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F. Irenismo, relativismo e
hegelianismo
Como se vê, o irenismo, em suas múltiplas formas, conduz
logicamente ao relativismo.
De fato, a apetência exacerbada da concórdia unânime,
omnímoda, universal e definitiva entre todos os homens, leva ao desejo de
subestimar o alcance dos pontos de divergência entre eles. Dessa subestima se
chega facilmente, como adiante veremos de modo mais detido, a uma posição
relativista, que, para suprimir as divergências, acaba por considerar relativo
o valor de todas as opiniões, e por negar que qualquer delas seja objetivamente
verdadeira ou objetivamente falsa.
Esse relativismo total é mais negativo do que afirmativo.
Ele nega todos os outros sistemas, porém ainda não oferece uma concepção
positiva do homem, da vida e do universo. O impulso irenístico não se poderia
contentar com isto. Tendendo a chegar, por seu natural dinamismo, ao extremo de
si mesmo, ele toma o caráter hegeliano. Ou seja, concebe a marcha do
pensamento, e aliás também a da História, como movida pela eterna fricção de
doutrinas ou de forças ao mesmo tempo relativamente verdadeiras e relativamente
falsas. Dessa fricção da tese com a antítese nasceria por via de superação uma
nova "verdade" relativa, a qual por sua vez entraria em fricção com
outra, dando origem a mais uma síntese, e assim por diante, indefinidamente. -
Este o termo final do longo itinerário que, iniciado no simples irenismo,
levando esse mesmo irenismo de requinte em requinte, chega ao relativismo e por
fim ao hegelianismo.
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