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Esperança para a sociedade
A doutrina social da Igreja
26. A Igreja
considera o apostolado social como parte integrante da sua missão
evangelizadora para dirigir uma palavra de esperança ao mundo; e o seu
compromisso nesta linha é visível na contribuição que dá para o progresso
humano, na promoção dos direitos humanos, na defesa da vida e dignidade humana,
justiça social e na protecção do ambiente. Profundamente solidários com o seu
povo, os Padres Sinodais reafirmaram a sua determinação de actuar contra as
injustiças, a corrupção, as ameaças à vida e as novas formas de pobreza.(92)
Nos fins do século XIX, quando a sociedade
industrial e consumista dava os seus primeiros passos, a Igreja na Oceânia
acolheu favoravelmente a doutrina social do Papa sobre os direitos dos
trabalhadores ao emprego e a um justo salário. Nos países da Oceânia em vias de
desenvolvimento, a doutrina social da Igreja tem sido bem recebida, sobretudo a
partir do Concílio Vaticano II, e os bispos locais têm-na ensinado de forma
eficaz e aplicada às questões sociais emergentes. As declarações feitas pela
Federação das Conferências dos Bispos Católicos da Oceânia, pelas diversas
Conferências Episcopais e pelos bispos individualmente tocam todos os âmbitos
do ensinamento social da Igreja e mostram como esta tem procurado promover a
causa dos indígenas e os direitos das nações mais pequenas, e ainda robustecer
os vínculos da solidariedade internacional; tem também ajudado a desenvolver
formas democráticas de governo que respeitem os direitos humanos, o estado de
direito e a sua justa aplicação.
Este empenho pela justiça social e a paz é,
sem dúvida, uma parte integrante da missão da Igreja no mundo; (93)
mas a sua missão não está subordinada a um poder político. « A Igreja
preocupa-se com os aspectos temporais do bem comum em razão da sua ordenação ao
Bem soberano, nosso fim último ».(94) A doutrina social da
Igreja deve ser ensinada e actuada ainda mais eficazmente na Oceânia, sobretudo
através de estruturas como as Comissões de Justiça e Paz. A referida doutrina
há-de ser « apresentada claramente aos crentes em termos facilmente
inteligíveis, e testemunhada por um estilo de vida simples ».(95)
É necessária uma análise mais incisiva das injustiças económicas e da corrupção
para que se possam propor medidas adequadas para vencê-las. Encorajem-se as
organizações católicas consagradas à acção em prol da justiça para permanecerem
atentas às novas formas de pobreza e injustiça e ajudarem a eliminar as suas
causas.
Direitos humanos
27. Os Padres
Sinodais fizeram votos de que os povos da Oceânia se tornem ainda mais
conscientes da dignidade humana, baseada no facto de todos terem sido criados à
imagem de Deus (cf. Gen1, 26). O respeito da pessoa humana comporta a
defesa dos direitos invioláveis que derivam precisamente da sua dignidade de
pessoa. Todos os direitos básicos são anteriores à sociedade e como tal devem
ser reconhecidos.(96) A falta de respeito pela dignidade ou
pelos direitos da pessoa é contrária ao Evangelho e atenta contra a sociedade
humana. A Igreja encoraja jovens e adultos a responder de modo eficaz à
injustiça e à violação dos direitos humanos, alguns dos quais se encontram
ameaçados ou necessitam de ser melhor respeitados na Oceânia.
Entre eles, conta-se o direito ao trabalho e
ao emprego que permite à pessoa sustentar-se, criar e educar uma família. O
desemprego dos jovens é uma grave preocupação, que em alguns países aumenta a
incidência do suicídio entre a juventude. Os sindicatos têm um papel
insubstituível a realizar na defesa dos direitos dos trabalhadores. Para serem
fiéis às suas obrigações, os políticos, os governantes e a polícia devem ser
honestos e evitar a corrupção em todas as suas formas, porque é sempre uma
grave injustiça aos cidadãos. Os responsáveis eclesiais, cooperando com os
políticos, os homens de negócios e os chefes da sociedade, podem dar uma válida
ajuda para se formular directrizes éticas nas questões que tocam o bem comum e
garantir que sejam postas em prática.
Sem a pretensão de serem peritos neste
campo, os pastores precisam de estar bem informados sobre os problemas
económicos e o seu impacto na sociedade. Os Padres Sinodais lembraram que « uma
teoria que faça do lucro a regra exclusiva e o fim último da actividade
económica é moralmente inaceitável »; (97) o chamado «
racionalismo económico » (98) é um princípio que tende a
dividir cada vez mais as nações, as comunidades e os indivíduos em ricos e
pobres. As nações mais pequenas da Oceânia são particularmente vulneráveis às
políticas económicas baseadas numa filosofia social deste tipo, que tem um
escasso sentido de justiça distributiva e pouco se preocupa em assegurar a cada
um as necessárias condições de vida e um desenvolvimento humano integral. O
facto de serem as famílias que padecem com tais políticas económicas é
particularmente inquietante. Os bispos assinalaram outro fenómeno destrutivo na
Oceânia que é a difusão do jogo de azar, sobretudo nos casinos, que promete uma
solução rápida e espectacular das dificuldades económicas quando, na realidade,
precipitam as pessoas numa situação ainda pior.
Os povos indígenas
28. As políticas
económicas injustas são especialmente danosas para os povos indígenas, as
nações jovens e as suas culturas tradicionais; é missão da Igreja ajudar as
culturas indígenas a preservarem a sua identidade e manterem as suas tradições.
O Sínodo animou a Santa Sé a prosseguir na tutela da Declaração das Nações
Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.(99)
Um caso especial são os aborígenes
australianos, cuja cultura luta pela sobrevivência. Durante milénios e
milénios, procuraram viver em harmonia com o ambiente, muitas vezes agreste, do
seu « grande país »; mas agora a sua identidade e cultura estão gravemente ameaçadas.
Ultimamente, porém, os seus esforços conjuntos para garantirem a sobrevivência
e obterem justiça começaram a dar fruto. Na Aula Sinodal, foi referido um
provérbio próprio da vida nas florestas da Austrália: « Se permanecerdes
intimamente unidos, vós sereis como uma árvore de pé no meio de um incêndio que
queima a madeira na floresta. As folhas estão a arder e a casca robusta seca-se
e é queimada; mas dentro da árvore a linfa continua a correr, e debaixo da
terra as raízes estão ainda robustas. Como aquela árvore, vós sobrevivestes às
chamas e tendes ainda a força para renascer. O tempo para este renascer é agora
».(100) A Igreja sempre apoiará a causa dos povos indígenas
que pedem um justo e equitativo reconhecimento da sua identidade e dos seus
direitos.(101) Os Padres Sinodais exprimiram o seu apoio às
aspirações do povo indígena por uma solução justa para a complicada questão da
alienação das suas terras.(102)
Às vezes a verdade foi sufocada por governos
e suas instituições ou ainda por comunidades cristãs; é necessário que as
injustiças feitas aos indígenas sejam honestamente reconhecidas; o Sínodo
apoiou a instituição de « Comissões pela Verdade »,(103)
sempre que possam ajudar a resolver injustiças históricas e promover a
reconciliação no seio da sociedade mais alargada ou da nação. O passado não
pode ser desfeito, mas um reconhecimento honesto das injustiças passadas pode
originar medidas e atitudes que ajudem a corrigir os efeitos nocivos quer para
a comunidade indígena quer para a sociedade inteira. A Igreja exprime profundo
pesar e pede perdão pelos seus filhos que foram ou são ainda cúmplices destes
agravos. Conscientes das vergonhosas injustiças feitas aos povos indígenas da
Oceânia, os Padres Sinodais pediram incondicionalmente desculpa pela parte que
nelas tiveram membros da Igreja, sobretudo no caso de crianças separadas à
força das suas famílias.(104) Os governos são convidados a
fomentar com maior vigor programas que melhorem as condições e o nível de vida
dos grupos indígenas nas áreas vitais da saúde, educação, emprego e
habitação.
Ajuda ao desenvolvimento
29. Como, na Igreja
primitiva, cada comunidade cristã estava ligada às outras pela hospitalidade
oferecida aos peregrinos, pela ajuda recíproca e pela partilha de recursos
materiais e humanos, assim a solidariedade prática entre as Igrejas
particulares na Oceânia torna patente ao mundo a communio. Muitas
economias nacionais da Oceânia estão ainda dependentes da ajuda internacional e
necessitam de contínuo apoio económico para o desenvolvimento. Enquanto a ajuda
é generosamente oferecida pelas instituições internacionais para o
desenvolvimento sócio-económico, a Igreja tem dificuldade em obter ajuda
directa para os seus projectos pastorais, apesar de muitos deles se estenderem
para além dos confins da comunidade católica. Por isso, o Sínodo recomendou que
as instituições de apoio ligadas à Igreja revejam os seus critérios, para abrir
os seus recursos às obras apostólicas que são um pré-requisito para o
desenvolvimento social que há-de melhorar o nível de vida.(105)
Os Padres Sinodais pediram também que a
Igreja presente nas regiões mais ricas da Oceânia « partilhe os seus recursos com
as diversas Igrejas particulares do Pacífico e as ajude a estabelecer contactos
com organismos financiadores ».(106) E a Igreja na Oceânia
também não pode ficar indiferente ao destino das Igrejas mais pobres da vizinha
Ásia, sempre que se encontram necessitadas da sua ajuda e dos seus serviços. O
Sínodo reconhece com gratidão as generosas contribuições em dinheiro e recursos
dadas pelos católicos para programas de ajuda, e de modo especial a obra do
laicado empenhado, em situações por vezes muito difíceis, a melhorar as
condições humanas na Oceânia.
A sacralidade da vida
30. Nas sociedades
mais secularizadas e ricas da Oceânia, o direito à vida é um dos mais
ameaçados. Verifica-se aqui uma profunda contradição, porque frequentemente são
sociedades que falam, com muita insistência, dos direitos humanos e ao mesmo
tempo negam o mais básico de todos. Não disse porventura o próprio Cristo: « Eu
vim para que tenham vida, e a tenham em abundância » (Jo10, 10)? De
facto, « o Evangelho da vida está no centro da mensagem de Jesus ».(107)
Na luta actual entre uma « cultura da vida » e uma « cultura da morte », a
Igreja tem de defender o direito à vida desde o momento da concepção até à
morte natural, com todas as fases do seu desenvolvimento. Os valores morais e
sociais que deveriam plasmar a sociedade estão baseados na sacralidade da vida
criada por Deus. A apresentação duma visão clara da origem da humanidade em
Deus criador e do seu destino eterno ajudará muitas pessoas a intuírem o
verdadeiro valor da vida. Não é que a Igreja queira impor a sua moralidade aos
outros; deseja simplesmente ser fiel à sua missão de partilhar a verdade
inteira acerca da vida, como lhe foi ensinada por Jesus Cristo. A exaltação da
sacralidade da vida é uma consequência da visão cristã da existência humana.
Esta verdade deve ser ensinada pela Igreja não só no âmbito da comunidade
católica, mas igualmente, de modo profético, à sociedade inteira, para anunciar
a força e a beleza do Evangelho da vida.
Para isso, é essencial tanto o testemunho
das instituições sanitárias católicas como o dos mass‑media na
promoção do valor da vida. Para apresentarem à opinião pública, de modo claro e
fiel, a posição da Igreja em questões bioéticas e sanitárias, os bispos, sacerdotes
e profissionais de leis e de saúde precisam de ser adequadamente preparados.(108)
A vida deve ser promovida e a sua sacralidade defendida contra qualquer ameaça
de violência nas suas múltiplas formas, sobretudo violência contra os mais débeis
que são os idosos, os moribundos, as mulheres, as crianças, os deficientes e os
nascituros.
O meio ambiente
31. A Oceânia é uma
parte do mundo com grande beleza natural, tendo conseguido guardar áreas que
permanecem intactas. Ainda hoje a região oferece aos povos indígenas um lugar
para viverem em harmonia com a natureza e uns com os outros.(109)
Dado que a criação foi confiada à gestão do homem, o mundo natural não é
simplesmente um conjunto de recursos para desfrutar, mas também uma realidade
que deve ser respeitada e venerada como dom que lhe foi confiado por Deus. É
tarefa do ser humano cuidar, preservar e cultivar os tesouros da criação. Os
Padres Sinodais pediram aos povos da Oceânia para se alegrarem sempre com a glória
da criação num espírito de acção de graças ao Criador.
Mas, a beleza natural da Oceânia não escapou
aos estragos da incúria e avidez humanas. Os Padres Sinodais encorajaram os
governos e os povos da Oceânia a proteger este ambiente precioso para as gerações
presentes e futuras.(110) Uma especial responsabilidade
deles é assumir, em nome da humanidade inteira, a gestão do Oceano Pacífico,
que reúne mais de metade das reservas hídricas da terra. A boa conservação
deste e dos outros oceanos é crucial para o bem-estar dos povos não só na
Oceânia mas por toda a parte do mundo.
Os recursos naturais da Oceânia devem ser
protegidos contra as políticas nocivas de algumas nações industrializadas e de
multinacionais cada vez mais poderosas, que podem levar ao desflorestamento, à
expropriação da terra, à poluição de rios com actividades mineiras, à pesca
desenfreada de espécies lucrativas, ou à contaminação dos fundos marinhos com
escórias industriais e nucleares; o depósito destas últimas na região constitui
um perigo mais para a saúde da população indígena. Contudo é importante também
reconhecer que a indústria pode trazer grandes benefícios, quando opera no
devido respeito pelos direitos e cultura da população local e pela integridade
do meio ambiente.
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