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A. Alguns, de fato, disseram que os animais brutos
não são governados pela providência, a não ser segundo que participam da
natureza da espécie, que é por Deus provista e ordenada, e que a este modo de
providência se referem todas as coisas que são encontradas nas Sagradas
Escrituras que parecem indicar a providência de Deus acerca dos animais brutos,
como quando diz o salmista:
"Cantai ao Senhor na confissão,
salmodiai ao nosso Deus na cítara,
que dá aos jumentos o seu alimento
e aos filhos dos corvos que o invocam";
Salmo 147, 9
e também:
"Formaste
as trevas e se fêz a noite,
nela vagueiam todos os animais da selva;
os leõezinhos rugem em busca da presa,
e pedem a Deus o seu sustento";
Salmo 103, 21
e muitas
passagens semelhantes. Mas este erro atribui a Deus uma máxima imperfeição
pois, de fato, não pode dar-se que Deus conheça os atos singulares dos animais
brutos e não os ordene, sendo Deus sumamente bom, difundindo por isto em tudo a
sua bondade. Este erro, portanto, derroga a ciência divina,
subtraindo-lhe a ordenação dos particulares enquanto particulares.
B. Outros disseram, por
este motivo, que os atos dos animais brutos caem debaixo da providência do
mesmo modo como os atos dos racionais, de tal maneira que não possa acontecer
nenhum mal que eles padeçam que não seja ordenado ao bem deles próprios. Mas
isto também está longe da razão, pois não se deve pena ou prêmio senão àquele
que tem livre arbítrio.
C. Deve-se dizer, por
isso, que os animais brutos e todos os seus atos, também enquanto singulares,
estão submetidos à divina providência. Não, todavia, pelo modo segundo o qual
os homens e os seus atos lhe estão submetidos, pois os homens, mesmo enquanto singulares,
são governados pela providência por causa deles mesmos, mas os animais brutos
não são provistos enquanto singulares senão por causa dos outros, assim como já
dissemos das demais criaturas corruptíveis.
Por este motivo, o mal que acontece para o animal
bruto não tem ordenação para o bem dele próprio, mas para o bem de outro, como
a morte do asno que se ordena para o bem do leão ou do lobo. Mas a morte do
homem que é morto pelo leão não se ordena apenas a isto, mas principalmente à
sua pena ou ao aumento do seu mérito, que cresce pela paciência.
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