Usamos várias vezes, ao longo do presente estudo, a expressão
"irmãos separados", hoje tão em voga. Entremeamo-la de quando em vez
com as palavras "herege" e "cismático", que em certos
ambientes vão sendo sempre menos usadas. E agimos assim intencionalmente, pois
"irmãos separados" é uma expressão que vai sofrendo, ela também, um
uso talismânico.
Todos os homens, por haverem sido
criados pelo mesmo Deus e descenderem do mesmo casal primeiro, são irmãos. A um
título ainda mais nobre são irmãos os que crêem em Jesus Cristo, Deus e homem
verdadeiro, Redentor do gênero humano, e em nome dEle foram batizados. Por mais
profundas e fortes que sejam as divergências entre os homens, estes títulos de
fraternidade nem por isto desaparecem. Nada mais legítimo, pois, do que a
qualificação de "irmãos separados".
Dizer "legítimo" é ainda
dizer pouco. A expressão, que contém uma evidente acentuação no substantivo
"irmãos", tem o mérito de dar, aos que a usam, uma consciência mais
viva e atual desse sobrepairar dos vínculos fraternos acima das divisões. E a
tal título constitui um fator útil para aproximações apostólicas preciosas.
Todavia, se é preciso, por vezes,
acentuar que tantos homens separados de nós são nossos irmãos, não menos
necessário é acentuar em outras ocasiões que esses irmãos não são irmãos
quaisquer, mas pelo contrário estão de nós profundamente separados. Pois é na
devida e inteira avaliação de ambos os elementos - fraternidade e separação -
que está a verdade plena a respeito da situação dos não católicos em face dos
católicos.
Ora, a natureza dessa separação as
palavras "heresia" e "cisma" a exprimem com admirável
precisão moral e canônica, trazendo à mente a autoridade magisterial e jurídica
da Igreja, a enorme gravidade do erro ou da revolta contra esta, a severidade
das sanções eclesiásticas e a necessidade de se precaverem os católicos do
contágio dos infiéis.
Assim, rarear o uso das palavras
"herege" e "cismático", ou até suprimi-las, para só falar
em "irmãos separados", importa em uma verdadeira mutilação
talismânica do alcance real dessa separação. Mutilação essa particularmente
danosa em um clima infestado de irenismo e relativismo religioso, como é o
nosso.
Isto nos poderia levar tão longe, que
certa revista católica holandesa perguntou, com espírito, quando começaremos a
proscrever a palavra "demônio" para só usar "anjo
separado".