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1. A Providência de Deus,
pela qual as coisas são governadas, é semelhante, conforme foi dito no artigo
precedente, à providência pela qual o pai de família governa a casa, e o rei a
cidade ou o reino, em ambos estes governos partilhando que o bem comum seja
mais eminente do que o bem singular, assim como o bem do povo é mais eminente
do que o bem da cidade, ou o da família, ou o da pessoa, conforme encontra-se
escrito no princípio dos livros de Ética. De onde que qualquer provisor dá mais
atenção àquilo que convém à comunidade, se governa sabiamente, do que o que
convém a um apenas.
2. Alguns, porém, não
percebendo isto, considerando que nas coisas corruptíveis há algumas que
poderiam ser melhores se consideradas em si mesmo, e não percebendo a ordem do
universo, segundo a qual cada coisa é colocada otimamente em sua ordem,
disseram que o corruptível não é governado por Deus, mas somente o que é
incorruptível; na pessoa dos quais está dito, no livro de Jó, que Deus
"nas
nuvens está escondido,
e não tem cuidado das nossas coisas,
e passeia pelos pólos do Céu".
Jó 22, 14
Colocaram pois, as coisas corruptíveis
existirem e agirem inteiramente sem alguém que as governe, ou serem guiadas por
um princípio contrário.
3. A qual opinião o
Filósofo, no XII da Metafísica reprova pela semelhança com um exército,
no qual encontramos uma dupla ordem, uma pela qual as partes do exército se
ordenam entre si, e outra pela qual se ordenam ao bem exterior, isto é, ao bem
do comandante. E aquela ordem pela qual as partes do exército se ordenam entre
si existe por causa da ordem pela qual todo o exército se ordena ao comandante,
de onde que se não houvesse a ordem ao comandante, não haveria ordem das partes
do exército entre si. Na medida em que, portanto, encontramos uma multidão
ordenada entre si, importa que esta seja ordenada a um princípio exterior.
Ora, as partes do universo, corruptíveis e
incorruptíveis, são ordenadas entre si, e não por acidente, mas per se. Vemos,
de fato, que dos corpos celestes provém utilidades nos corpos corruptíveis ou
sempre ou na maior parte das vezes segundo o mesmo modo, de onde que importa
que todos, corruptíveis e incorruptíveis, existam em uma única ordem de
providência de um princípio exterior, o qual existe de modo externo ao
universo. De onde que o Filósofo conclui ser necessário colocar-se no universo
um único dominado, e não diversos.
4. Deve-se saber, todavia,
que de dois modos algo pode ser dito objeto de providência. De um modo, por
causa de si mesmo, e de outro modo por causa de outros, assim como na casa são
provistas por causa de si mesmas aquelas coisas em que essencialmente consiste
o bem da casa, isto é, os filhos, as propriedades, e outras tais, todas as
demais sendo provistas para a utilidade das anteriores, como os vasos, os
animais, e outros tais.
De modo semelhante, no universo são provistos
por causa de si mesmo aquelas coisas nas quais consiste essencialmente a
perfeição do universo; e estes tem perpetuidade assim como o universo é
perpétuo. As que, porém, não
são perpétuas, não são provistas senão por causa de outras. E, portanto,
as substâncias espirituais e os corpos celestes, que são perpétuos segundo a
espécie e segundo o indivíduo, são provistos por causa de si mesmos tanto na
espécie como no indivíduo. Mas o que é corruptível não pode ter perpetuidade
senão na espécie, de onde que as suas próprias espécies são provistas por causa
de si mesmas, mas os seus indivíduos não são provistos senão para a conservação
do ser perpétuo da espécie.
E de acordo com isto pode-se salvar a opinião
daqueles que dizem que a divina providência não se estende a tais corruptíveis senão
na medida em que participam da natureza da espécie. De fato, isto é verdade se
for entendido da providência pela qual algumas coisas são provistas por causa
de si mesmo.
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