Seja-nos lícito, de
passagem, fazer um comentário à margem do tema, mas que pode elucidar um
aspecto importante do problema comunista em nossos dias.
As considerações que fizemos neste
capítulo importam, com efeito, ao estudo da verdadeira natureza do
estremecimento atual entre a Rússia e a China comunista.
À vista das razões que enunciamos, o
comunismo deve, em rigor de lógica, operar uma considerável renovação de
métodos para encetar essa nova etapa de sua luta. Assim, é forçoso perguntar, a
propósito de cada acontecimento de monta ocorrido no mundo marxista - como é a
ruptura da Rússia com a China - até que ponto, por cima das suas causas
próximas e visíveis ele se ajusta aos novos métodos e fins da alta e mais
recente estratégia comunista. Um observador cauto deve, pois, considerar a esta
luz, com o mais acurado senso crítico, o dissídio sino-soviético.
Com efeito, se é bem verdade que
existem pontos naturais de divergência entre os interesses nacionais da Rússia
e da China e razões de competição entre o PC russo e o PC chinês quanto à
direção mundial do movimento comunista, é de se notar que o dissídio entre os
dois "grandes" do comunismo apresenta, do ponto de vista
propagandístico, outro aspecto, e este de grande envergadura. Considerada em
função do binômio medo-simpatia, vê-se que aos olhos dos povos livres a China
comunista apresenta a face sombria e agressiva, capaz de atuar sobre o medo do
Ocidente enquanto as propostas de coexistência pacífica da Rússia e os sintomas
de "degelo" ali verificados fazem vibrar aquém cortina de ferro as
fibras de alma simpáticas ao comunismo. Estas duas faces, a chinesa e a russa,
formando o verso e o reverso de uma mesma medalha, bem podem constituir como
que um dispositivo de dupla pressão psicológica sobre o binômio medo-simpatia
existente na opinião pública do mundo livre, servindo assim os supremos
interesses do expansionismo comunista. Para compreender a plausibilidade desta
hipótese, cumpre ter em vista que esses interesses são comuns, em ultima
análise, a todos os marxistas, sejam eles russos ou chineses.
Análogas considerações se devem fazer
sobre a atual tendência para um tal ou qual restabelecimento da livre
iniciativa na Rússia.
De um lado, se esta, desistindo por ora
de uma guerra suicida quer competir com os Estados Unidos em clima de
coexistência pacífica no terreno da produção, deve necessariamente apelar para
o restabelecimento, ainda que muito rudimentar, da livre iniciativa. Pois a
experiência soviética prova que de outro modo nenhum progresso é possível nos
setores em que mais insuficiente se mostra a produção.
Mas esse restabelecimento não será
utilizado propagandisticamente para outros fins?
Por exemplo, não poderá ele provocar
uma desmobilização dos espíritos no mundo livre, preparando-os para a ilusão de
que a Rússia estaria a caminho de um regime democrático apenas semi-socialista,
e que os perigosos contrastes entre os dois mundos poderiam ser eliminados caso
o Ocidente, no interesse da paz, consentisse em se "socializar"
fortemente ao mesmo passo que a Rússia se "capitalizasse" um pouco?
Essa ilusão atuando sobre o binômio
medo-simpatia, a que recuos, a que capitulações poderia predispor as nações
livres!