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7. Uma objeção:
incompatibilidade entre liberalismo e socialismo
Objetar-se-á às considerações que
acabamos de fazer sobre as chamadas reformas de base, que estas últimas
resultam do bafejo do socialismo. Assim sendo, como atribuir um papel ao
liberalismo nessas transformações, já que o liberalismo parece ser precisamente
o contrário do socialismo?
É bem verdade que uma ordem de coisas
igualitária suporia o dirigismo, pois a liberdade produz naturalmente a
desigualdade. Porém, os comunistas não vêem as coisas assim. Para eles, o
dirigismo total inerente à ditadura do proletariado deve estabelecer de uma vez
por todas a igualdade entre os homens. Isto alcançado, o poder político deverá
desaparecer, cedendo lugar à ordem de coisas inteiramente anárquica (no sentido
etimológico da palavra), na qual a plena liberdade já não engendrará
desigualdades. Para os comunistas, não há senão uma incompatibilidade
transitória entre a igualdade e a liberdade. Sob a ditadura do proletariado,
sacrifica-se provisoriamente a liberdade para instaurar a igualdade total. Esta
operação, entretanto, prepara a era anárquica em que a plena igualdade e a
inteira liberdade conviverão. De sorte que em seu espírito e em sua meta o
dirigismo comunista é ultraliberal. Além disso, em pleno regime capitalista, o
liberalismo prepara o terreno para o comunismo no que diz respeito à família e
aos bons costumes. À medida que o liberalismo moral vai abrindo campo ao
divórcio, ao adultério, à revolta dos filhos e dos empregados domésticos,
dissolve-se com efeito o lar. E com isto as mentalidades se vão habituando cada
vez mais a uma ordem de coisas em que não existe família. Em outros termos, vão
caminhando para o amor livre, inerente ao comunismo.
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