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7. 0 diálogo e a via
italiana do comunismo
Consideramos, até aqui, o diálogo como um instrumento da
baldeação ideológica inadvertida.
Antes de encerrar nosso estudo, é o caso de perguntar se,
paralelamente com essa baldeação, o comunismo internacional não tem em mira
alguma operação política de grande envergadura, ajustada ao problema que
expusemos no início deste trabalho, isto é, ao malogro mundial do seu
proselitismo explícito.
Neste caso, a importância da baldeação ideológica
inadvertida se tornaria ainda mais patente para o leitor.
Se considerarmos a linha de conduta assumida pelo Partido
Comunista Italiano, no que diz respeito à política interna da Península,
encontraremos certos fatos que conduziriam a uma resposta em sentido
afirmativo.
O PCI tentou por muito tempo destruir a religião por uma
campanha violenta e desabrida. Depois da segunda guerra mundial, à vista da
influência eleitoral avassaladora da opinião católica, ele foi mudando
gradualmente de atitude, e hoje em dia seus representantes mais qualificados
afirmam que, se os católicos concordarem em colaborar na edificação de uma
economia socialista, eles por seu lado estarão dispostos a admitir a religião
como um fator válido da revolução social, e a dar à Igreja inteira liberdade de
culto. Nestes termos ficaria estabelecida a coexistência pacífica com a Igreja,
e o ateísmo comunista entraria em regime de diálogo irênico com a Religião
Católica, à procura de uma nova síntese. O livro "Il Dialogo alla
Prova", há pouco citado (item 4, supra), contém nesse sentido textos
importantes. Também o aludido artigo do Revmo. Pe. Giuseppe De Rosa, S. J.
("L'impossibile dialogo tra cattolici e comunisti", in "La
Civiltà Cattolica", cit. no item 3, supra) transcreve interessantes
documentos comunistas que deixam transparecer o reconhecimento da atual
indestrutibilidade da Religião Católica na Itália, e sugerem o diálogo e a
coexistência pacífica entre católicos e comunistas daquele país.
Por oposição à chamada via russa (isto é, a via de luta
ideológica e perseguição policial, seguida de modo quase contínuo na Rússia),
se delineia assim uma via italiana, inspirada pelo senso oportunista do
comunismo, e formulada em termos de irenismo, diálogo relativista e
coexistência.
Documento fundamental da linha russa seria o famoso
relatório Ilytchev (discurso pronunciado pelo presidente da Comissão Ideológica
da Comissão Central do Partido Comunista russo, em 26 de novembro de 1963, na
reunião ampliada da mesma Comissão Ideológica). O documento principal da linha
italiana seria o não menos famoso memorial de agosto de 1964, do falecido
secretário geral do PCI, Palmiro Togliatti, sobre o relatório Ilytchev.
A via italiana do comunismo tem afinidade com a política de
contemporização em face da Igreja e de inteiro apoio ao movimento
"Pax", seguida pelo ditador comunista polonês Gomulka. A
homogeneidade religiosa da Polônia cria para o comunismo, naquele país,
problemas análogos aos que teria um governo bolchevista na Itália.
Em última análise, a via italiana deixa ver a esperança dos
comunistas de que, premidos pelo binômio medo-simpatia, os católicos da
Península em grande número aceitem uma velada apostasia, para evitar a
perseguição.
Não cremos que numa nação como a Itália essa manobra logre resultado
junto à grande maioria. Mas, já que os comunistas nela depositam esperanças
para o caso italiano, cabe perguntar se também não esperam algo dela para
outros países católicos, para o Brasil e as nações irmãs da América Latina, por
exemplo.
Ampliando a pergunta, indagamos se para países filiados a
outras religiões o comunismo não tem em vista análoga manobra.
Tudo nos faz conjeturar que sim, e nisto está a nosso ver um
dos aspectos mais atuais da matéria tratada neste estudo.
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