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2. Os matizes da
opinião pública e a baldeação ideológica inadvertida
Para responder à pergunta, é preciso
ter em linha de conta que nessa maioria se devem discernir três filões: os
elementos simpáticos em alguma medida ao comunismo, os elementos
categoricamente hostis a este, e os vagamente hostis ao comunismo que em face dele
tomam uma atitude de inércia.
Em relação a cada um desses filões, a
estratégia comunista apresenta um aspecto peculiar:
* Quanto aos elementos simpáticos em
parte ao comunismo, foram eles atingidos pelo proselitismo comunista, mas de
modo incompleto. Do marxismo aceitam algo, e principalmente a hostilidade à
Religião, à tradição, à família e à propriedade. Porém, não o levam às últimas
conseqüências. São os socialistas e os progressistas de todo matiz uns
inocentes-úteis, outros cúmplices do comunismo. Aos inocentes-úteis trata este
de coligar em agrupamentos esquerdistas não especificamente marxistas. Aos
cúmplices, procura colocar quanto possível em postos-chave desses agrupamentos.
A tais agrupamentos, utiliza como aliados na luta para a derrubada da atual
ordem de coisas, e para a conquista do poder. Obtido tal resultado, esses
infelizes comparsas se verão alijados, perseguidos e destruídos, se não
aderirem desde logo ao partido comunista e a ele não se sujeitarem sem
reservas.
* Quanto aos elementos categoricamente
hostis ao comunismo e não raro até militantes contra ele, cumpre alvejá-los com
uma ofensiva psicológica total que vise desorganizá-los, desanimá-los e
reduzi-los à inação. Para isto, é especialmente útil agir contra os líderes
anticomunistas. É preciso que se sintam espionados fora e até dentro de suas
organizações, rodeados de traidores, divididos entre si, incompreendidos,
difamados e isolados dos outros setores da opinião, afastados das
posições-chave do país, e dos meios de publicidade, e de tal maneira
perseguidos em suas atividades profissionais, que, bastando-lhes apenas o tempo
para prover à própria subsistência, se vejam o quanto possível impedidos de
atuar seriamente contra o marxismo.
As ameaças de vingança pessoal contra eles
e suas famílias também são utilizadas não raras vezes, pelo comunismo, para
impedir a ação desses bravos.
* Quanto aos elementos indiferentes ao
problema comunista, antipáticos ao comunismo em graus diversos, mas que não
chegam à hostilidade militante, são eles, por assim dizer, a maioria dentro da
maioria. A esses, já que se mostram refratários a toda técnica de persuasão
explícita, só existe para o comunismo um meio de atrair. É a técnica de
persuasão implícita. Como é natural, para operar esta última, o partido
comunista não pode mostrar-se. Ele deve escolher agentes de aparência não
comunista, ou até anticomunista, que atuem nos mais diversos setores do corpo
social. Quanto mais insuspeitos de comunismo parecerem, tanto mais eficazes
serão. No plano da ação individual, por exemplo, um grande capitalista, um
político burguês proeminente, um aristocrata ou um clérigo serão para isto de
muito maior eficiência do que um pequeno burguês ou um operário.
Sobre este setor da opinião pública,
muito podem em favor do comunismo os partidos políticos, os jornais e os outros
meios de publicidade que, aparentando todas as garantias de não serem
comunistas, entretanto não vêem na luta contra a seita vermelha uma necessidade
contínua e de capital importância nos dias que correm.
Uns e outros - isto é, pessoas,
partidos políticos, órgãos de publicidade -prestam ao comunismo um primeiro e
precioso concurso, pelo simples fato de entreterem no setor em questão um clima
de superficialidade de espírito, bem como de otimismo fácil e despreocupado no
que diz respeito à ameaça comunista. Pois assim as organizações anticomunistas
ficam implicitamente vistas como apaixonadas e exageradas pela maior parte da
opinião pública, que normalmente poderia e deveria dar-lhes apoio. E de outro
lado se impede que nessa maioria, advertida da gravidade hodierna do perigo, os
indiferentes passem à antipatia contra o comunismo, e os anticomunistas não
militantes entrem na luta.
Ambos estes frutos são preciosos para o
marxismo, pois lhe evitam um grande mal. Enquanto ele recruta à vontade seus
quadros de militantes, penetra e articula as organizações de inocentes-úteis, e
executa contra a sociedade, auxiliado por estes elementos, sua faina
destruidora contínua e inexorável, a maior parte da opinião pública, que
reagiria se tivesse consciência da real gravidade do perigo, fecha os olhos
para ele, cruza os braços, e deixa livre curso ao adversário.
Tal resultado é muito considerável. Mas
não basta para o comunismo, Essa maioria, ele a adormece porque não a conseguiu
conquistar. Enquanto não a conquistar, ficará reduzido a progressos lentos. E
se algum dia esses progressos tomarem corpo e se tornarem indisfarçáveis,
haverá sempre o risco de que a maioria displicente e inadvertida se sobressalte
e entre na luta.
Assim, não pode a seita vermelha
contentar-se com exercer sobre tal setor a ação neutralizadora e anestesiante
que acabamos de descrever.
O comunismo foi bem sucedido em fundar
partidos por quase todo o mundo, em articular sob seu comando as esquerdas, em
desmantelar e inutilizar incontáveis organizações anticomunistas. Ele fracassou
quando quis fazer aceitar pelas maiorias sua doutrina. E é a essas maiorias
que, além de neutralizar, ele precisa absolutamente persuadir, se quiser vencer
em nosso século sua grande batalha.
Como fazê-lo? Se é esse vastíssimo
setor que se trata de persuadir, obviamente é sobre ele que se trata de agir.
A técnica de persuasão implícita mais
apropriada para o estado de espírito em que se encontra a maioria é a baldeação
ideológica inadvertida.
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