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Plinio Corrêa de Oliveira
Baldeação ideológica inadvertida e Diál.

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  • Capítulo IV-Um exemplo de palavra-talismã: "diálogo"è
    • 3. "Diálogo": sentidos talismânicos
      • C. Efeitos diretos da palavra-talismã
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C. Efeitos diretos da palavra-talismã

 

Consideremos antes o primeiro grupo de efeitos. São eles em número de cinco.

 

a. Primeiro efeito - O diálogo resolve tudo

 

Sobre o irenista preparado como mostramos acima (item A), começa a agir a palavra-talismã. Falaram-lhe de diálogo. Segundo observa, esse termo é empregado em um sentido novo e muito especial, só indiretamente relacionado com o significado corrente. A palavra "diálogo" reluz assim a seus olhos com um conteúdo que tem algo de moderno e elegante. As pessoas em evidência a utilizam como se fosse uma fórmula nova para mudar convicções, simples, irresistível. Não dialogar é proceder de maneira retrógrada no campo ideológico, em plena era atômica. Dialogar é estar em dia, é assinalar-se como eficiente e moderno. E o irenista se põe então a pensar: o diálogo resolve todos os problemas. Nada de discussões, nem de polêmicas; é preciso unicamente dialogar com os que pensam de outra maneira, sejam eles até comunistas. O diálogo, pela afabilidade que o caracteriza, tem o condão de desarmar todas as prevenções. Ele assegura a quem o usa a glória de persuadir todos os opositores.

 

 

b. Segundo efeito - Uma constelação de impressões e emoções unilaterais

 

Com base tanto no receio unilateral e obsessivo de agastar os opositores pela discussão e pela polêmica, como na certeza de que pelo diálogo não há quem não se convença, nosso paciente chega a formar pari passu toda uma constelação de impressões e emoções unilaterais, das quais não mencionaremos senão algumas. São as que se referem ao católico que discute ou polemiza. Segundo o irenista, tal católico emprega métodos de apostolado anacrônicos e contraproducentes. Assim age por ser irascível, bilioso, vingativo, por não ter caridade para com os que jazem no erro. Trata-os com uma severidade injusta e nociva, e em última análise é o verdadeiro culpado de permanecerem eles fora do redil.

 

 

Ódio aos católicos mais ardorosos

 

Esta impressão unilateral cria uma emoção, uma antipatia contra o apologeta ou o polemista católico, a qual pode chegar até o ódio. Tal antipatia, por proceder do pressuposto de que toda controvérsia ideológica é , envolve ipso facto e indistintamente todos os que discutem ou polemizam, quer o façam devida quer indevidamente.

 

Por absurdo que seja, o apologeta ou polemista começa a ser visto com ódio por seu irmão na . Cada vez mais ele vai parecendo a este um católico sectário e descaridoso, e seu "erro" o único para o qual não há mercê. É o tremendo "erro" de ser "ultracatólico". Contra a pessoa acusada de tal erro todas as armas parecem lícitas, a campanha de silêncio, o ostracismo, a difamação, os insultos. E para documentar as acusações que se lhe fazem, tudo vale: os indícios mais tênues e mais vagos e até os simples boatos servem de prova. Para ela, verdadeiro pária da sociedade a caminho da utopia, e para mais ninguém, está definitivamente vedado participar do diálogo.

 

Faz-se assim em escala sempre maior a dizimação, na Igreja Militante, dos mais ardorosos dentre os seus filhos, ou seja, dos mais abnegados, dos mais coerentes, dos mais perspicazes, dos mais valentes.

 

Não é necessário encarecer quanto lucram com isto os adversários dEla.

 

 

Admiração e confiança incondicionais para os que estão fora da Igreja

 

Esta dizimação coincide com uma admiração e uma confiança crescentes para com os que estão fora da Igreja. Não é raro que esses sentimentos se transformem num "complexo" capaz de chegar a um incondicionalismo categórico. O que aliás é lógico. Pois se todos os nossos irmãos separados se podem converter mediante sorrisos, é porque, em última análise, só alguns equívocos e alguns ressentimentos os mantêm afastados de nós. Sua boa vontade é plena e sem jaça.

 

Quando se pratica retamente o diálogo com os que estão fora da Igreja, cumpre ter em mente quer o que nos separa deles, quer o que nos une. E, com a destreza da caridade, é preciso saber tirar partido do que nos une, para criar, na medida do possível, um ambiente de cordialidade ao tratar, de maneira objetiva e com tacto, do que nos separa.

 

Mas no clima irênico a preocupação do "dialogante" católico é outra. Ele só o que o une aos de fora, e nada do que o separa deles. Assim, espera tudo da coexistência e das concessões, e nada da luta. Sua tática é pois ingênua, mole e entreguista em relação aos que estão fora do redil. Sua intransigência, sua energia e sua desconfiança são só para os que, dentro da Igreja, resistem ao clima irênico.

 

 

c. Terceiro efeito - Simpatia e notoriedade decorrentes da ressonância publicitária da palavra "diálogo"

 

Se por força desta constelação de impressões e emoções, o apóstolo que discute ou polemiza é odiado e vilipendiado, ao mesmo tempo o modo por que é visto habitualmente pelo público o apóstolo do diálogo irênico é diametralmente oposto.

 

Como, hoje talvez mais do que nunca, o público é sôfrego de tudo quanto lhe possa favorecer o otimismo e os anseios de tranqüilidade e bem-estar, está ele predisposto a admirar enfaticamente o apóstolo irenista.

 

O homem mediano julga ver nele uma inteligência dúctil e lúcida, que lhe permite discernir até o fundo o mal da discussão e da polêmica, e as possibilidades apostólicas inesgotáveis do diálogo. Benévolo e afável, o "dialogante" irênico a impressão de ser dotado de uma simpatia irresistível e quase mágica. Moderno, ele se apresenta como perfeito e ágil conhecedor das táticas de apostolado mais recentes, e destro portanto no manejo do diálogo. Em uma palavra, nada lhe falta para parecer perfeitamente simpático. Alegre, jovial, prenuncia um porvir róseo, preparado por uma sucessão de êxitos fáceis e inebriantes.

 

A simpatia e o otimismo abrem para nosso "dialogante" as portas da notoriedade. Tem-se prazer em falar dele, em repetir suas palavras, em elogiar suas ações. Ele parece ter o dom de resolver com um sorriso questões das mais intrincadas, de dissipar como se fosse um sol, com simples colóquios, os preconceitos e os rancores mais inveterados. Por isto, ele fica situado naturalmente no centro dos acontecimentos, no ponto de convergência de todas as atenções. A imprensa, o rádio, a televisão de bom grado o põem em evidência, certos assim de agradar ao público.

 

 

d. Quarto efeito - Desperta-se a miragem da era da boa vontade

 

Tudo isto vai abrindo assim, no espírito da pessoa sujeita ao processo que estudamos, horizontes indefinidos. Na fímbria deles se levanta uma miragem a que já aludimos neste capítulo (item 2, A a C). Miragem em geral muito imprecisa, é certo, mas quão radiosa e atraente: a da era da boa vontade, isto é, de uma ordem de coisas "evoluída" em que a simpatia, e a plenitude desta que é o amor, não só seriam capazes de desarmar todas as contendas, mas de as prevenir. De as prevenir, sim, pela eliminação de suas causas psicológicas, e também de suas causas institucionais. Oh! quanto ganhariam a concórdia e a paz com a supressão daquilo por que os homens vêm lutandomilênios - pátrias, interesses nacionais, bens de fortuna, prestígio de classe, atributos de mando. Oh! se o amor acabasse por eliminar as palavras "meu" e "teu" para as substituir à maneira de superação, pela palavra "nosso", afinal reinaria a paz entre os homens, desapareceriam as guerras, os crimes, as penas e os cárceres. O Poder Público não passaria mais de uma imensa cooperativa de atuações espontâneas e harmônicas em prol da prosperidade, da cultura e da saúde. O completo bem-estar terreno das sociedades seria a meta única de todos os esforços dos homens na era da boa vontade.

 

Esta miragem, cuja afinidade com o mito anarquista inerente ao marxismoapontamos (item 2, B), dotada, como dissemos (item 2, I), de todo o poder de sugestão correspondente aos mais profundos anelos do homem, é de molde a despertar em almas incontáveis uma emoção deliciosa, que as empolga inteiras, e da qual, à maneira de um tóxico, elas não querem de modo algum desprender-se.

 

Daí o revestir-se a palavra "diálogo", quando utilizada nesta perspectiva, de cintilações particularmente mágicas e fascinantes. Como um verdadeiro talismã, comunica ela automaticamente seu prestígio e seu brilho aos que a usam.

 

 

e. Quinto efeito - A propensão a abusar da elasticidade da palavra "diálogo"

 

Desses vários fatores psicológicos advém uma tentação, sempre mais acentuada, de exagerar a natural elasticidade do vocábulo em questão.

 

Realmente, se com o emprego de uma palavra se consegue determinado efeito, tanto maior será este quanto mais se empregue aquela.

 

Daí a propensão de usar a palavra "diálogo" a todo propósito. O uso dela pode tornar-se quase um vício, de sorte que uma entrevista, um artigo, um discurso não parecerão completos se não contiverem uma referência ao diálogo.

 

 




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