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| Plinio Corrêa de Oliveira Baldeação ideológica inadvertida e Diál. IntraText CT - Texto |
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D. Efeitos indiretos e reflexos da palavra-talismã
Passemos agora ao segundo grupo de efeitos.
Neles, a fermentação psicológica produzida pela palavra-talismã repercute sobre esta, e reciprocamente.
Tal interação, que importa em um processo de mútua radicalização, reflete por sua vez sobre o próprio modo de conduzir o diálogo.
Se imaginarmos dois "dialogantes" em que essa interação ocorra, veremos que irão mudando paulatinamente não só as sucessivas maneiras de dialogar, mas o próprio conteúdo do diálogo.
Em seu conjunto, tudo isto leva os "dialogantes", por várias fases, do irenismo ao relativismo hegeliano.
a. Primeiro efeito - A radicalização da palavra "diálogo": sentidos talismânicos novos e mais radicais
Como se dá a influência dessa fermentação psicológica sobre o vocábulo?
Quem procurar subir aos altos firmamentos da celebridade nas asas da palavra "diálogo", não tardará a perceber que as aplicações diversas desta última têm rendimento de popularidade desigual. Algumas vezes, ela é empregada com pouco fruto. Aparecerá opaca, ao público. Outras vezes, o talismã brilhará a todos os olhos e agirá com plena intensidade.
Este fato, em via de regra, o explorador da palavra-talismã - como aliás também o público - o sentirá sem o poder explicitar. Em conseqüência, será levado a preferir umas aplicações dela a outras. E, se tiver algum talento, irá forçando a natural elasticidade do vocábulo, de maneira a multiplicar os empregos mais fascinantes e rendosos.
Qual a razão por que em umas aplicações o talismã se revela mais irradiante que em outras? Qual este pólo de máxima refulgência com o qual, manipulado assim pelos virtuoses dessa lingüística, ele tende a se identificar?
A força de irradiação, por assim dizer imanente na palavra-talismã "diálogo", se faz sentir mais quando esta é empregada de maneira a insinuar ser verdadeiro, desejável, viável, o mito de que há pouco falamos, do amor sentimental, regenerador e coletivista imaginado como força organizativa de um mundo novo. Este mito é o pólo para o qual a palavra-talismã tende. O diálogo, no último e mais recôndito de seus significados mágicos, é a linguagem desse amor.
Nas diversas etapas desse caminhar para o sentido último, a palavra "diálogo" evolui de maneira a se identificar sempre mais com ele.
b. Segundo efeito - As quatro fases do processo rumo ao relativismo hegeliano
Assim descrita, de modo geral, a interação entre a emoção irenística e a palavra-talismã, consideremos as várias fases pelas quais, ao longo dessa interação, se vão modificando processivamente as formas e conteúdos da interlocução entre pessoas de convicções opostas e, correspondentemente, o significado da palavra-talismã.
Antes de se iniciar o processo, tais interlocutores desejam reciprocamente convencer um ao outro, por meio de argumentos.
O objetivo fundamental de cada uma das partes é, assim, conquistar a outra para a verdade. Por esta via realizarão elas entre si um bem precioso, que é a unidade. Uma unidade que se apresenta legitimamente como fruto da verdade, e que portanto não pode ser concebida nem almejada senão mediante a posse da verdade.
Primeira fase - Hipertrofia da cordialidade na discussão-diálogo: a palavra-talismã nasce
Imaginemos que nos interlocutores assim dispostos para a discussão se note, entretanto, uma fermentação emocional irenística. Essa fermentação, que preludia o aparecimento da palavra-talismã "diálogo", consiste numa apetência emocional veemente de concórdia universal dos espíritos, e de paz em todos os campos das relações humanas.
Esta apetência é de tal natureza, que só se sentirá saciada quando os interlocutores tiverem chegado, afinal, a uma concepção inteiramente irênica e relativista do homem, da vida e do cosmos.
Assim, do ponto de vista emocional, os interlocutores em questão já estão ganhos potencialmente pelo irenismo para a causa do relativismo, e, como veremos, para o mais radical dos relativismos, que é o relativismo hegeliano.
Contudo, se do ponto de vista emocional isto é real, do ponto de vista das idéias ainda não o é.
Os participantes da interlocução ainda admitem a existência de uma verdade objetiva na qual cada um deles supõe encontrar-se, e de um erro objetivo no qual reputa estar o outro.
No que concerne ao tema controvertido, logicamente só pode haver para eles um teor de relações, que é a discussão.
Esta, ainda quando muito amável, tem inviscerada uma nota de pugnacidade. Ora, esta nota discrepa fortemente do estado emocional dos interlocutores.
Há, pois, um conflito entre o proceder imposto pela lógica - a discussão - e o estilo de relações que as pessoas em foco gostariam de manter entre si. Nasce daí uma primeira modificação nesse estilo de relações.
Sem mesmo se darem conta disso, as partes mais desejam a unidade do que a verdade.
Em conseqüência dessas disposições emocionais, cada uma delas é conduzida a achar que a outra está sempre de boa fé. O êxito de seu esforço de persuasão lhe parece depender apenas da eliminação de ressentimentos da outra.
Por isso, recusam ambas a discussão pura e simples, bem como a polêmica, e só concebem a discussão sob a forma requintadamente suave da discussão-diálogo. Mas esta forma contém ainda um elemento de pugnacidade, que desagrada à emotividade irenística.
Esta última deturpa, em conseqüência, o sentido da discussão-diálogo, sobrevalorizando a nota de cordialidade, e subestimando a de pugnacidade. Acentua-se então a deturpação inicial do estilo de relações entre as partes.
A discussão-diálogo já não visa principalmente obter a verdade, e só por meio dela a unidade. Mas visa sobretudo a unidade por meio da cordialidade de relações entre os interlocutores. E só secundariamente a conquista da verdade através da argumentação.
A palavra "diálogo" sofre então a primeira torção. Passa a designar a discussão-diálogo irenisticamente concebida. Fica assim habitada por um sentido ireno-talismânico, que reluz com todos os atrativos do mito irenístico.
O diálogo-talismã (isto é, a discussão-diálogo deturpada) passa a ser o diálogo por antonomásia.
* EXEMPLO CONCRETO: Para facilitar ao leitor o estudo do processo de deturpação talismânica da palavra "diálogo", considerado em abstrato, acompanhá-lo-emos de um exemplo concreto. A enunciação de cada fase do processo in abstracto será seguida da descrição da correspondente fase do exemplo in concreto.
Imaginemos um tomista e um existencialista que sejam colegas em uma universidade, e a esse título tenham freqüentes ocasiões para discutir sobre suas divergências filosóficas, bem como para investigar juntos matérias não correlatas com essas divergências, e ainda para manter as demais relações sociais costumeiras entre colegas.
Quanto às divergências que entre eles existem, o tomista se sabe com a verdade e a razão. O existencialista discorda da posição tomista. Cada qual quer persuadir o outro, e o meio normal para isto se lhes afigura a discussão.
Imaginemos que, no empenho de convencer a outra parte, o tomista seja movido não só por um legítimo intuito de apostolado, mas por uma ardente apetência irenística de união.
Tal desejo, em determinado momento, toma a dianteira sobre as razões de zelo, e nosso tomista, na sua discussão com o existencialista, começa a desejar mais a unidade do que a verdade.
Esta inversão de objetivos produz em seu modo de ver o colega uma conseqüência imediata. Candidamente, ele se afigurará que este último está apegado à sua doutrina por um mero equívoco, bem como por ressentimentos contra o tomismo - e em última análise contra a Igreja. Para o interlocutor picado pela mosca do irenismo, a outra parte se porta sempre na discussão como se, concebida sem pecado original, fosse incapaz de um apego desordenado e vicioso ao erro.
Daí, uma repercussão da tendência irênica sobre o procedimento do tomista. Se o principal obstáculo para que o existencialista aceite a verdade é o ressentimento, o mais importante, na discussão, é evitar que esse ressentimento se mantenha ou até se agrave. Seu interlocutor repudiará pois como perigosas e até injustas quer a discussão pura e simples, quer a polêmica, e só aceitará, no trato dos assuntos controvertidos, a discussão-diálogo.
Nesta última, ele visará principalmente a unidade, e apenas secundariamente a verdade.
A esse tipo de discussão, ele chamará de diálogo, para insinuar que é tão despido de pugnacidade como o diálogo-investigação ou o diálogo-entretenimento.
Nasce assim a palavra-talismã "diálogo", transbordante de cordialidade pacifista. Ela designa a primeira forma de relações irenísticas entre os interlocutores em questão, e refulge com as múltiplas seduções do mito pacifista, acentuando em nosso tomista as ardências do prurido irênico, e atraindo-o para novas mudanças em seu modo de encarar o diálogo talismânico e de o pôr em prática.
Segunda fase - A cordialidade irenística invade o diálogo-entretenimento e o diálogo-investigação: a palavra-talismã amplia seu sentido
A palavra-talismã, assim constituída na primeira fase, repercute sobre a fermentação emocional irenística, e essa fermentação assim acrescida imprimirá à palavra-talismã um sentido novo e mais amplo. Nisto consiste a segunda fase.
O interlocutor irenista, empolgado pelo conteúdo recôndito da palavra-talismã, que é o mito irênico, a vai usando a todo propósito como um joguete com o qual tanto mais se encanta quanto mais com ele brinca.
As relações entre pessoas separadas uma da outra por um ponto de divergência não se cifram a essa divergência. Elas podem comportar legitimamente diálogos de investigação sobre outras matérias, e diálogos de entretenimento sobre outras ainda. Estas formas de relações podem ter, também legitimamente, uma repercussão favorável sobre a discussão-diálogo, na medida em que contribuam para evitar que esta última seja prejudicada por ressentimentos e antipatias pessoais, infelizmente sempre fáceis de nascer.
À vista disso, os interlocutores irenistas são levados a modificar em sentido irênico seus diálogos de investigação e entretenimento, estendendo até estes o significado talismânico incubado, na fase anterior, na discussão-diálogo.
Importa mostrar agora em que consiste a deturpação irenística dos diálogos de entretenimento e investigação.
Neles, os interlocutores irenistas passam a subestimar o fim natural de entreter e investigar, e a sobrestimar irenisticamente o fator cordialidade. Dessa forma, o diálogo é por eles conduzido principalmente para obter uma intensa calefação afetiva, passando a servir o entretenimento e a investigação como meros pretextos.
Essa calefação, esperam eles com vistas a persuadir, exercerá sobre o ponto de divergência uma ação unificante e sincretista mais útil do que a permuta de argumentos, mesmo quando feita na suavidade da discussão-diálogo irenística, pois esta ainda conserva resíduos de pugnacidade.
Como o irenista exagera cada vez mais a importância do fator cordialidade para obter a persuasão, ele é levado a confiar cada vez mais no diálogo-entretenimento e no diálogo-investigação, e a discussão-diálogo passa a lhe parecer inteiramente secundária, e até perigosa e molesta.
A esta modificação no teor das relações entre os interlocutores irênicos corresponde uma nova etapa da palavra-talismã "diálogo".
Como o elemento mais dinâmico do significado desta última é irenístico, ela se estende da discussão-diálogo irenista para as duas outras formas "irenistizadas" de interlocução.
Assim, a palavra-talismã passa a abranger todas as formas de relações entre os interlocutores, susceptíveis de impregnação irenística.
Em outros termos, fora da influência irenista, o diálogo-investigação e o diálogo-entretenimento podem ser vistos como formas de relação instrumentais da discussão-diálogo, capazes de assegurar o bom andamento desta. Mas sob a influência do irenismo esta ordem de valores se inverte. O diálogo-entretenimento e o diálogo-investigação começam a ser encarados como os elementos propulsores da ação suasória. A discussão-diálogo passa a ter um papel secundário, instrumental, mas instrumental molesto.
A palavra-talismã "diálogo" abrangendo, nesta nova hierarquia de valores, as três mencionadas formas de interlocução (discussão-diálogo, diálogo-investigação e diálogo-entretenimento), começa a espicaçar ainda mais as apetências irenísticas, e assim dá origem à terceira fase.
* EXEMPLO CONCRETO: Sob o signo do irenismo esporeado pela palavra-talismã "diálogo", ao nosso tomista apetece estender o fermento irênico às outras formas de suas relações com o existencialista. Até aqui, essas outras formas (diálogo-entretenimento e diálogo-investigação) lhe pareciam extrínsecas à controvérsia doutrinária, e capazes de exercer em relação a esta apenas uma função instrumental: o trato cordial de assuntos alheios à controvérsia contribuía para mantê-la em uma atmosfera serena e elevada.
O tomista irênico se põe então a ver as coisas de outra maneira. As ocasiões para investigação ou entretenimento lhe parecem não ter mais apenas seu fim natural. Desejoso de produzir em seu interlocutor a cobiçada desmobilização emocional, essas ocasiões passam a não ser para ele senão mero pretexto para alimentar e acrescer no existencialista o prurido irênico, e o anelo supremo e incondicional de unidade.
Assim, todas as formas de interlocução susceptíveis de impregnação irênica (diálogo-entretenimento, diálogo-investigação, discussão-diálogo) acabam sendo englobadas sob o signo do irenismo.
Entretanto, a discussão-diálogo, por ser menos própria para a calefação irenística, e até perigosa por sua pugnacidade, vem a perder seu papel principal. Na medida em que dissipa equívocos doutrinários, ela acaba tendo uma função instrumental molesta e perigosa, num conjunto de relações cuja nota tônica está em calefazer a cordialidade.
Nosso tomista, sentindo e vendo assim as coisas, continua a dialogar. Mas o diálogo, para ele, quanto se diferencia do que era na fase anterior! Para essa obra de calefação, ele evita quanto possível a controvérsia com o existencialista e deita todo o seu empenho em focalizar com as luzes de uma insistência infatigável e de uma minúcia que se compraz nos mais insignificantes pormenores, o que entre tomismo e existencialismo há de comum... o que se lhe afigura serem os "aspectos existencialistas do tomismo". Ele procura assim ornar com uma flâmula kierkegaardiana o austero hábito do Aquinate, e alinhar a este na coorte dos admiradores que Kierkegaard teve já antes mesmo de nascer.
Engenhoso, o tomista irênico compreende que uma inimizade comum é por vezes o melhor cimento de uma amizade precária e nascente. Ele procurará atacar, com mais fogo do que o fazem os mais ardorosos existencialistas, qualquer veio de "essencialismo" que encontre neste ou naquele filósofo. Nessa "cruzada" sem cruz, por certo ele não é irenista no que diz respeito ao "essencialismo" em qualquer de seus graus, modos ou facetas, mas é para fazer irenismo em relação ao existencialismo.
Um medo lhe fica. É de que o existencialista o suspeite de conivência com alguns malfadados irmãos de tomismo que combatem o existencialismo. Por isso investe contra estes como contra "essencialistas" dos mais perigosos.
Artes do diálogo talismânico nesta segunda fase...
A palavra-talismã "diálogo" passou, pois, a designar o conjunto dos diálogos irenísticos, com preponderância dos diálogos de entretenimento e de investigação sobre a discussão-diálogo.
Terceira fase - A cordialidade irenística desfecha em relativismo: a palavra-talismã assume sentido inteiramente relativista
As duas fases anteriores transcorreram sob o signo do irenismo. A terceira já é nitidamente relativista.
Até aqui, sob a pressão do irenismo, o objetivo da interlocução vinha sendo cada vez mais a unidade e cada vez menos a verdade. Na presente etapa, o anelo de unidade leva os interlocutores a saltar sobre suas divergências para obter esta última. Para isso, passam a considerar que não há de parte a parte verdade absoluta nem erro objetivo. Tudo é relativo.
Em conseqüência, o teor de relações entre eles se modifica.
A partir do relativismo, a verdadeira discussão é impossível; quando tratam da matéria até aqui controvertida, os interlocutores, pelo próprio fato de o fazerem sob o signo do relativismo, já não estão procedendo a uma autêntica discussão.
Como muitas vezes esta passagem do simples irenismo para o relativismo é inadvertida, é possível que as partes imaginem estar discutindo, e chamem sua interlocução de discussão. Na realidade, a discussão-diálogo deixou propriamente de existir. Dela subsistem apenas as divergências acidentais e transitórias que, como vimos (cap. IV, 1, B, j), são inerentes ao diálogo-investigação.
Esta mudança relativista nas relações entre os interlocutores determina uma nova torção na palavra-talismã "diálogo". A carga desta, de simplesmente irenista, passa a ser relativista; por isso, ela deixa de incluir a discussão-diálogo, para abranger apenas o diálogo-entretenimento e o diálogo-investigação.
Cada vez mais próxima do mito da era da boa vontade, ela se torna sempre mais aliciante e refulgente para os irenistas relativistas. Ela comunica ardências sempre maiores à apetência de unidade, e prepara assim a fase seguinte.
* EXEMPLO CONCRETO: Impelido de requinte em requinte nas vias do irenismo pela palavra-talismã, nosso tomista, em sua faina de dialogar, dá mais um passo.
Começa a lhe parecer agora que são inconsistentes as divergências doutrinárias, que na fase anterior já ele tanto subestimara em benefício dos pontos de convergência. Em todas elas, põe-se a ver vislumbres de verdade e de erro de parte a parte. As diferenças estariam mais nas fórmulas do que no conteúdo. Em última análise, uma mesma "verdade" global, toda ela relativa, e presente residualmente nas mais opostas formulações, seria o substrato de uma realidade vária, e indefinidamente mutável.
De lupa em punho, nosso irenista começa a procurar textos de São Tomás que, tomados isoladamente, pareçam justificar seu relativismo. Ele já não é tomista senão porque tem a esperança ou a ilusão de encontrar prenúncios de Kierkegaard em São Tomás. Na realidade, de tomismo nada lhe resta. Sem se dar conta talvez do que ocorre em sua mente, ele é um relativista convicto.
Essa mudança interior é seguida de uma modificação no teor de suas relações com o existencialista. Vemo-lo eliminar, nesta terceira fase em que o irenismo deságua no relativismo, a discussão-diálogo, que na fase anterior lhe pesava como a bola e a corrente de ferro no pé do forçado. As relações com o existencialista se reduzem ao diálogo-entretenimento e ao diálogo-investigação irenísticos.
Talvez este tomista que já não é tomista chame ainda de discussão essas formas de interlocução que já nada têm de comum com a discussão.
A palavra-talismã "diálogo", designando em cada estágio as relações irenísticas como nele se praticam, não abrange mais a discussão-diálogo, e compreende só os dois outros tipos de diálogo irenístico, estes mesmos impregnados de concepções relativistas.
Dialogar talismanicamente é pois, nesta fase, praticar um relativismo radical. A euforia de dialogar, o prestígio talismânico do diálogo irênico-relativista, excitando ainda mais em nosso tomista os pruridos irenistas, preparam-no agora para a quarta fase.
Quarta fase - O relativismo irenista se estrutura em termos de hegelianismo: a palavra-talismã assume o sentido do "ludus" hegeliano
Assim como o relativismo não é o contrário do irenismo, mas uma plenitude deste, assim também o relativismo vai receber nesta fase um enriquecimento que não é o contrário dele, e até lhe confere a plenitude. Os interlocutores, ávidos de levar o relativismo às suas últimas conseqüências, já não se contentam com um relativismo puramente negativo, que vise apenas corroer e destruir os conceitos de verdade objetiva e de erro objetivo. Pois o que é meramente negativo repugna à natureza humana. Passando ao plano positivo, eles desejam estruturar toda uma visão relativista do homem, da sociedade e do universo.
A verdade, já anteriormente aceita como algo de relativo, passa a ser vista nesta fase como o produto de uma eterna dialética.
Depois de ter assumido o caráter de mero entretenimento e investigação, o diálogo começa a ser praticado como um "ludus" no qual ambas as partes admitem que, à força de dialogar, se operará entre elas uma decantação da verdade, como pela fricção da tese e da antítese se chega à síntese. Nasce assim o último estágio da deturpação talismânica da palavra "diálogo". É o estágio hegeliano. É bem de se ver que, atuada assim por homens de boa vontade, impregnada do mito irenístico, a fricção da tese com a antítese será fundamentalmente um "ludus" cordial. E tanto mais cordial quanto mais se vá desenrolando em lances sucessivos.
A fricção entre a tese e a antítese poderá assumir por vezes a forma da discussão pura e simples ou até da polêmica. Não lhes terá a substância, pois não pressupõe um antagonismo absoluto entre a verdade e o erro, entre o bem e o mal. E portanto o diálogo irenístico já não visa mudar a persuasão de nenhuma das partes, mas operar a elevação de ambas para uma "verdade" de plano superior24.
* EXEMPLO CONCRETO: O tomista irênico que figuramos como exemplo não pode, em seu ardor, contentar-se com um relativismo meramente negativo. Ele procura estruturar uma dinâmica interna que explique as relações entre as mil formulações opostas nas quais, segundo lhe parece, habita a "verdade".
Sobretudo, apetece-lhe encontrar nessas relações algo que tenda para a eliminação das oposições, rumo à unidade.
Essa eliminação, ele não a pode conceber como a conceberia antes do início do processo talismânico, enquanto sendo a condenação, fundada em raciocínio, de todas as formulações, exceto uma, proclamada a única inteiramente verdadeira.
De outro lado, ele está em presença de um fato palpável: é que essas formulações opostas se acham entre si em um estado de fricção contínua e irremediável.
Irremediável? Ou será precisamente esta fricção o remédio? Nosso tomista se compraz em responder que sim. Da fricção das "verdades" relativas opostas, nasceria por via de superação uma síntese, e da universal fricção das teses e das antíteses, gerando sempre sínteses que por novas fricções com formulações antitéticas dariam em novas sínteses, se originaria um grandioso processo de universal destilação das "verdades", e da "verdade".
Bem entendido, ao contrário do proceder "antipático" e "discriminatório" do tomismo medieval, nessa destilação nada se condenaria, e nada se excluiria. Tudo seria fraternal e amorosamente assumido na produção das sucessivas sínteses.
O tomismo, ele próprio, nosso tomista irênico o vê agora como uma das formulações da "verdade", a contribuir, com perfumosos incensos doutrinários, para esse processo de composição ideológica universal.
Tomista, ele talvez ainda se imagine. Talvez ainda se entregue à tarefa de mutilar a obra de São Tomás, arrancando dela, com arbitrariedade violenta, os fragmentos que lhe sirvam para apresentar ao século XX um "new look" do Aquinate, que é o Doutor Comum visto ao revés.
Na realidade, não é difícil perceber que, sob o fascínio do mito irênico, e voando nas asas da palavra-talismã, nosso tomista se transformou em um genuíno hegeliano, revestido de ligeira tintura tomista.
Que surpresa teria ele no início do processo se tivesse podido imaginar que ao cabo de uma evolução inadvertida, guiado pela palavra-talismã "diálogo", como por uma estrela do mal, haveria de chegar ao hegelianismo! A esse hegelianismo que, antes, ele repudiava como o contrário de tudo quanto em filosofia reconhecia por verdadeiro!
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24 Poder-se-ia dizer que, na fase hegeliana, todas as formas de interlocução entre pessoas de posição ideológica diferente (portanto o diálogo-entretenimento, o diálogo-investigação, a discussão-diálogo, a discussão pura e simples, e a polêmica) continuam a existir na aparência, mas se reduzem na realidade a meras formas do "ludus" hegeliano? A se responder pela afirmativa, seria preciso, em rigor de lógica, insistir em que cada uma destas modalidades de interlocução, enquanto incubada de um sentido lúdico, tem uma semelhança extrínseca com a mesma modalidade tomada em seu sentido legítimo (cf. cap. IV, 1, B ) . Isto admitido, não vemos nenhum obstáculo para responder afirmativamente à pergunta acima. Mas a análise destas perspectivas mais extensas pediria trabalho à parte. |
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