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6. À primeira vista dir-se-ia que certos gestos de
"distensão" do pranteado Papa João XXIII em relação à Rússia
soviética, são de molde a orientar o espírito em sentido diverso das conclusões
deste trabalho.
É bem o contrário
que se deve pensar.
Os aludidos gestos
de João XXIII se situam inteiramente no âmbito das relações
internacionais2
.
Quanto ao plano
em que situamos este estudo, o próprio Pontífice, reafirmando na Encíclica
"Mater et Magistra" as condenações fulminadas por seus Antecessores
contra o comunismo, deixou bem claro que não pode haver uma desmobilização dos
católicos em face deste erro que os documentos pontifícios repudiam com supremo
vigor.
E, no mesmo
sentido, da parte do Papa Paulo VI, gloriosamente reinante, há que registrar
entre outros este expressivo pronunciamento: "Não se creia também que esta solicitude pastoral, assumida hoje
pela Igreja como programa primordial que absorve sua atenção e polariza seus
cuidados, signifique uma modificação do julgamento formulado acerca dos erros
disseminados em nossa sociedade, e já condenados pela Igreja, como o marxismo
ateu, por exemplo. Procurar aplicar remédios salutares e urgentes a uma doença
contagiosa e mortal não quer dizer mudar de opinião a respeito dessa doença,
mas, pelo contrário, significa procurar combatê-la não somente em teoria, mas
praticamente; significa que se quer, depois do diagnóstico, aplicar uma
terapêutica, isto é, após a condenação doutrinária, aplicar a caridade
salutar" (Alocução de 6 de setembro de 1963, aos participantes da XIII
Semana Italiana de Adaptação Pastoral, de Orvieto -- AAS, vol. LV, p. 752).
Análoga posição
tem tomado reiteradas vezes no presente pontificado o "Osservatore
Romano", órgão oficioso do Vaticano. Lê-se, por exemplo, no número de 20
de março de 1964 de sua edição em francês: "Deixando
de lado as distinções mais ou menos fictícias, é certo que nenhum católico,
direta ou indiretamente, pode colaborar com os comunistas, pois à
incompatibilidade ideológica entre Religião e materialismo (dialético e
histórico) corresponde uma incompatibilidade de métodos e de fins,
incompatibilidade prática, isto é, moral" (artigo "Le rapport
Ilitchev" de F. A.). E em outro artigo do mesmo número: "Para que o Catolicismo e o comunismo
fossem conciliáveis seria preciso que o comunismo deixasse de ser comunismo.
Ora, mesmo nos aspectos múltiplos de sua dialética, o comunismo não cede no que
diz respeito a seus fins políticos e sua intransigência doutrinária. É assim
que a concepção materialista da História, a negação dos direitos da pessoa, a
abolição da liberdade, o despotismo do Estado, e a própria experiência
econômica mais bem infeliz, colocam o comunismo em oposição com a concepção
espiritualista e personalista da sociedade tal como deriva da doutrina social
do Catolicismo (...)" (artigo "A propos de solution de remplacement").
No mesmo sentido
ainda, cabe mencionar a Carta coletiva do Venerando Episcopado Italiano contra
o comunismo ateu, datada de 1º de novembro de 1963.
De resto, também
de fontes comunistas não têm faltado as afirmações sobre a impossibilidade de
uma trégua ideológica ou de uma coexistência pacífica entre a Igreja e o
comunismo: "Aqueles que propõem a
idéia da coexistência pacífica, em matéria de ideologia, resvalam de fato para
posição anticomunista" (Kruchev, cf. telegrama de 11-3-63 da AFP e
ANSA, in "O Estado de São Paulo" de 12-3-63). "Minha impressão é que nunca, e em campo nenhum, (...) será possível chegar a
uma coexistência do comunismo com outras ideologias e portanto com a
religião" (Adjubei, cf. telegrama de 15-3-63 da ANSA, UPI e DPA, in
"O Estado de São Paulo", de 16-3-63). "Não há conciliação possível entre o catolicismo e o
marxismo" (Palmiro Togliatti, cf. telegrama de 21-3-63 da AFP, in
"O Estado de São Paulo" de 22-3-63). "Uma coexistência pacífica das
idéias comunista e burguesa constitui uma traição à classe operária (...).
Nunca houve coexistência pacífica das ideologias; nunca houve nem haverá"
(Leonid Ilitchev, secretário da Comissão Central e presidente da Comissão
Ideológica do PCUS, cf. telegrama de 18-6-63 da AFP, ANSA, AP, DPA e UPI, in
"O Estado de São Paulo" de 19-6-63). "Os soviéticos rechaçam a acusação de que Moscou aplica também o
princípio da coexistência à luta de classes, e dizem que tampouco a admitem no
terreno ideológico" (carta aberta da CC do PCUS, cf. telegrama das
agências citadas, de 15-7-63, in "O Estado de São Paulo" de 17-7-63).
Nestas condições,
é bem evidente que a Igreja militante não renunciou, e nem poderia renunciar, à
liberdade essencial para lutar contra seu terrível adversário
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