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B. Os significados naturais e
legítimos
a. Caráter propedêutico
do seu estudo
Esta parte do estudo não tem senão um
alcance propedêutico.
Para a análise exata do processo talismânico, que adiante
faremos:
- é cômodo, para o leitor, distinguir com a maior nitidez,
no conjunto dos sentidos naturais e legítimos de "diálogo", a
diferença existente entre aquele em que ocorre a primeira torção talismânica, e
os demais;
- é proveitoso, para o leitor, ter claramente em vista os
elementos que constituem esse sentido legítimo em que ocorre a primeira torção,
para melhor entender as transformações que tais elementos sofrem em cada uma
das etapas da radicalização talismânica.
b. Multiplicidade dos
significados legítimos
Analisando os significados correntes da palavra que ora nos
ocupa, como aliás também de outras que com ela têm certa conexão, como
"dialética", "discussão", "polêmica", etc.,
podemos verificar que se lhes atribuem significações muito diversas e às vezes
até, de certo ponto de vista, contraditórias. E isso se dá tanto nos meios
cultos, quanto nos de instrução mediana ou baixa. Com o passar dos anos, a
carga emocional que se anexou a algumas dessas palavras veio a lhes alterar o
sentido, fazendo com que pessoas de gerações diferentes as entendam de modos
também diferentes. De região para região do Brasil, e com mais razão de país
para país, se manifestam por vezes variações sensíveis.
O fenômeno, aliás, não se cinge ao uso corrente, pois na
própria linguagem filosófica a palavra "dialética", por exemplo, tem
sentidos tão diversos que, segundo observa o "Vocabulaire Technique et
Critique de la Philosophie" de A. Lalande (verbete
"Dialectique"), não é possível empregá-la sem determinar muito
precisamente qual o significado que se lhe pretende dar.
c . Como estudar esses significados
Para bem estudar os diversos sentidos legítimos de
"diálogo", pareceria aconselhável fazer um inventário deles, um
estudo de cada qual, e um confronto com os demais.
Entretanto, não tendo o presente trabalho um caráter
preponderantemente lingüístico, afigura-se adequado proceder de modo mais breve
e mais claro, pondo a lume na etimologia de "diálogo" um elemento
fundamental que se encontra em todas as acepções da palavra, e fazendo, em
seguida, uma classificação destas, conforme um duplo critério que adiante
indicaremos.
Esse método nos proporciona um quadro de conjunto dos
sentidos desse vocábulo, e nos permite situar em seu panorama próprio, com a
precisão necessária, as acepções legítimas que serão deturpadas pelo processo
talismânico.
d. Critério da
classificação
Essa classificação dos diversos significados da palavra
"diálogo" se faz:
- do ponto de vista do objetivo do diálogo;
- do ponto de vista da atitude emocional das pessoas que
dialogam, da qual decorrem conseqüências para a forma do diálogo.
Será fácil verificar como, consideradas destes pontos de
vista as modalidades de diálogo, a cada uma delas corresponde um significado do
vocábulo.
e. Terminologia
Indicando com uma palavra complementar explicativa - para
maior clareza - cada um dos significados classificados, constitui-se uma
terminologia mediante a qual o leitor poderá acompanhar sem grande esforço o
nosso estudo.
f. Seleção dos significados
É possível que alguns significados legítimos de
"diálogo" não estejam incluídos na classificação. Nosso desejo não
foi de os considerar todos, mas apenas aos que têm mais importância em função do
critério da classificação, ou seja, da natureza mesma do diálogo.
g. Ressalva importante
Como facilmente se verá, não importa muito, para a
intelecção de nossa tese, que o leitor prefira outro critério de classificação,
ou lamente a omissão, na que adotamos, de algum outro significado de
"diálogo".
Com efeito, a classificação que propomos tem caráter
meramente propedêutico. Nossa exposição pode ser facilmente compreendida e
seguida, desde que o leitor tenha em mente as várias acepções de
"diálogo" aqui explicitadas com o auxílio das palavras complementares
constantes de nossa terminologia.
h. Etimologia de
"diálogo"
Na etimologia da palavra "diálogo" se encontram os
elementos para se lhe determinar o significado.
O vocábulo grego "diálogo" se compõe de
"dia" que importa em separação, em disjunção, e "logos",
que equivale a "verbo". Daí o emprego de "diálogo", em
Sócrates e Platão, para designar a forma de elaboração intelectual em que dois
ou mais interlocutores, procedendo por meio de perguntas e respostas, se
empenham em distinguir as coisas segundo seus gêneros11.
Compreende-se que, com base nessa etimologia, a
palavra "diálogo", tomada em sentido lato, tenha chegado, como
registram os dicionários, a abranger nos principais idiomas do Ocidente toda e
qualquer forma de interlocução12 .
i. Modalidades de
diálogo segundo seu fim
No diálogo em sentido lato, há uma primeira distinção a
fazer. No decurso da exposição, facilmente veremos o alcance que esta distinção
apresenta. O diálogo, do ponto de vista de sua finalidade:
* 1 - ou é tal que os interlocutores não tencionam mudar a
persuasão um do outro, o que pode dar-se:
- a - quando o diálogo visa a mera permuta de informações,
ou o entretenimento das partes (a essa modalidade denominaremos
"diálogo-entretenimento");
- b - quando visa a colaboração das partes para a
investigação ou análise de assunto que ambas conhecem insuficientemente
("diálogo-investigação");
* 2 - ou é tal que os interlocutores pensam de modo diverso
sobre o assunto em foco, e cada qual visa, por meio de argumentos, persuadir o
outro a mudar de convicção ("discussão")13.
j . Correspondentes diferenças de atitude
emocional
A estes diferentes objetivos e intenções, correspondem
respectivamente atitudes emocionais diversas nas pessoas que tomam parte no
diálogo:
* 1 - quando os interlocutores não visam reciprocamente
mudar as opiniões, a atitude emocional é de distensão:
- a - essa distensão é plena e contínua no caso do
diálogo-entretenimento;
- b - essa distensão também é plena no caso do diálogo-investigação;
mas, como ao longo da investigação alguma divergência pode surgir acidental e
transitoriamente, é possível que alguma tensão passageira surja no decurso do
diálogo-investigação14;
* 2 - no caso da discussão, a atitude emocional dos
interlocutores, via de regra, tem caráter diverso: as diferenças de convicção
criam entre eles uma heterogeneidade que constitui de si um obstáculo à
simpatia; a argumentação, com que cada qual procura convencer o outro, pode
originar facilmente um teor de relações mais ou menos parecido - conforme o
caso - com uma luta.
Assim, o diálogo comporta duas modalidades fundamentais, que
se distinguem pelo seu objetivo, e a título corolário pela atitude emocional
que marca a relação dos interlocutores entre si.
k. Diálogo "lato
sensu", diálogo
"stricto sensu" e discussão
À modalidade de diálogo acima descrita no número 2 dos itens
"i" e "j", a palavra "discussão" (do latim
"discutere", isto é, "dis", que indica separação, e
"quatere", agitar) é inteiramente própria.
Mas como designar a forma de diálogo indicada no número 1
daqueles itens? Para ela não existe vocábulo distintivo. Chama-se
"diálogo" também.
Daí constituir-se um sentido estrito da palavra
"diálogo", designando a modalidade n° 1 (que por sua vez compreende o
diálogo-entretenimento e o diálogo-investigação), a par do sentido lato e
etimológico já analisado.
Em face destes dois sentidos de "diálogo", qual a
posição do vocábulo "discussão"? Ele designa - como vimos - uma das
modalidades do diálogo "lato sensu". E, de outro lado, como dentro do
gênero as espécies se distinguem e se opõem, "discussão" é o
contrário de "diálogo" no sentido estrito.
l. Discussão-diálogo,
discussão pura e simples, polêmica
No que diz respeito à discussão, há também distinções a
fazer. Com efeito, ela comporta três graus de intensidade:
* 1 - A discussão pode ter um caráter extremamente sereno e
cordial, de modo que, conservando embora plenamente o conteúdo de uma discussão,
apresente a amenidade de forma que é própria ao diálogo "stricto
sensu". Note-se bem que, como cada interlocutor visa a mudança da
persuasão do outro, estamos aqui em presença de uma discussão autêntica, e não
de um diálogo em sentido estrito. E tão somente em algo de acidental, isto é,
na sua forma, na suavidade de trato, que esta modalidade de discussão se
assemelha ao diálogo "stricto sensu". Assim sendo, não é apenas em
sentido lato que o termo "diálogo" se aplica a este tipo de discussão.
Mas também se aplica a um título particular e específico, derivado, como que
por osmose ou assimilação, da mera semelhança acidental que há entre o diálogo
"stricto sensu" e esta modalidade de discussão. Por isso, nós a
denominaremos de "discussão-diálogo";
* 2 - A discussão tem, num segundo grau de intensidade, o
calor emocional comum que é inerente a uma interlocução em que cada parte quer
mudar a persuasão da outra. A esta modalidade - que corresponde ao sentido
corrente da palavra "discussão" - chamaremos "discussão pura e
simples";
* 3 - A discussão pode ter, finalmente, um calor emocional
muito grande, denominando-se então "polêmica" (do grego
"guerra"). Em razão de sua particular veemência, a polêmica tem em
geral um caráter estrepitoso, e, quando versa sobre doutrinas, facilmente passa
também para o terreno do ataque pessoal15.
m. Quadro esquemático dos sentidos legítimos de
"diálogo"
Podemos
sintetizar no esquema seguinte todas essas noções sobre os diversos
significados de "diálogo":
DIÁLOGO NO SENTIDO LATO E
ETIMOLÓGICO - Indica qualquer tipo de interlocução
DIÁLOGO NO SENTIDO ESTRITO -
Interlocução em que cada parte não visa mudar a persuasão da outra. Atitude
emocional de distensão.
DIÁLOGO-ENTRETENIMENTO
- Visa informar, distrair, etc. Atitude emocional de distensão plena e
contínua.
DIÁLOGO-INVESTIGAÇÃO
- Visa investigar, estudar, analisar. Habitualmente, atitude emocional de
distensão. São, entretanto, possíveis tensões acidentais e transitórias.
DISCUSSÃO
- Interlocução em que cada
parte visa mudar a persuasão da outra. É o oposto do diálogo no sentido
estrito. Atitude emocional que facilmente será de luta.
DISCUSSÃO-DIÁLOGO
- Calor emocional menor do que o corrente. Quanto ao conteúdo, é autenticamente
uma discussão, pois visa mudar a persuasão do interlocutor. So#' se denomina
"diálogo" devido à semelhança acidental (amenidade de forma) que tem
com o diálogo em sentido estrito.
DISCUSSÃO
PURA E SIMPLES - Calor emocional corrente, isto é, o grau comum de pugnacidade
que é inerente a uma interlocução em que cada parte deseja mudar a persuasão da
outra.
DISCUSSÃO-POLÊMICA,
ou apenas "polêmica" - Calor emocional invulgar, isto é, particular
veemência e caráter estrepitoso.
n. Traço comum aos
vários sentidos de "diálogo"
Exceto - como é óbvio - quando tomada em sentido lato, a
palavra "diálogo" apresenta nas suas várias aplicações uma nota de
harmonia, de concórdia, de paz.
Essa nota é inerente ao diálogo "stricto sensu",
isto é, ao diálogo-entretenimento e ao diálogo-investigação, aos quais é
própria uma atitude emocional de inteira distensão.
E, como vimos, é só na medida em que a nota de harmonia
esteja presente de modo notável em uma discussão, que esta poderá ser chamada,
por assimilação, de "diálogo", constituindo-se assim a
discussão-diálogo. Por mais amena que seja, nunca uma discussão-diálogo será
essencialmente um diálogo "stricto sensu", porque é inerente a toda e
qualquer discussão uma nota de pugnacidade.
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