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C. Efeitos diretos da palavra-talismã
Consideremos antes o primeiro grupo de efeitos. São eles em
número de cinco.
a. Primeiro efeito - O
diálogo resolve tudo
Sobre o irenista preparado como mostramos acima (item A),
começa a agir a palavra-talismã. Falaram-lhe de diálogo. Segundo observa, esse
termo é empregado em um sentido novo e muito especial, só indiretamente
relacionado com o significado corrente. A palavra "diálogo" reluz
assim a seus olhos com um conteúdo que tem algo de moderno e elegante. As
pessoas em evidência a utilizam como se fosse uma fórmula nova para mudar
convicções, simples, irresistível. Não dialogar é proceder de maneira
retrógrada no campo ideológico, em plena era atômica. Dialogar é estar em dia,
é assinalar-se como eficiente e moderno. E o irenista se põe então a pensar: o
diálogo resolve todos os problemas. Nada de discussões, nem de polêmicas; é
preciso unicamente dialogar com os que pensam de outra maneira, sejam eles até
comunistas. O diálogo, pela afabilidade que o caracteriza, tem o condão de
desarmar todas as prevenções. Ele assegura a quem o usa a glória de persuadir
todos os opositores.
b.
Segundo efeito - Uma constelação de impressões e emoções unilaterais
Com base tanto no receio unilateral e obsessivo de agastar
os opositores pela discussão e pela polêmica, como na certeza de que pelo
diálogo não há quem não se convença, nosso paciente chega a formar pari passu
toda uma constelação de impressões e emoções unilaterais, das quais não
mencionaremos senão algumas. São as que se referem ao católico que discute ou
polemiza. Segundo o irenista, tal católico emprega métodos de apostolado
anacrônicos e contraproducentes. Assim age por ser irascível, bilioso,
vingativo, por não ter caridade para com os que jazem no erro. Trata-os com uma
severidade injusta e nociva, e em última análise é o verdadeiro culpado de
permanecerem eles fora do redil.
Ódio aos católicos mais
ardorosos
Esta impressão unilateral cria uma emoção, uma antipatia
contra o apologeta ou o polemista católico, a qual pode chegar até o ódio. Tal
antipatia, por proceder do pressuposto de que toda controvérsia ideológica é
má, envolve ipso facto e indistintamente todos os que discutem ou polemizam,
quer o façam devida quer indevidamente.
Por absurdo que seja, o apologeta ou polemista começa a ser
visto com ódio por seu irmão na Fé. Cada vez mais ele vai parecendo a este um
católico sectário e descaridoso, e seu "erro" o único para o qual não
há mercê. É o tremendo "erro" de ser "ultracatólico".
Contra a pessoa acusada de tal erro todas as armas parecem lícitas, a campanha
de silêncio, o ostracismo, a difamação, os insultos. E para documentar as
acusações que se lhe fazem, tudo vale: os indícios mais tênues e mais vagos e
até os simples boatos servem de prova. Para ela, verdadeiro pária da sociedade
a caminho da utopia, e para mais ninguém, está definitivamente vedado
participar do diálogo.
Faz-se assim em escala sempre maior a dizimação, na Igreja
Militante, dos mais ardorosos dentre os seus filhos, ou seja, dos mais
abnegados, dos mais coerentes, dos mais perspicazes, dos mais valentes.
Não é necessário encarecer quanto lucram
com isto os adversários dEla.
Admiração e confiança
incondicionais para os que estão fora da Igreja
Esta dizimação coincide com uma admiração e uma confiança
crescentes para com os que estão fora da Igreja. Não é raro que esses
sentimentos se transformem num "complexo" capaz de chegar a um
incondicionalismo categórico. O que aliás é lógico. Pois se todos os nossos
irmãos separados se podem converter mediante sorrisos, é porque, em última
análise, só alguns equívocos e alguns ressentimentos os mantêm afastados de
nós. Sua boa vontade é plena e sem jaça.
Quando se pratica retamente o diálogo com os que estão fora
da Igreja, cumpre ter em mente quer o que nos separa deles, quer o que nos une.
E, com a destreza da caridade, é preciso saber tirar partido do que nos une,
para criar, na medida do possível, um ambiente de cordialidade ao tratar, de
maneira objetiva e com tacto, do que nos separa.
Mas no clima irênico a preocupação do "dialogante"
católico é outra. Ele só vê o que o une aos de fora, e nada do que o separa
deles. Assim, espera tudo da coexistência e das concessões, e nada da luta. Sua
tática é pois ingênua, mole e entreguista em relação aos que estão fora do
redil. Sua intransigência, sua energia e sua desconfiança são só para os que,
dentro da Igreja, resistem ao clima irênico.
c.
Terceiro efeito - Simpatia e notoriedade decorrentes da ressonância publicitária
da palavra "diálogo"
Se por força desta constelação de impressões e emoções, o
apóstolo que discute ou polemiza é odiado e vilipendiado, ao mesmo tempo o modo
por que é visto habitualmente pelo público o apóstolo do diálogo irênico é
diametralmente oposto.
Como, hoje talvez mais do que nunca, o público é sôfrego de
tudo quanto lhe possa favorecer o otimismo e os anseios de tranqüilidade e
bem-estar, está ele predisposto a admirar enfaticamente o apóstolo irenista.
O homem mediano julga ver nele uma inteligência dúctil e
lúcida, que lhe permite discernir até o fundo o mal da discussão e da polêmica,
e as possibilidades apostólicas inesgotáveis do diálogo. Benévolo e afável, o
"dialogante" irênico dá a impressão de ser dotado de uma simpatia irresistível
e quase mágica. Moderno, ele se apresenta como perfeito e ágil conhecedor das
táticas de apostolado mais recentes, e destro portanto no manejo do diálogo. Em
uma palavra, nada lhe falta para parecer perfeitamente simpático. Alegre,
jovial, prenuncia um porvir róseo, preparado por uma sucessão de êxitos fáceis
e inebriantes.
A simpatia e o otimismo abrem para nosso
"dialogante" as portas da notoriedade. Tem-se prazer em falar dele,
em repetir suas palavras, em elogiar suas ações. Ele parece ter o dom de
resolver com um sorriso questões das mais intrincadas, de dissipar como se
fosse um sol, com simples colóquios, os preconceitos e os rancores mais
inveterados. Por isto, ele fica situado naturalmente no centro dos
acontecimentos, no ponto de convergência de todas as atenções. A imprensa, o
rádio, a televisão de bom grado o põem em evidência, certos assim de agradar ao
público.
d. Quarto efeito -
Desperta-se a miragem da era da boa vontade
Tudo isto vai abrindo assim, no espírito da pessoa sujeita
ao processo que estudamos, horizontes indefinidos. Na fímbria deles se levanta
uma miragem a que já aludimos neste capítulo (item 2, A a C). Miragem em geral
muito imprecisa, é certo, mas quão radiosa e atraente: a da era da boa vontade,
isto é, de uma ordem de coisas "evoluída" em que a simpatia, e a
plenitude desta que é o amor, não só seriam capazes de desarmar todas as
contendas, mas de as prevenir. De as prevenir, sim, pela eliminação de suas
causas psicológicas, e também de suas causas institucionais. Oh! quanto
ganhariam a concórdia e a paz com a supressão daquilo por que os homens vêm
lutando há milênios - pátrias, interesses nacionais, bens de fortuna, prestígio
de classe, atributos de mando. Oh! se o amor acabasse por eliminar as palavras
"meu" e "teu" para as substituir à maneira de superação,
pela palavra "nosso", afinal reinaria a paz entre os homens,
desapareceriam as guerras, os crimes, as penas e os cárceres. O Poder Público
não passaria mais de uma imensa cooperativa de atuações espontâneas e
harmônicas em prol da prosperidade, da cultura e da saúde. O completo bem-estar
terreno das sociedades seria a meta única de todos os esforços dos homens na
era da boa vontade.
Esta miragem, cuja afinidade com o mito anarquista inerente
ao marxismo já apontamos (item 2, B), dotada, como dissemos (item 2, I), de
todo o poder de sugestão correspondente aos mais profundos anelos do homem, é
de molde a despertar em almas incontáveis uma emoção deliciosa, que as empolga
inteiras, e da qual, à maneira de um tóxico, elas não querem de modo algum
desprender-se.
Daí o revestir-se a palavra "diálogo", quando
utilizada nesta perspectiva, de cintilações particularmente mágicas e
fascinantes. Como um verdadeiro talismã, comunica ela automaticamente seu
prestígio e seu brilho aos que a usam.
e.
Quinto efeito - A propensão a abusar da elasticidade da palavra
"diálogo"
Desses vários fatores psicológicos advém uma tentação,
sempre mais acentuada, de exagerar a natural elasticidade do vocábulo em
questão.
Realmente, se com o emprego de uma palavra se consegue
determinado efeito, tanto maior será este quanto mais se empregue aquela.
Daí a propensão de usar a palavra "diálogo" a todo
propósito. O uso dela pode tornar-se quase um vício, de sorte que uma
entrevista, um artigo, um discurso não parecerão completos se não contiverem
uma referência ao diálogo.
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