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J. A revolta, elemento emocional
típico do utopista irênico
Porque assim pensa, o católico verdadeiro é o contrário do
utopista. Este, alheio à luz da fé, considera o erro, o mal e a dor como
contingências absurdas da existência humana, que o indignam. É natural ao homem
revoltar-se contra esta tríade de adversários, pensa ele. E, como o utopista
não toma em consideração a existência de outra vida, é levado a julgar
evidente, forçoso, indiscutível que se pode acabar por eliminar a dor, o mal e
o erro. Pois do contrário deveria admitir que a própria ordem do ser é absurda.
Nisto está essencialmente o fundamento de sua utopia. É explicável que para o
utopista a vida não possa ter normalmente um sentido legítimo de luta, de prova
e de expiação, mas só de paz macia e regalada. Ele é, assim, e por definição,
pacifista "à outrance", ultra-ecumênico, ultra-irênico. E nenhum de
seus sonhos teria coerência interna, nenhum seria capaz de o satisfazer
inteiramente, se não incluísse a supressão de todas as lutas e de todas as
controvérsias.
Bem entendido, o paraíso terreno de base científica e
técnica sonhado pelo utopismo comporta a satisfação das paixões humanas, não
apenas no que elas têm de temperante e legítimo, mas ainda no que têm de mais tempestuoso,
desregrado e ilegítimo. Pois a mortificação das paixões é incompatível com esse
"paradisismo".
Entre as paixões desordenadas, o orgulho e a sensualidade
ocupam um lugar proeminente. Eles marcam o utopista com duas notas principais:
o desejo de ser supremo em sua esfera, não aceitando sequer um Deus
transcendente, e a tendência a uma plena liberdade na satisfação de todos os
instintos e apetências desregradas.
O utopista, porque crê só nesta vida, julga inerente à
natureza das coisas a possibilidade de obter deste mundo toda a satisfação que
seu ser apetece. Espera ele conseguir efetivamente tal satisfação por meio de
seus esforços. É o mundano por excelência, pois põe neste mundo todas as suas
esperanças23.
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