Uma vítima da palavra-talismã "diálogo",
ao ler todas estas considerações, não deixará de perguntar se o autor, tão
infenso ao irenismo, é indiferente ao perigo de uma hecatombe termonuclear.
Esta pergunta é, de si, um insulto, pois só um louco ou um
desalmado pode ser indiferente a tal perigo.
Um católico que não o receie com todas as veras da alma, não
tem sinceridade em sua fé. Na realidade, não será senão um fariseu.
Porém, para um católico sincero, há um mal ainda mais grave
do que a guerra: é o pecado. Santo Agostinho torna bem claro este pensamento:
"O que há a recriminar na guerra? Será o fato de que nela se matam homens
destinados a morrer todos um dia, a fim de que os vencedores possam viver em
paz? Fazer tal censura à guerra seria coisa de pusilânimes, não de homens religiosos.
0 que se increpa, a justo título, nas guerras é o desejo de causar dano, a
crueldade da vingança, um ânimo implacável e inimigo de toda paz, a ferocidade
das represálias, a paixão do domínio, e outros sentimentos semelhantes"
(Cont. Faust., XXII, 74 - PL 42, 447) . Se estes são os pecados em que a guerra
pode induzir os homens, muito mais grave ainda é o pecado ao qual, nas
presentes circunstâncias, os pode levar o irenismo. Pois é a apostasia, que,
enquanto atenta contra a fé, raiz de todas as virtudes, é o mais grave dos
pecados.
Se a condição para ser preservada a paz consiste em que os
filhos da Igreja aceitem uma concepção relativista da Religião - cavilosamente
introduzida neles pela palavra-talismã "diálogo" e outras congêneres
- e uma civilização socialista, então é preciso reconhecer francamente que para
o gênero humano se põe a alternativa entre obedecer a Deus que nos manda crer
no que revelou, ou aos déspotas comunistas que, acenando com a bomba de
hidrogênio, nos mandam recusar a Revelação. E, diante desta alternativa, não
há, mais uma vez, como duvidar: "importa mais obedecer a Deus do que aos
homens", como adverte o Príncipe dos Apóstolos (At. 5, 29 ).
Na realidade, porém, negamos que a opção diante da qual se
encontra a humanidade seja a apostasia ou a destruição atômica. Há de um lado o
preceito divino e de outro lado a ameaça comunista, por certo. Mas o perigo da
hecatombe termonuclear será maior se desobedecermos a Deus do que se
desobedecermos aos déspotas de Moscou ou Pequim.
Pois se a opinião pública, dominada pelo binômio
medo-simpatia, e intoxicada pelas palavras-talismã do irenismo, entre as quais
"diálogo", aceitar uma concepção relativista e hegeliana da Religião,
imporá inevitavelmente que as nações não comunistas aceitem em termos de
coexistência, e para salvar a paz, a generalização do comunismo no mundo.
Esse pecado supremo, pelo próprio fato de ser cometido por
nações e não apenas por indivíduos, está sujeito à Justiça Divina de modo muito
especial.
Com efeito, enquanto os pecados dos indivíduos podem ser
punidos neste mundo ou no outro, o mesmo não se dá com os pecados das nações.
Estas, como diz Santo Agostinho, não podendo ser recompensadas nem castigadas
na outra vida, recebem aqui mesmo o prêmio de suas boas ações e a punição de
seus crimes.
A um pecado supremo dos países corresponde, pois, em termos
de justiça, uma punição suprema neste mundo. E esta bem pode ser a catástrofe
termonuclear.
Assim, mais perigo há de uma tal catástrofe na apostasia do
que na fidelidade.
Esta
afirmação ainda melhor se provará se não considerarmos só a pena, mas também o
prêmio. As nações fiéis à Lei de Deus devem receber nesta terra a justa
recompensa. Nada, pois, é mais próprio a atrair para um povo a proteção e o
favor de Deus mesmo no que diz respeito aos bens desta vida, do que a
fidelidade heróica em face do perigo termonuclear. Esta fidelidade é o meio por
excelência para afastar tal perigo.