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3. "Diálogo":
sentidos talismânicos
A. Pontos de
impressionabilidade e de apatia, no espírito mundano: quadro psicológico em que
atuará a palavra-talismã
Caracterizado o mundanismo irenístico como atrás o fizemos, é
fácil ver os pontos de impressionabilidade e de apatia que existem em um
irenista, ainda mesmo quando apenas em germe, e que tão útil o tornam para a
baldeação ideológica inadvertida:
* 1° ponto de impressionabilidade: as contendas, as rixas,
as guerras são de si um grave mal, que é preciso a todo custo eliminar, com
tendências a inaugurar a era da boa vontade e da paz;
* 2° ponto de impressionabilidade: para isto, é mister a
todo preço fazer cessar as controvérsias, substituindo-as pelo diálogo irenista;
* 1° ponto de apatia: essa paz a todo custo é obtenível?
para a implantar, não serão necessários meios drásticos, que representem um mal
ainda maior?
* 2° ponto de apatia: a abolição
das controvérsias não cria o caos ideológico e moral? não representa a vitória
do relativismo? não multiplica, pois, os fatores de discórdia e de guerra? não
desorganiza a opinião pública? não tende a desfigurar o caráter militante da
Santa Igreja? etc.
Às perguntas que constituem os
pontos de apatia, o espírito picado pela mosca do irenismo tende a nem
responder. Simplista, açodado e irritadiço como o é todo espírito utópico, o
irenista não é capaz, por assim dizer, de desviar sua atenção dos pontos de
impressionabilidade, e se irrita com quem o queira obrigar a detê-la nos pontos
de apatia.
Com isto, torna-se propenso a aceitar todas as seqüelas do
irenismo, ainda mesmo aquelas que mais repudiaria - o modernismo, o comunismo -
antes de se formarem em seu espírito aqueles pontos de impressionabilidade.
Para não nos atermos senão às controvérsias e ao diálogo
irênico, a solução verdadeira do problema que preocupa o nosso irenista
consistiria em reconhecer a impossibilidade de uma concórdia ideológica
absoluta e eterna entre os homens, e a necessidade de assentar o bom convívio
sobre bases realizáveis. Para isto, entre outras coisas cuidaria ele de evitar
um e outro excesso, isto é, tanto a omissão da discussão-diálogo nos casos
indicados, quanto a omissão da discussão pura e simples ou da polêmica quando
oportunas, e se empenharia em reprimir essas modalidades de discussão quando a
qualquer título fossem censuráveis. Mas, sob a ação dos pontos de
impressionabilidade, e sem reação nos pontos de apatia, o irenista, já sôfrego
mesmo quando apenas em germe, está pronto para se entregar a toda sorte de
pensamentos, sensações e ações unilaterais, só aderindo às soluções que lhe
lisonjeiam os pontos de impressionabilidade.
Começa assim a produzir seus efeitos
sobre ele a palavra-talismã.
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