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I. Importância dos aspectos emocionais
do utopismo irenístico
Certamente importa muito ao presente estudo analisar o
estado emocional correlato com esse utopismo, pois - como veremos - o
comunismo, para operar a derrocada do mundo ocidental, explora no irenismo,
mais do que as próprias idéias em que este se baseia, o estado emocional de que
ele vive.
O homem, criado para o paraíso terrestre, e para um estado
de integridade que perdeu em razão do pecado, sente no mais profundo de si
mesmo uma viva apetência para essas condições, das quais, segundo o plano
divino, jamais se deveria ter afastado. Essa apetência é muito explicável, pois
cada ser, em virtude do amor legítimo que tem a si mesmo, ama o seu próprio
bem.
Acresce que o termo final de todas as aspirações do homem,
convidado por Deus a superior destino, nem sequer está na integridade de sua
natureza, ou no paraíso terrestre, mas sim na felicidade perfeita e perene do
Paraíso celeste.
A tendência para o que genericamente poderíamos chamar,
talvez com alguma impropriedade, o paradisíaco, palpita, pois, como uma força
estuante e insopitável, no fundo de cada homem. Essa força nele se faz sentir a
todo momento, se bem que em graus e formas diversas, e se mescla, ora
consciente ora inconscientemente, em tudo quanto ele apetece, pensa ou quer.
Orientada pela fé, elevada pela graça, desenvolvida segundo
as normas da moral católica, essa apetência do paradisíaco constitui uma força
indispensável e fundamental para a dignificação do homem em todos os seus
aspectos. Ela o convida a elevar e modelar sua alma e a melhorar quanto
possível as condições de sua existência terrena, e sobretudo ela o convida a
aspirar ao Céu e a nele pensar com freqüência. Entretanto, nem por isso deixa o
católico de compreender que, como tão bem ensina a parábola do joio e do trigo
(cf. Mat. 13, 24-30), o erro, o mal e, em conseqüência, a dor, embora possam
ser circunscritos, não são extirpáveis deste mundo. Esta vida tem um fundamental
sentido de prova, de luta e de expiação, que o fiel sabe ser conforme a
altíssimos desígnios da sabedoria, justiça e bondade de Deus. O fim último do
homem, sua felicidade gloriosa, completa e perene só está no Céu.
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