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Plinio Corrêa de Oliveira
Baldeação ideológica inadvertida e Diál.

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  • Capítulo IV-Um exemplo de palavra-talismã: "diálogo"è
    • 1. "Diálogo": sentidos legítimos
      • B. Os significados naturais e legítimos
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B. Os significados naturais e legítimos

 

a. Caráter propedêutico do seu estudo

 

Esta parte do estudo não tem senão um alcance propedêutico.

 

Para a análise exata do processo talismânico, que adiante faremos:

 

- é cômodo, para o leitor, distinguir com a maior nitidez, no conjunto dos sentidos naturais e legítimos de "diálogo", a diferença existente entre aquele em que ocorre a primeira torção talismânica, e os demais;

 

- é proveitoso, para o leitor, ter claramente em vista os elementos que constituem esse sentido legítimo em que ocorre a primeira torção, para melhor entender as transformações que tais elementos sofrem em cada uma das etapas da radicalização talismânica.

 

 

b. Multiplicidade dos significados legítimos

 

Analisando os significados correntes da palavra que ora nos ocupa, como aliás também de outras que com ela têm certa conexão, como "dialética", "discussão", "polêmica", etc., podemos verificar que se lhes atribuem significações muito diversas e às vezes até, de certo ponto de vista, contraditórias. E isso se dá tanto nos meios cultos, quanto nos de instrução mediana ou baixa. Com o passar dos anos, a carga emocional que se anexou a algumas dessas palavras veio a lhes alterar o sentido, fazendo com que pessoas de gerações diferentes as entendam de modos também diferentes. De região para região do Brasil, e com mais razão de país para país, se manifestam por vezes variações sensíveis.

 

O fenômeno, aliás, não se cinge ao uso corrente, pois na própria linguagem filosófica a palavra "dialética", por exemplo, tem sentidos tão diversos que, segundo observa o "Vocabulaire Technique et Critique de la Philosophie" de A. Lalande (verbete "Dialectique"), não é possível empregá-la sem determinar muito precisamente qual o significado que se lhe pretende dar.

 

 

c . Como estudar esses significados

 

Para bem estudar os diversos sentidos legítimos de "diálogo", pareceria aconselhável fazer um inventário deles, um estudo de cada qual, e um confronto com os demais.

 

Entretanto, não tendo o presente trabalho um caráter preponderantemente lingüístico, afigura-se adequado proceder de modo mais breve e mais claro, pondo a lume na etimologia de "diálogo" um elemento fundamental que se encontra em todas as acepções da palavra, e fazendo, em seguida, uma classificação destas, conforme um duplo critério que adiante indicaremos.

 

Esse método nos proporciona um quadro de conjunto dos sentidos desse vocábulo, e nos permite situar em seu panorama próprio, com a precisão necessária, as acepções legítimas que serão deturpadas pelo processo talismânico.

 

 

d. Critério da classificação

 

Essa classificação dos diversos significados da palavra "diálogo" se faz:

 

- do ponto de vista do objetivo do diálogo;

 

- do ponto de vista da atitude emocional das pessoas que dialogam, da qual decorrem conseqüências para a forma do diálogo.

 

Será fácil verificar como, consideradas destes pontos de vista as modalidades de diálogo, a cada uma delas corresponde um significado do vocábulo.

 

 

e. Terminologia

 

Indicando com uma palavra complementar explicativa - para maior clareza - cada um dos significados classificados, constitui-se uma terminologia mediante a qual o leitor poderá acompanhar sem grande esforço o nosso estudo.

 

 

f. Seleção dos significados

 

É possível que alguns significados legítimos de "diálogo" não estejam incluídos na classificação. Nosso desejo não foi de os considerar todos, mas apenas aos que têm mais importância em função do critério da classificação, ou seja, da natureza mesma do diálogo.

 

 

g. Ressalva importante

 

Como facilmente se verá, não importa muito, para a intelecção de nossa tese, que o leitor prefira outro critério de classificação, ou lamente a omissão, na que adotamos, de algum outro significado de "diálogo".

 

Com efeito, a classificação que propomos tem caráter meramente propedêutico. Nossa exposição pode ser facilmente compreendida e seguida, desde que o leitor tenha em mente as várias acepções de "diálogo" aqui explicitadas com o auxílio das palavras complementares constantes de nossa terminologia.

 

 

h. Etimologia de "diálogo"

 

Na etimologia da palavra "diálogo" se encontram os elementos para se lhe determinar o significado.

 

O vocábulo grego "diálogo" se compõe de "dia" que importa em separação, em disjunção, e "logos", que equivale a "verbo". Daí o emprego de "diálogo", em Sócrates e Platão, para designar a forma de elaboração intelectual em que dois ou mais interlocutores, procedendo por meio de perguntas e respostas, se empenham em distinguir as coisas segundo seus gêneros11.

 

 

Compreende-se que, com base nessa etimologia, a palavra "diálogo", tomada em sentido lato, tenha chegado, como registram os dicionários, a abranger nos principais idiomas do Ocidente toda e qualquer forma de interlocução12 .

 

 

 

i. Modalidades de diálogo segundo seu fim

 

No diálogo em sentido lato, há uma primeira distinção a fazer. No decurso da exposição, facilmente veremos o alcance que esta distinção apresenta. O diálogo, do ponto de vista de sua finalidade:

 

* 1 - ou é tal que os interlocutores não tencionam mudar a persuasão um do outro, o que pode dar-se:

 

- a - quando o diálogo visa a mera permuta de informações, ou o entretenimento das partes (a essa modalidade denominaremos "diálogo-entretenimento");

 

- b - quando visa a colaboração das partes para a investigação ou análise de assunto que ambas conhecem insuficientemente ("diálogo-investigação");

 

* 2 - ou é tal que os interlocutores pensam de modo diverso sobre o assunto em foco, e cada qual visa, por meio de argumentos, persuadir o outro a mudar de convicção ("discussão")13.

 

 

 

j . Correspondentes diferenças de atitude emocional

 

A estes diferentes objetivos e intenções, correspondem respectivamente atitudes emocionais diversas nas pessoas que tomam parte no diálogo:

 

* 1 - quando os interlocutores não visam reciprocamente mudar as opiniões, a atitude emocional é de distensão:

 

- a - essa distensão é plena e contínua no caso do diálogo-entretenimento;

 

- b - essa distensão também é plena no caso do diálogo-investigação; mas, como ao longo da investigação alguma divergência pode surgir acidental e transitoriamente, é possível que alguma tensão passageira surja no decurso do diálogo-investigação14;

 

 

* 2 - no caso da discussão, a atitude emocional dos interlocutores, via de regra, tem caráter diverso: as diferenças de convicção criam entre eles uma heterogeneidade que constitui de si um obstáculo à simpatia; a argumentação, com que cada qual procura convencer o outro, pode originar facilmente um teor de relações mais ou menos parecido - conforme o caso - com uma luta.

 

Assim, o diálogo comporta duas modalidades fundamentais, que se distinguem pelo seu objetivo, e a título corolário pela atitude emocional que marca a relação dos interlocutores entre si.

 

 

k. Diálogo "lato sensu", diálogo

"stricto sensu" e discussão

 

À modalidade de diálogo acima descrita no número 2 dos itens "i" e "j", a palavra "discussão" (do latim "discutere", isto é, "dis", que indica separação, e "quatere", agitar) é inteiramente própria.

 

Mas como designar a forma de diálogo indicada no número 1 daqueles itens? Para ela não existe vocábulo distintivo. Chama-se "diálogo" também.

 

Daí constituir-se um sentido estrito da palavra "diálogo", designando a modalidade n° 1 (que por sua vez compreende o diálogo-entretenimento e o diálogo-investigação), a par do sentido lato e etimológico já analisado.

 

Em face destes dois sentidos de "diálogo", qual a posição do vocábulo "discussão"? Ele designa - como vimos - uma das modalidades do diálogo "lato sensu". E, de outro lado, como dentro do gênero as espécies se distinguem e se opõem, "discussão" é o contrário de "diálogo" no sentido estrito.

 

 

l. Discussão-diálogo, discussão pura e simples, polêmica

 

No que diz respeito à discussão, há também distinções a fazer. Com efeito, ela comporta três graus de intensidade:

 

* 1 - A discussão pode ter um caráter extremamente sereno e cordial, de modo que, conservando embora plenamente o conteúdo de uma discussão, apresente a amenidade de forma que é própria ao diálogo "stricto sensu". Note-se bem que, como cada interlocutor visa a mudança da persuasão do outro, estamos aqui em presença de uma discussão autêntica, e não de um diálogo em sentido estrito. E tão somente em algo de acidental, isto é, na sua forma, na suavidade de trato, que esta modalidade de discussão se assemelha ao diálogo "stricto sensu". Assim sendo, não é apenas em sentido lato que o termo "diálogo" se aplica a este tipo de discussão. Mas também se aplica a um título particular e específico, derivado, como que por osmose ou assimilação, da mera semelhança acidental que há entre o diálogo "stricto sensu" e esta modalidade de discussão. Por isso, nós a denominaremos de "discussão-diálogo";

 

* 2 - A discussão tem, num segundo grau de intensidade, o calor emocional comum que é inerente a uma interlocução em que cada parte quer mudar a persuasão da outra. A esta modalidade - que corresponde ao sentido corrente da palavra "discussão" - chamaremos "discussão pura e simples";

 

* 3 - A discussão pode ter, finalmente, um calor emocional muito grande, denominando-se então "polêmica" (do grego "guerra"). Em razão de sua particular veemência, a polêmica tem em geral um caráter estrepitoso, e, quando versa sobre doutrinas, facilmente passa também para o terreno do ataque pessoal15.

 

 

 

m. Quadro esquemático dos sentidos legítimos de "diálogo"

 

Podemos sintetizar no esquema seguinte todas essas noções sobre os diversos significados de "diálogo":

 

DIÁLOGO NO SENTIDO LATO E ETIMOLÓGICO - Indica qualquer tipo de interlocução

 

 

DIÁLOGO NO SENTIDO ESTRITO - Interlocução em que cada parte não visa mudar a persuasão da outra. Atitude emocional de distensão.

 

DIÁLOGO-ENTRETENIMENTO - Visa informar, distrair, etc. Atitude emocional de distensão plena e contínua.

DIÁLOGO-INVESTIGAÇÃO - Visa investigar, estudar, analisar. Habitualmente, atitude emocional de distensão. São, entretanto, possíveis tensões acidentais e transitórias.

 

 

DISCUSSÃO - Interlocução em que cada parte visa mudar a persuasão da outra. É o oposto do diálogo no sentido estrito. Atitude emocional que facilmente será de luta.

 

DISCUSSÃO-DIÁLOGO - Calor emocional menor do que o corrente. Quanto ao conteúdo, é autenticamente uma discussão, pois visa mudar a persuasão do interlocutor. So#' se denomina "diálogo" devido à semelhança acidental (amenidade de forma) que tem com o diálogo em sentido estrito.

 

DISCUSSÃO PURA E SIMPLES - Calor emocional corrente, isto é, o grau comum de pugnacidade que é inerente a uma interlocução em que cada parte deseja mudar a persuasão da outra.

 

DISCUSSÃO-POLÊMICA, ou apenas "polêmica" - Calor emocional invulgar, isto é, particular veemência e caráter estrepitoso.

 

 

n. Traço comum aos vários sentidos de "diálogo"

 

Exceto - como é óbvio - quando tomada em sentido lato, a palavra "diálogo" apresenta nas suas várias aplicações uma nota de harmonia, de concórdia, de paz.

 

Essa nota é inerente ao diálogo "stricto sensu", isto é, ao diálogo-entretenimento e ao diálogo-investigação, aos quais é própria uma atitude emocional de inteira distensão.

 

E, como vimos, é só na medida em que a nota de harmonia esteja presente de modo notável em uma discussão, que esta poderá ser chamada, por assimilação, de "diálogo", constituindo-se assim a discussão-diálogo. Por mais amena que seja, nunca uma discussão-diálogo será essencialmente um diálogo "stricto sensu", porque é inerente a toda e qualquer discussão uma nota de pugnacidade.

 

 




11 A dialética, como Aristóteles a concebe, inspirada embora em Platão, não nos parece relacionada proximamente com a presente temática (cf. A. Lalande, op. cit., ibid.).



12 Na Encíclica "Ecclesiam Suam", Paulo VI, ao tratar do diálogo, usa a palavra latina "colloquium" (loqui cum), cujo equivalente em português, "colóquio", também serve para designar em sentido lato toda e qualquer interlocução.



13 Ao contrário do que se dá com a discussão e especialmente com o diálogo-investigação, o diálogo-entretenimento só tem uma relação longínqua com o diálogo segundo a noção platônica.

14 Se o diálogo-investigação comporta eventuais divergências, qual a consistência da distinção entre ele e a discussão? O diálogo-investigação não versa sobre tema em que os interlocutores estão em desacordo, mas sobre tema que ignoram, ao menos em parte. A divergência é nele apenas um episódio eventual e esporádico relativo a algum aspecto da investigação. A discussão tem por objeto assunto em que há desacordo, e ela comporta fundamental e continuamente o esgrimir dos argumentos.



15 É útil um confronto entre a terminologia aqui adotada e a que é usada por Paulo Vl na Encíclica "Ecclesiam Suam" (in AAS, vol. LVI, n° 10, pp. 609-659).

A temática desse documento é bem distinta da que nos ocupa no presente trabalho. Paulo VI trata fundamentalmente de ensinar o que ele chama o diálogo da salvação, o diálogo apostólico da lgreja, mostrando principalmente suas características, suas modalidades e a imensidade de seu âmbito, o qual abrange a humanidade inteira.

Em conseqüência, a Encíclica se ocupa apenas colateralmente de certos aspectos negativos do diálogo, como por exemplo a hipótese de um diálogo com os comunistas, que ela qualifica de "bastante difícil para não dizer impossível". Ou da inviabilidade de um diálogo quando os não católicos "o recusem em toda a linha ou simulem querer aceitá-lo".

É também a título colateral que Paulo Vl se refere ao perigo do irenismo e do sincretismo no diálogo.

Ora, no presente estudo, o diálogo que se pretende analisar e apontar à atenção da opinião pública é precisamente o oposto. Não é o diálogo desejado pela Igreja, para atrair as almas, mas o diálogo deturpado ardilosamente pelo comunismo, para as desviar ou manter afastadas da Igreja. E é apenas a título preparatório e explicativo, que nos ocupamos do bom diálogo.

Estão no panorama da Encíclica todas as formas de interlocução entre católicos e acatólicos, e no que diz respeito à discussão pugnaz e até mesmo a polêmica, não as rejeita ela senão quando "injuriosas" e, como aliás acontece "com freqüência", "violentas". Portanto, Paulo VI não exclui a boa discussão nem a boa polêmica.

Assim, no espírito da Encíclica, a interlocução, que neste estudo chamamos diálogo "lato sensu", comporta como formas moralmente legítimas (além do diálogo de entretenimento e do diálogo de investigação, como é óbvio) as três modalidades de discussão que denominamos discussão-diálogo, discussão pura e simples, e polêmica.

No entanto, é fácil notar que Paulo VI fixa mais detidamente sua atenção sobre a discussão-diálogo, notável por sua cordialidade. E que a considera, mesmo, a que "mais genuinamente tem a natureza de diálogo". Nesta perspectiva a discussão pura e simples e a polêmica são formas autênticas e legítimas de diálogo, se bem que menos plenas.

Tudo isto, dizemo-lo para mostrar a harmonia entre o que afirmamos sobre o diálogo legítimo e o que ensina a Encíclica sobre o diálogo da salvação.

Várias das increpações que fazemos ao mau diálogo o diferenciam fundamentalmente do diálogo apostólico da Igreja, ensinado pela "Ecclesiam Suam".

Assim, este último nada tem de relativista: ele visa essencialmente a conversão da parte não católica.

Também, ele não participa da ilusão irenística de que o interlocutor não católico está sempre de boa fé. A Encíclica, ao falar da possível insinceridade de certos interlocutores, da dureza dos que fecham o ouvido às tentativas de diálogo da Igreja, e dos perigos do irenismo e do sincretismo como elementos de falseamento do diálogo da salvação, não ignora que o pecado original deixou efeitos no homem.

Por fim, se a "Ecclesiam Suam" trata do irenismo apenas de passagem, não é menos certo que o rejeita explicitamente, e deixa ver as apreensões que Paulo VI sente acerca dele. De tais apreensões, aliás, não poderia ter dúvida quem, já antes da Encíclica, tivesse lido a Exortação de 12 de fevereiro de 1964 aos Párocos e Pregadores quaresmais de Roma, em que Paulo VI afirma com energia: "A espada do espírito parece [na hora presente] repousar na bainha da dúvida e do irenismo. Mas é precisamente por isto que a mensagem da verdade religiosa deve ressoar com maior vigor. Os homens têm necessidade de crer em quem se mostra seguro daquilo que ensina" (in "Osservatore Romano", edição hebdomadária em francês, de 21 de fevereiro de 1964).






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