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Comunhão e missão
Chamamento à missão
13. A Igreja na
Oceânia recebeu o Evangelho de anteriores gerações de cristãos e de
missionários vindos de além-mar. O Sínodo prestou homenagem a tantos
missionários C sacerdotes, religiosos e religiosas e leigos também C que
gastaram as suas vidas na transmissão do Evangelho neste Continente; (33)
o seu sacrifício, por graça de Deus, deu muito fruto. Quando receberam a
plenitude da redenção em Cristo, os povos da Oceânia encontraram um símbolo
admirável no firmamento estrelado, o Cruzeiro do Sul, que permanece como sinal
luminoso da graça e bênção de Deus que a todos abraça.(34) A
geração cristã actual é chamada e enviada a realizar uma nova evangelização no
meio dos povos da Oceânia, uma nova proclamação daquela verdade duradoura
evocada pelo símbolo do Cruzeiro do Sul. Este chamamento à missão coloca
grandes desafios, mas abre também novos horizontes, cheios de esperança e até
uma sensação de aventura.
Tal chamamento é dirigido a cada membro da
Igreja. « Toda a Igreja é missionária, porque a actividade missionária (...) é
uma parte integrante da sua vocação ».(35) Alguns membros da
Igreja são enviados a povos que nunca ouviram falar de Jesus Cristo, e a sua
missão permanece vital hoje como sempre; mas muitos mais são enviados a
evangelizar o seu próprio ambiente, tendo os Padres Sinodais sublinhado
repetidamente a missão dos fiéis leigos: na família, no emprego, na escola, nas
actividades públicas, todos os cristãos podem ajudar a levar a Boa Nova ao
mundo onde vivem.
Uma comunidade cristã não deve pensar
simplesmente em ser um lugar confortável para os seus membros; os Padres
Sinodais animaram as comunidades locais a olharem para além dos seus interesses
imediatos interessando-se pelos outros. A paróquia enquanto comunidade não pode
isolar-se das realidades que a circundam; pelo contrário, deve estar atenta aos
problemas de justiça social e à fome espiritual da sociedade. O que Jesus
oferece aos seus seguidores deve ser partilhado com todos os povos da Oceânia
em qualquer situação que se encontrem, porque só n'Ele existe a plenitude da
vida.
Desafios
14. Os Padres
Sinodais manifestaram ardentemente o desejo de ver Jesus Cristo escutado e compreendido
pelas pessoas confiadas aos seus cuidados e por muitos mais; concluíram que há
necessidade de ir ao encontro daqueles que vivem com suas esperanças e anseios
insatisfeitos, dos cristãos só de nome, e de quantos se afastaram da Igreja
devido talvez a experiências negativas. Dever-se-ia fazer todo o esforço
possível por sarar tais feridas e fazer voltar ao aprisco a ovelha
perdida.
E sobretudo os Padres Sinodais quiseram
tocar os corações dos jovens, sabendo que muitos deles andam à procura de verdade
e felicidade; nesta busca, podem abandonar-se aos atractivos e apelos do mundo
actual, alguns dos quais são francamente nocivos. Isto acaba por gerar neles a
confusão, privados como estão do conhecimento dos autênticos valores e onde
encontrar a verdadeira felicidade. O grande desafio e oportunidade é
oferecer-lhes os dons de Jesus Cristo na Igreja, os únicos capazes de
satisfazer os seus anelos. Mas, esta apresentação de Cristo deve ser feita de
forma apropriada à nova geração que se ressente das rápidas mudanças da cultura
ambiental.
Às vezes a Igreja Católica é considerada
portadora duma mensagem irrelevante, que não atrai nem convence; jamais
poderemos deixar que tais vozes minem a nossa confiança, porque nós encontrámos
a pérola de grande valor (cf. Mt13, 46). Mas não foi para a guardarmos
só para nós; a Igreja é desafiada a traduzir a Boa Nova para os povos da
Oceânia segundo as suas urgências e condições actuais: temos de apresentar
Cristo ao mundo de modo a dar esperança a tantos que sofrem a desolação, a
injustiça, a pobreza. De facto, Ele é um mistério de vida nova para todos os
que passam necessidade ou vivem na amargura, para as famílias desfeitas ou
pessoas sem emprego, marginalizadas, feridas na alma ou no corpo, doentes ou
escravas da droga, e para quantos se extraviaram. Este mistério de graça, mysterium
pietatis, é o verdadeiro coração da Igreja e da sua missão.
Uma Igreja participativa
15. Nas comunidades
católicas da Oceânia, vai crescendo a convicção do muito que têm para oferecer
à Igreja universal, a qual, por sua vez, rejubila com os dons especiais destas
comunidades. Muitas delas estão empenhadas na expansão missionária quer na
Oceânia quer fora, nas ilhas do Pacífico e Papuásia-Nova Guiné, no sudeste
asiático e em regiões da terra ainda mais distantes. Igrejas particulares,
fundadas por missionários, começam por sua vez a enviar missionários, e isto é
um sinal inequívoco de maturidade. Assumiram aquela mensagem que o Papa Paulo
VI enviou, com o povo de Samoa, aos católicos do mundo inteiro: « Atendei o
apelo que fazemos para vos tornardes arautos da Boa Nova da salvação ».(36)
Cumpriu-se o voto que formulei aos bispos da Conferência Episcopal do Pacífico,
quando visitei Suva no ano 1986: « As Igrejas instituídas por missionários
possam por sua vez enviar muitos missionários a outras nações ».(37)
É verdade que algumas dioceses da Oceânia estão ainda dependentes da
solidariedade doutras Igrejas particulares, mas a falta de recursos não deveria
ser motivo para refrearem a própria generosidade no cumprimento da sua missão.
A partilha de recursos para o bem de todos é uma grave obrigação da vida do
cristão e às vezes uma urgente necessidade da missão cristã.
Em muitas ilhas da Oceânia, os catequistas
estão a ajudar os sacerdotes no seu trabalho missionário ou pastoral. Na
Austrália e Nova Zelândia, os catequistas ensinam as verdades da fé na
comunidade local, sobretudo às crianças e aos catecúmenos, e « são (...)
testemunhas directas, evangelizadores insubstituíveis, que representam a força
basilar das comunidades cristãs ».(38) Muitas vezes estes
obreiros leigos são de grande validade, porque vivem e trabalham junto das
pessoas na sua vida de todos os dias, e « eles deram e continuam a dar um
contributo verdadeiramente insubstituível para a vida e missão da Igreja ».(39)
Em muitas ilhas, os catequistas são preparados não só para ensinar mas também
para dirigir a comunidade em oração e evangelizar para além dos confins da
comunidade católica. Nas culturas tradicionais, muitas vezes a doutrina é
comunicada melhor oralmente através de narração de histórias, de pregação, de
oração feita de palavras, música e dança; para orientar e promover este tipo de
actividade, são necessários cursos, programas e retiros especiais. Urge agora
apresentar Jesus Cristo àqueles cuja fé se debilitou sob a pressão da
secularização e do consumismo e que tendem a considerar a Igreja apenas como
uma das muitas instituições da sociedade moderna que influenciam o pensamento e
o comportamento das pessoas. Em tal situação, a Igreja precisa de dirigentes e
teólogos bem preparados para apresentarem Jesus Cristo de forma persuasiva aos
povos da Oceânia.
Foi maravilhoso ouvir, durante a Assembleia,
muitos bispos falarem dos programas de renovação cristã nas suas dioceses e do
aprofundamento da fé que os mesmos oferecem aos seus fiéis. Um dos traços
salientes de tais programas é a numerosa participação dos leigos. Estamos todos
agradecidos a Deus pelos vários dons que concedeu aos leigos, homens e
mulheres, para cumprirem a sua missão, tendo eles recebido um chamamento não só
à acção e ao serviço, mas também à oração.(40) Eles e seus
pastores são encorajados a prosseguirem com vigoroso ardor, proclamando Jesus
Cristo ao seu povo com renovada convicção. As comunidades católicas na Oceânia
fazem já grandes esforços para irem ao encontro dos outros, proclamando e
vivendo a Boa Nova; os Padres Sinodais manifestaram profundo apreço por estes
esforços e um forte apoio a quantos estão prontos a oferecer-se para trabalhar
na missão da Igreja. A eles me associo rezando por estes trabalhadores da vinha
do Senhor para que possam encontrar satisfação e alegria no trabalho a que o
próprio Deus os chamou.
Muitos outros desafios se apresentam aos
membros da Igreja, sobretudo aos que têm a seu cargo responsabilidades
pastorais. Cientes das limitações de todo o esforço humano, os Padres Sinodais
não se deixaram abater, mas fizeram apelo à certeza simples e forte que lhes
deu o Senhor ressuscitado; de facto, quando enviou os Apóstolos a pregar a Boa
Nova a todas as nações, Ele disse: « Eu estarei sempre convosco, até ao fim do
mundo » (Mt 28, 20). Desta promessa divina, brotou uma esperança nova
para os bispos, a braços com os numerosos desafios que têm de enfrentar para
pregar Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida; e convidaram todos os católicos
da Oceânia a unirem-se a eles nesta esperança.
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