é uma epifania do próprio Cristo.
Além disso,
a cooperação ecuménica é uma verdadeira escola de ecumenismo, um dinâmico
caminho em direcção à unidade. A unidade de acção conduz à plena unidade de fé:
« Por essa cooperação, todos os que crêem em Cristo podem mais facilmente
aprender como devem entender-se melhor e estimar-se mais uns aos outros, e
assim se abre o caminho que leva à unidade dos cristãos ».
Aos olhos
do mundo, a cooperação entre os cristãos assume as dimensões de um testemunho
cristão comum, tornando-se instrumento de evangelização proveitoso a uns e a
outros.
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