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D. Efeitos indiretos e reflexos da
palavra-talismã
Passemos agora ao segundo grupo de
efeitos.
Neles, a fermentação psicológica produzida pela
palavra-talismã repercute sobre esta, e reciprocamente.
Tal interação, que importa em um processo de mútua
radicalização, reflete por sua vez sobre o próprio modo de conduzir o diálogo.
Se imaginarmos dois "dialogantes" em que essa
interação ocorra, veremos que irão mudando paulatinamente não só as sucessivas
maneiras de dialogar, mas o próprio conteúdo do diálogo.
Em seu conjunto, tudo isto leva os "dialogantes",
por várias fases, do irenismo ao relativismo hegeliano.
a.
Primeiro efeito - A radicalização da palavra "diálogo": sentidos
talismânicos novos e mais radicais
Como se dá a influência dessa fermentação
psicológica sobre o vocábulo?
Quem procurar subir aos altos firmamentos da celebridade nas
asas da palavra "diálogo", não tardará a perceber que as aplicações
diversas desta última têm rendimento de popularidade desigual. Algumas vezes,
ela é empregada com pouco fruto. Aparecerá opaca, ao público. Outras vezes, o
talismã brilhará a todos os olhos e agirá com plena intensidade.
Este fato, em via de regra, o explorador da palavra-talismã
- como aliás também o público - o sentirá sem o poder explicitar. Em
conseqüência, será levado a preferir umas aplicações dela a outras. E, se tiver
algum talento, irá forçando a natural elasticidade do vocábulo, de maneira a
multiplicar os empregos mais fascinantes e rendosos.
Qual a razão por que em umas aplicações o talismã se revela
mais irradiante que em outras? Qual este pólo de máxima refulgência com o qual,
manipulado assim pelos virtuoses dessa lingüística, ele tende a se identificar?
A força de irradiação, por assim dizer imanente na
palavra-talismã "diálogo", se faz sentir mais quando esta é empregada
de maneira a insinuar ser verdadeiro, desejável, viável, o mito de que há pouco
falamos, do amor sentimental, regenerador e coletivista imaginado como força
organizativa de um mundo novo. Este mito é o pólo para o qual a palavra-talismã
tende. O diálogo, no último e mais recôndito de seus significados mágicos, é a
linguagem desse amor.
Nas diversas etapas desse caminhar para o sentido último, a
palavra "diálogo" evolui de maneira a se identificar sempre mais com
ele.
b.
Segundo efeito - As quatro fases do processo rumo ao relativismo hegeliano
Assim descrita, de modo geral, a interação entre a emoção
irenística e a palavra-talismã, consideremos as várias fases pelas quais, ao
longo dessa interação, se vão modificando processivamente as formas e conteúdos
da interlocução entre pessoas de convicções opostas e, correspondentemente, o
significado da palavra-talismã.
Antes de se iniciar o processo, tais interlocutores desejam
reciprocamente convencer um ao outro, por meio de argumentos.
O objetivo fundamental de cada uma das partes é, assim,
conquistar a outra para a verdade. Por esta via realizarão elas entre si um bem
precioso, que é a unidade. Uma unidade que se apresenta legitimamente como
fruto da verdade, e que portanto não pode ser concebida nem almejada senão
mediante a posse da verdade.
Primeira fase - Hipertrofia da
cordialidade na discussão-diálogo: a palavra-talismã nasce
Imaginemos que nos interlocutores assim dispostos para a
discussão se note, entretanto, uma fermentação emocional irenística. Essa
fermentação, que preludia o aparecimento da palavra-talismã
"diálogo", consiste numa apetência emocional veemente de concórdia
universal dos espíritos, e de paz em todos os campos das relações humanas.
Esta apetência é de tal natureza, que só se sentirá saciada
quando os interlocutores tiverem chegado, afinal, a uma concepção inteiramente
irênica e relativista do homem, da vida e do cosmos.
Assim, do ponto de vista emocional, os interlocutores em
questão já estão ganhos potencialmente pelo irenismo para a causa do
relativismo, e, como veremos, para o mais radical dos relativismos, que é o
relativismo hegeliano.
Contudo, se do ponto de vista emocional isto é real, do
ponto de vista das idéias ainda não o é.
Os participantes da interlocução ainda admitem a existência
de uma verdade objetiva na qual cada um deles supõe encontrar-se, e de um erro
objetivo no qual reputa estar o outro.
No que concerne ao tema controvertido, logicamente só pode
haver para eles um teor de relações, que é a discussão.
Esta, ainda quando muito amável, tem inviscerada uma nota de
pugnacidade. Ora, esta nota discrepa fortemente do estado emocional dos
interlocutores.
Há, pois, um conflito entre o proceder imposto pela lógica -
a discussão - e o estilo de relações que as pessoas em foco gostariam de manter
entre si. Nasce daí uma primeira modificação nesse estilo de relações.
Sem mesmo se darem conta disso, as partes mais desejam a
unidade do que a verdade.
Em conseqüência dessas disposições emocionais, cada uma
delas é conduzida a achar que a outra está sempre de boa fé. O êxito de seu
esforço de persuasão lhe parece depender apenas da eliminação de ressentimentos
da outra.
Por isso, recusam ambas a discussão pura e simples, bem como
a polêmica, e só concebem a discussão sob a forma requintadamente suave da
discussão-diálogo. Mas esta forma contém ainda um elemento de pugnacidade, que
desagrada à emotividade irenística.
Esta última deturpa, em conseqüência, o sentido da discussão-diálogo,
sobrevalorizando a nota de cordialidade, e subestimando a de pugnacidade.
Acentua-se então a deturpação inicial do estilo de relações entre as partes.
A discussão-diálogo já não visa principalmente obter a
verdade, e só por meio dela a unidade. Mas visa sobretudo a unidade por meio da
cordialidade de relações entre os interlocutores. E só secundariamente a
conquista da verdade através da argumentação.
A palavra "diálogo" sofre então a primeira torção.
Passa a designar a discussão-diálogo irenisticamente concebida. Fica assim
habitada por um sentido ireno-talismânico, que reluz com todos os atrativos do
mito irenístico.
O diálogo-talismã (isto é, a discussão-diálogo deturpada)
passa a ser o diálogo por antonomásia.
* EXEMPLO CONCRETO: Para facilitar ao
leitor o estudo do processo de deturpação talismânica da palavra
"diálogo", considerado em abstrato, acompanhá-lo-emos de um exemplo
concreto. A enunciação de cada fase do processo in abstracto será seguida da
descrição da correspondente fase do exemplo in concreto.
Imaginemos um tomista e um existencialista que sejam colegas
em uma universidade, e a esse título tenham freqüentes ocasiões para discutir
sobre suas divergências filosóficas, bem como para investigar juntos matérias
não correlatas com essas divergências, e ainda para manter as demais relações
sociais costumeiras entre colegas.
Quanto às divergências que entre eles existem, o tomista se
sabe com a verdade e a razão. O existencialista discorda da posição tomista.
Cada qual quer persuadir o outro, e o meio normal para isto se lhes afigura a
discussão.
Imaginemos que, no empenho de convencer a outra parte, o
tomista seja movido não só por um legítimo intuito de apostolado, mas por uma
ardente apetência irenística de união.
Tal desejo, em determinado momento, toma a dianteira sobre
as razões de zelo, e nosso tomista, na sua discussão com o existencialista,
começa a desejar mais a unidade do que a verdade.
Esta inversão de objetivos produz em seu modo de ver o
colega uma conseqüência imediata. Candidamente, ele se afigurará que este
último está apegado à sua doutrina por um mero equívoco, bem como por
ressentimentos contra o tomismo - e em última análise contra a Igreja. Para o
interlocutor picado pela mosca do irenismo, a outra parte se porta sempre na
discussão como se, concebida sem pecado original, fosse incapaz de um apego
desordenado e vicioso ao erro.
Daí, uma repercussão da tendência irênica sobre o
procedimento do tomista. Se o principal obstáculo para que o existencialista
aceite a verdade é o ressentimento, o mais importante, na discussão, é evitar
que esse ressentimento se mantenha ou até se agrave. Seu interlocutor repudiará
pois como perigosas e até injustas quer a discussão pura e simples, quer a
polêmica, e só aceitará, no trato dos assuntos controvertidos, a
discussão-diálogo.
Nesta última, ele visará principalmente a unidade, e apenas
secundariamente a verdade.
A esse tipo de discussão, ele chamará de diálogo, para
insinuar que é tão despido de pugnacidade como o diálogo-investigação ou o
diálogo-entretenimento.
Nasce assim a palavra-talismã "diálogo",
transbordante de cordialidade pacifista. Ela designa a primeira forma de
relações irenísticas entre os interlocutores em questão, e refulge com as múltiplas
seduções do mito pacifista, acentuando em nosso tomista as ardências do prurido
irênico, e atraindo-o para novas mudanças em seu modo de encarar o diálogo
talismânico e de o pôr em prática.
Segunda fase - A cordialidade
irenística invade o diálogo-entretenimento e o diálogo-investigação: a
palavra-talismã amplia seu sentido
A palavra-talismã, assim constituída na primeira fase,
repercute sobre a fermentação emocional irenística, e essa fermentação assim
acrescida imprimirá à palavra-talismã um sentido novo e mais amplo. Nisto
consiste a segunda fase.
O interlocutor irenista, empolgado pelo conteúdo recôndito
da palavra-talismã, que é o mito irênico, a vai usando a todo propósito como um
joguete com o qual tanto mais se encanta quanto mais com ele brinca.
As relações entre pessoas separadas uma da outra por um
ponto de divergência não se cifram a essa divergência. Elas podem comportar
legitimamente diálogos de investigação sobre outras matérias, e diálogos de
entretenimento sobre outras ainda. Estas formas de relações podem ter, também
legitimamente, uma repercussão favorável sobre a discussão-diálogo, na medida
em que contribuam para evitar que esta última seja prejudicada por
ressentimentos e antipatias pessoais, infelizmente sempre fáceis de nascer.
À vista disso, os interlocutores irenistas são levados a
modificar em sentido irênico seus diálogos de investigação e entretenimento,
estendendo até estes o significado talismânico incubado, na fase anterior, na
discussão-diálogo.
Importa mostrar agora em que consiste a deturpação
irenística dos diálogos de entretenimento e investigação.
Neles, os interlocutores irenistas passam a subestimar o fim
natural de entreter e investigar, e a sobrestimar irenisticamente o fator
cordialidade. Dessa forma, o diálogo é por eles conduzido principalmente para
obter uma intensa calefação afetiva, passando a servir o entretenimento e a
investigação como meros pretextos.
Essa calefação, esperam eles com vistas a persuadir,
exercerá sobre o ponto de divergência uma ação unificante e sincretista mais
útil do que a permuta de argumentos, mesmo quando feita na suavidade da
discussão-diálogo irenística, pois esta ainda conserva resíduos de pugnacidade.
Como o irenista exagera cada vez mais a importância do fator
cordialidade para obter a persuasão, ele é levado a confiar cada vez mais no
diálogo-entretenimento e no diálogo-investigação, e a discussão-diálogo passa a
lhe parecer inteiramente secundária, e até perigosa e molesta.
A esta modificação no teor das relações entre os
interlocutores irênicos corresponde uma nova etapa da palavra-talismã
"diálogo".
Como o elemento mais dinâmico do significado desta última é
irenístico, ela se estende da discussão-diálogo irenista para as duas outras
formas "irenistizadas" de interlocução.
Assim, a palavra-talismã passa a abranger todas as formas de
relações entre os interlocutores, susceptíveis de impregnação irenística.
Em outros termos, fora da influência irenista, o
diálogo-investigação e o diálogo-entretenimento podem ser vistos como formas de
relação instrumentais da discussão-diálogo, capazes de assegurar o bom
andamento desta. Mas sob a influência do irenismo esta ordem de valores se
inverte. O diálogo-entretenimento e o diálogo-investigação começam a ser
encarados como os elementos propulsores da ação suasória. A discussão-diálogo
passa a ter um papel secundário, instrumental, mas instrumental molesto.
A palavra-talismã "diálogo" abrangendo, nesta nova
hierarquia de valores, as três mencionadas formas de interlocução
(discussão-diálogo, diálogo-investigação e diálogo-entretenimento), começa a
espicaçar ainda mais as apetências irenísticas, e assim dá origem à terceira
fase.
* EXEMPLO CONCRETO: Sob o signo do
irenismo esporeado pela palavra-talismã "diálogo", ao nosso tomista
apetece estender o fermento irênico às outras formas de suas relações com o
existencialista. Até aqui, essas outras formas (diálogo-entretenimento e
diálogo-investigação) lhe pareciam extrínsecas à controvérsia doutrinária, e
capazes de exercer em relação a esta apenas uma função instrumental: o trato
cordial de assuntos alheios à controvérsia contribuía para mantê-la em uma
atmosfera serena e elevada.
O tomista irênico se põe então a ver as coisas de outra maneira.
As ocasiões para investigação ou entretenimento lhe parecem não ter mais apenas
seu fim natural. Desejoso de produzir em seu interlocutor a cobiçada
desmobilização emocional, essas ocasiões passam a não ser para ele senão mero
pretexto para alimentar e acrescer no existencialista o prurido irênico, e o
anelo supremo e incondicional de unidade.
Assim, todas as formas de interlocução susceptíveis de
impregnação irênica (diálogo-entretenimento, diálogo-investigação,
discussão-diálogo) acabam sendo englobadas sob o signo do irenismo.
Entretanto, a discussão-diálogo, por ser menos própria para
a calefação irenística, e até perigosa por sua pugnacidade, vem a perder seu
papel principal. Na medida em que dissipa equívocos doutrinários, ela acaba
tendo uma função instrumental molesta e perigosa, num conjunto de relações cuja
nota tônica está em calefazer a cordialidade.
Nosso tomista, sentindo e vendo assim as coisas, continua a
dialogar. Mas o diálogo, para ele, quanto se diferencia do que era na fase anterior!
Para essa obra de calefação, ele evita quanto possível a controvérsia com o
existencialista e deita todo o seu empenho em focalizar com as luzes de uma
insistência infatigável e de uma minúcia que se compraz nos mais
insignificantes pormenores, o que entre tomismo e existencialismo há de
comum... o que se lhe afigura serem os "aspectos existencialistas do
tomismo". Ele procura assim ornar com uma flâmula kierkegaardiana o
austero hábito do Aquinate, e alinhar a este na coorte dos admiradores que Kierkegaard
teve já antes mesmo de nascer.
Engenhoso, o tomista irênico compreende que uma inimizade
comum é por vezes o melhor cimento de uma amizade precária e nascente. Ele
procurará atacar, com mais fogo do que o fazem os mais ardorosos
existencialistas, qualquer veio de "essencialismo" que encontre neste
ou naquele filósofo. Nessa "cruzada" sem cruz, por certo ele não é
irenista no que diz respeito ao "essencialismo" em qualquer de seus
graus, modos ou facetas, mas é para fazer irenismo em relação ao existencialismo.
Um medo lhe fica. É de que o existencialista o suspeite de
conivência com alguns malfadados irmãos de tomismo que combatem o
existencialismo. Por isso investe contra estes como contra
"essencialistas" dos mais perigosos.
Artes do diálogo talismânico nesta
segunda fase...
A palavra-talismã "diálogo" passou, pois, a
designar o conjunto dos diálogos irenísticos, com preponderância dos diálogos
de entretenimento e de investigação sobre a discussão-diálogo.
Terceira fase - A cordialidade
irenística desfecha em relativismo: a palavra-talismã assume sentido
inteiramente relativista
As duas fases anteriores transcorreram sob o signo do
irenismo. A terceira já é nitidamente relativista.
Até aqui, sob a pressão do irenismo, o objetivo da
interlocução vinha sendo cada vez mais a unidade e cada vez menos a verdade. Na
presente etapa, o anelo de unidade leva os interlocutores a saltar sobre suas
divergências para obter esta última. Para isso, passam a considerar que não há
de parte a parte verdade absoluta nem erro objetivo. Tudo é relativo.
Em conseqüência, o teor de relações entre
eles se modifica.
A partir do relativismo, a verdadeira discussão é
impossível; quando tratam da matéria até aqui controvertida, os interlocutores,
pelo próprio fato de o fazerem sob o signo do relativismo, já não estão
procedendo a uma autêntica discussão.
Como muitas vezes esta passagem do simples irenismo para o
relativismo é inadvertida, é possível que as partes imaginem estar discutindo,
e chamem sua interlocução de discussão. Na realidade, a discussão-diálogo
deixou propriamente de existir. Dela subsistem apenas as divergências
acidentais e transitórias que, como vimos (cap. IV, 1, B, j), são inerentes ao
diálogo-investigação.
Esta mudança relativista nas relações entre os
interlocutores determina uma nova torção na palavra-talismã
"diálogo". A carga desta, de simplesmente irenista, passa a ser
relativista; por isso, ela deixa de incluir a discussão-diálogo, para abranger
apenas o diálogo-entretenimento e o diálogo-investigação.
Cada vez mais próxima do mito da era da boa vontade, ela se
torna sempre mais aliciante e refulgente para os irenistas relativistas. Ela
comunica ardências sempre maiores à apetência de unidade, e prepara assim a fase
seguinte.
* EXEMPLO CONCRETO: Impelido de requinte
em requinte nas vias do irenismo pela palavra-talismã, nosso tomista, em sua
faina de dialogar, dá mais um passo.
Começa a lhe parecer agora que são inconsistentes as
divergências doutrinárias, que na fase anterior já ele tanto subestimara em
benefício dos pontos de convergência. Em todas elas, põe-se a ver vislumbres de
verdade e de erro de parte a parte. As diferenças estariam mais nas fórmulas do
que no conteúdo. Em última análise, uma mesma "verdade" global, toda
ela relativa, e presente residualmente nas mais opostas formulações, seria o
substrato de uma realidade vária, e indefinidamente mutável.
De lupa em punho, nosso irenista começa a procurar textos de
São Tomás que, tomados isoladamente, pareçam justificar seu relativismo. Ele já
não é tomista senão porque tem a esperança ou a ilusão de encontrar prenúncios
de Kierkegaard em São Tomás. Na realidade, de tomismo nada lhe resta. Sem se
dar conta talvez do que ocorre em sua mente, ele é um relativista convicto.
Essa mudança interior é seguida de uma modificação no teor
de suas relações com o existencialista. Vemo-lo eliminar, nesta terceira fase
em que o irenismo deságua no relativismo, a discussão-diálogo, que na fase
anterior lhe pesava como a bola e a corrente de ferro no pé do forçado. As
relações com o existencialista se reduzem ao diálogo-entretenimento e ao
diálogo-investigação irenísticos.
Talvez este tomista que já não é tomista chame ainda de
discussão essas formas de interlocução que já nada têm de comum com a
discussão.
A palavra-talismã "diálogo", designando em cada
estágio as relações irenísticas como nele se praticam, não abrange mais a
discussão-diálogo, e compreende só os dois outros tipos de diálogo irenístico,
estes mesmos impregnados de concepções relativistas.
Dialogar talismanicamente é pois, nesta fase, praticar um
relativismo radical. A euforia de dialogar, o prestígio talismânico do diálogo
irênico-relativista, excitando ainda mais em nosso tomista os pruridos
irenistas, preparam-no agora para a quarta fase.
Quarta fase - O relativismo
irenista se estrutura em termos de hegelianismo: a palavra-talismã assume o
sentido do "ludus" hegeliano
Assim como o relativismo não é o contrário do irenismo, mas
uma plenitude deste, assim também o relativismo vai receber nesta fase um
enriquecimento que não é o contrário dele, e até lhe confere a plenitude. Os
interlocutores, ávidos de levar o relativismo às suas últimas conseqüências, já
não se contentam com um relativismo puramente negativo, que vise apenas corroer
e destruir os conceitos de verdade objetiva e de erro objetivo. Pois o que é
meramente negativo repugna à natureza humana. Passando ao plano positivo, eles
desejam estruturar toda uma visão relativista do homem, da sociedade e do
universo.
A verdade, já anteriormente aceita como algo de relativo,
passa a ser vista nesta fase como o produto de uma eterna dialética.
Depois de ter assumido o caráter de mero entretenimento e
investigação, o diálogo começa a ser praticado como um "ludus" no
qual ambas as partes admitem que, à força de dialogar, se operará entre elas
uma decantação da verdade, como pela fricção da tese e da antítese se chega à
síntese. Nasce assim o último estágio da deturpação talismânica da palavra
"diálogo". É o estágio hegeliano. É bem de se ver que, atuada assim
por homens de boa vontade, impregnada do mito irenístico, a fricção da tese com
a antítese será fundamentalmente um "ludus" cordial. E tanto mais cordial
quanto mais se vá desenrolando em lances sucessivos.
A fricção entre a tese e a antítese poderá assumir por vezes
a forma da discussão pura e simples ou até da polêmica. Não lhes terá a
substância, pois não pressupõe um antagonismo absoluto entre a verdade e o
erro, entre o bem e o mal. E portanto o diálogo irenístico já não visa mudar a
persuasão de nenhuma das partes, mas operar a elevação de ambas para uma
"verdade" de plano superior24.
* EXEMPLO CONCRETO: O tomista irênico que
figuramos como exemplo não pode, em seu ardor, contentar-se com um relativismo
meramente negativo. Ele procura estruturar uma dinâmica interna que explique as
relações entre as mil formulações opostas nas quais, segundo lhe parece, habita
a "verdade".
Sobretudo, apetece-lhe encontrar nessas relações algo que
tenda para a eliminação das oposições, rumo à unidade.
Essa eliminação, ele não a pode conceber como a conceberia
antes do início do processo talismânico, enquanto sendo a condenação, fundada
em raciocínio, de todas as formulações, exceto uma, proclamada a única
inteiramente verdadeira.
De outro lado, ele está em presença de um fato palpável: é
que essas formulações opostas se acham entre si em um estado de fricção
contínua e irremediável.
Irremediável? Ou será precisamente esta fricção o remédio?
Nosso tomista se compraz em responder que sim. Da fricção das
"verdades" relativas opostas, nasceria por via de superação uma
síntese, e da universal fricção das teses e das antíteses, gerando sempre
sínteses que por novas fricções com formulações antitéticas dariam em novas
sínteses, se originaria um grandioso processo de universal destilação das
"verdades", e da "verdade".
Bem entendido, ao contrário do proceder
"antipático" e "discriminatório" do tomismo medieval, nessa
destilação nada se condenaria, e nada se excluiria. Tudo seria fraternal e
amorosamente assumido na produção das sucessivas sínteses.
O tomismo, ele próprio, nosso tomista irênico o vê agora
como uma das formulações da "verdade", a contribuir, com perfumosos
incensos doutrinários, para esse processo de composição ideológica universal.
Tomista, ele talvez ainda se imagine. Talvez ainda se
entregue à tarefa de mutilar a obra de São Tomás, arrancando dela, com
arbitrariedade violenta, os fragmentos que lhe sirvam para apresentar ao século
XX um "new look" do Aquinate, que é o Doutor Comum visto ao revés.
Na realidade, não é difícil perceber que, sob o fascínio do
mito irênico, e voando nas asas da palavra-talismã, nosso tomista se
transformou em um genuíno hegeliano, revestido de ligeira tintura tomista.
Que surpresa teria ele no início do processo se tivesse
podido imaginar que ao cabo de uma evolução inadvertida, guiado pela
palavra-talismã "diálogo", como por uma estrela do mal, haveria de
chegar ao hegelianismo! A esse hegelianismo que, antes, ele repudiava como o
contrário de tudo quanto em filosofia reconhecia por verdadeiro!
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