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A Igreja como communio
Mistério e dom
10. Quando caminhava
ao longo das margens do mar da Galileia, Jesus chamou alguns a trilharem a via
do discipulado: convidou-os a segui-Lo, a caminhar pelos seus passos. « A
Igreja, movida pelo Espírito Santo, deve caminhar pela mesma via de Cristo; e
Igreja quer dizer todos nós unidos como um corpo que recebe o seu influxo vital
do Senhor Jesus ».(18) O caminho de Jesus é sempre a estrada
da missão; Ele convida agora os seus seguidores a proclamarem de novo o
Evangelho aos povos da Oceânia para que se possam encontrar, em mútuo
enriquecimento, a cultura e a pregação do Evangelho, e a Boa Nova seja mais
profundamente ouvida, acreditada e vivida. Esta missão está radicada no
mistério da comunhão.
O Concílio Vaticano II viu a noção de
communio como particularmente adequada para exprimir o mistério profundo da
Igreja; (19) e a Assembleia Sinodal Extraordinária de 1985
fez-nos tomar maior consciência da communio como o verdadeiro coração da
Igreja. Do mesmo modo também os Padres Sinodais declararam que a Igreja é
essencialmente mistério de comunhão, povo unido pela unidade do Pai e do Filho
e do Espírito Santo. Esta participação na vida da Santíssima Trindade é « a
fonte e a inspiração de todo o relacionamento cristão e das várias formas de
comunidade cristã ».(20) Esta concepção foi o pressuposto
doutrinal e espiritual de todas as deliberações do Sínodo, tendo sido «
completada e ilustrada pela noção da Igreja como povo de Deus e comunidade de
discípulos. Enquanto comunhão, a Igreja reconhece a igualdade básica de todo o
fiel cristão, seja ele leigo, religioso ou ordenado. A comunhão é modelada e
animada pelos dons do Espírito Santo, tanto ministeriais como carismáticos ».(21)
A communio da Igreja é um dom da
Santíssima Trindade, cuja profunda vida íntima é maravilhosamente oferecida à
humanidade; aquela é o fruto da iniciativa amorosa de Deus que se realizou no
mistério pascal de Cristo, pelo qual a Igreja participa na communio de
amor entre o Pai e o Filho no Espírito Santo. « O amor de Deus foi derramado em
nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi concedido » (Rom 5, 5).
No dia de Pentecostes, cumpriu-se plenamente a Páscoa de Cristo com a efusão do
Espírito, e com Ele as primícias da nossa herança, a participação na vida do
Deus Uno e Trino, que nos permite amar « como Deus nos amou a nós » (1 Jo
4, 11).
A Igreja particular e universal
11. Durante a
Assembleia Sinodal, os bispos deram espaço de modo particular à noção de Igreja
como communio: puseram em relevo os aspectos de pertença e de relação
interpessoal fundados na concepção da Igreja como povo de Deus. A communio
eclesial é manifestada e vivida de modo especial na Igreja particular
congregada à volta do bispo, de cuja missão são colaboradoras as pessoas.(22)
Como pastor, cada bispo procura promover esta communio através do seu
ministério, que é uma participação no múnus pastoral, profético e sacerdotal de
Cristo. O sinal e o efeito desta communio está descrito nos Actos dos
Apóstolos: « A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma
só alma » (4, 32). Os Padres Sinodais viram uma expressão prática deste
espírito na preparação do plano pastoral diocesano em conjunto com os fiéis e
as suas organizações. Isto fará com que o plano se alimente da espiritualidade
da communio promovida pelo Concílio Vaticano II.(23)
A communio entre as Igrejas
particulares baseia-se na unidade da fé, do baptismo e da eucaristia, e ainda
na unidade do episcopado. Aquela engloba todas as Igrejas particulares através
dos respectivos bispos, unidos ao Bispo de Roma, cabeça visível da Igreja. « O
Colégio Episcopal unido ao Sucessor de Pedro proporciona uma autêntica
expressão desta comunhão eclesial ».(24) A unidade do
episcopado perpetua-se, no desenrolar dos séculos, através da sucessão
apostólica; esta é, em cada época, o fundamento da identidade da Igreja,
estabelecida por Cristo sobre Pedro e o colégio dos Apóstolos. O Sucessor de
Pedro é, de facto, « o princípio duradouro de unidade e o fundamento visível » da
Igreja.(25) O próprio Senhor encarregou Pedro e seus
sucessores de confirmar os irmãos na fé (cf. Lc 22, 32) e apascentar o
rebanho de Cristo (cf. Jo 21, 15-17). « Existe entre os bispos um
vínculo que exprime de modo pessoal e colegial a comunhão - a koinonia -
que caracteriza toda a vida da Igreja. (...) Juntos, no Colégio Episcopal, eles
participam no ministério de promover a unidade do povo de Deus na fé e na
caridade ».(26) O Sínodo manifestou a esperança de que a
ligação entre as Igrejas particulares e a Igreja universal, particularmente a
Santa Sé, revele e fortaleça a communio, desenvolvendo-se no devido
respeito tanto pelo ministério petrino da unidade como pelas Igrejas
particulares.(27) As Igrejas particulares da Oceânia sabem
que participam na communio da Igreja universal, considerando-o como um
motivo de regozijo: apesar da vastidão de culturas diversas e das grandes
distâncias na Oceânia, os bispos locais têm consciência de estar unidos entre
si e com o Bispo de Roma, vendo isto também como um grande dom. « Entre o
Sucessor de Pedro e os sucessores dos outros Apóstolos existe verdadeiramente
um profundo laço espiritual e pastoral: é a nossa colegialidade afectiva e
efectiva. Oxalá encontremos sempre as maneiras de nos apoiarmos uns aos
outros nos nossos esforços conjuntos para a construção da Igreja e para
vivermos esta comunhão no serviço e na fé ».(28) Como irmãos
no Colégio dos Bispos, os Padres Sinodais exprimiram o firme desejo de reforçar
a sua união com o Bispo de Roma,(29) propósito esse que não
podia deixar de comover e animar o Sucessor de Pedro.
Mútuo enriquecimento
12. Um sinal e
instrumento de colegialidade e comunhão entre os bispos é a Conferência
Episcopal, « uma santa colaboração de esforços para bem comum das Igrejas »,(30)
que de muitos modos contribui para a realização concreta do espírito de
colegialidade. Há numerosas áreas onde a Conferência dos Bispos tem
estabelecido frutuosas relações. A permuta de dons é característica de muitas
partes da Oceânia, podendo servir como modelo positivo para as relações dos
bispos do Continente entre si e com outros. Este modelo encoraja um intercâmbio
de dons espirituais que fomente relações de amor, respeito e confiança recíprocos.
As bases para instaurar um franco diálogo são a partilha e a consulta enquanto
expressões práticas da communio que caracteriza a Igreja.
As Igrejas Católicas Orientais chegaram à
Oceânia em tempos relativamente recentes, tendo-se consolidado como uma rica
expressão de catolicidade em várias partes da Oceânia, sobretudo na Austrália.
« Com a sua história e tradição únicas, elas dão um significativo testemunho da
diversidade e unidade da Igreja universal ».(31) No Sínodo,
as Igrejas Católicas Orientais reconheceram ter usufruído da generosidade da
Igreja Católica Latina na Oceânia; ao longo dos anos e em circunstâncias
frequentemente difíceis, bispos, sacerdotes e paróquias ofereceram-lhes
hospitalidade nas igrejas e escolas, e os vínculos de amizade e cooperação
perduram a todos os níveis. Contudo estas Igrejas são vulneráveis devido ao
número relativamente pequeno de fiéis e às grandes distâncias que as separam da
respectiva Igreja-Mãe, podendo os seus membros sentir-se pressionados ou tentados
a assimilar-se à Igreja Latina predominante. No Sínodo, porém, os bispos
latinos da Oceânia manifestaram claramente o desejo de estimar, compreender e
promover as tradições, a liturgia, a disciplina e a teologia das Igrejas
Católicas Orientais. Por isso, é importante incrementar entre os católicos
latinos o conhecimento e compreensão das riquezas das Igrejas Orientais
Católicas.
O desafio que se apresenta à Igreja na
Oceânia é chegar a uma compreensão mais profunda da communio local e
universal e a uma maior concretização das suas implicações práticas. O meu
predecessor Paulo VI resumiu tal desafio nestes termos: « O primeiro aspecto
desta comunhão, desta unidade, é o da fé. A unidade na fé é necessária e
fundamental (...). O segundo aspecto da comunhão católica é o da caridade.
(...) Devemos praticar uma caridade mais consciente e operosa nos [vários]
campos eclesiais ».(32) Os povos da Oceânia instintivamente
têm um forte sentido da comunidade; mas é necessária a unidade na fé, se se
quer superar o conflito e o ódio com a reconciliação e o amor. Nas culturas
mais ocidentalizadas, as instituições sociais sentem-se sob pressão, e as
pessoas anelam por uma vida mais digna do ser humano. Perante o individualismo
que ameaça corroer o edifício da sociedade humana, a Igreja oferece-se a si
mesma como sacramento que cura, como morada de communio que dá resposta
às carências mais profundas do coração. Um tal dom é hoje claramente necessário
entre os povos da Oceânia.
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