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A actividade sócio-caritativa
Instituições católicas
32. A história da
Igreja na Oceânia não pode ser narrada sem mencionar as contribuições excepcionais
da Igreja no campo da educação, da saúde e da assistência social. As
instituições católicas permitem que a luz do Evangelho penetre nas culturas e
sociedades, evangelizando-as, por assim dizer, a partir de dentro. Graças ao
trabalho dos missionários cristãos, antigas formas de violência têm cedido o
lugar a práticas inspiradas no direito e na justiça. Através da educação, têm
sido formados dirigentes cristãos e cidadãos responsáveis, e os valores morais
cristãos têm forjado a sociedade. Nos seus programas de educação, a Igreja
procura a formação integral da pessoa humana, vendo no próprio Cristo a
humanidade em plenitude. O apostolado sócio-caritativo testemunha, por palavras
e acções, a plenitude do amor cristão. Um tal testemunho de amor leva as
pessoas a interrogarem-se sobre a sua origem e perguntarem-se porque é que os
cristãos são diferentes nos seus valores e comportamento.(111)
E, deste modo, Cristo toca a vida dos outros, encaminhando-os para uma maior
percepção do que significa falar de « civilização do amor » (112)
e empenhar-se na sua edificação.
A Igreja serve-se da liberdade religiosa na
sociedade para proclamar Cristo publicamente e partilhar com abundância o seu
amor através da criação de instituições nele inspiradas. O direito de a Igreja
fundar instituições educativas, sanitárias e de assistência social baseia-se
precisamente em tal liberdade. O apostolado social destas instituições pode ser
mais eficaz quando os governos não se limitam a tolerar mas cooperam nesta área
com as autoridades eclesiais, no respeito inequívoco pela função e competência
de cada um.
Educação católica
33. Os pais são os
primeiros educadores dos filhos quanto aos valores humanos e à fé cristã; e têm
o direito fundamental de escolher a educação idónea para eles. As escolas
assistem os pais no exercício deste direito, ajudando os estudantes a
desenvolver-se como devem. Nalgumas situações, a escola católica é o único
contacto que os pais têm com a comunidade eclesial.
A escola católica possui uma identidade
eclesial, porque é parte da missão evangelizadora da Igreja.(113)
Um dos traços distintivos da educação católica é que está aberta a todos,
especialmente aos pobres e aos mais débeis da sociedade.(114)
É vital a colaboração entre a escola e a paróquia, e que aquela esteja
integrada no programa pastoral paroquial, sobretudo no que se refere aos
sacramentos da confirmação, penitência e eucaristia.
Na escola primária, os professores
desenvolvem nas crianças aquele potencial de fé e de compreensão que há-de
florescer plenamente nos anos seguintes. A escola secundária representa um meio
privilegiado para « a comunidade católica proporcionar aos estudantes uma
formação intelectual, profissional e religiosa »; (115)
durante estes anos, os estudantes normalmente chegam a um maior discernimento
acerca da fé e da vida moral, baseando-as num conhecimento mais pessoal de
Jesus Cristo como Caminho, Verdade e Vida. Uma tal fé, nutrida em família, na
escola e na paróquia através da oração e dos sacramentos, manifesta-se por meio
duma sólida e recta vida moral. Numa sociedade cada vez mais secularizada, o
grande desafio para as escolas católicas é apresentar a mensagem cristã de modo
persuasivo e sistemático, tendo presente que « a catequese corre o risco de
ficar estéril, se uma comunidade de fé e de vida cristã não acolher os que
estão a ser formados ».(116) Por isso, os jovens devem ser
verdadeiramente integrados na vida e actividade da comunidade.
Os Padres Sinodais quiseram agradecer a obra
dos religiosos e religiosas e dos leigos que tão generosamente têm trabalhado
no campo da educação católica,(117) fundando e dotando de
pessoal as escolas católicas, afrontando muitas vezes grandes dificuldades com
enorme sacrifício. A sua contribuição para a Igreja e a sociedade civil na
Oceânia tem sido incalculável. No contexto actual da educação, as congregações
religiosas, os institutos e as sociedades de vida apostólica têm toda a razão
para estimar a sua vocação. Mulheres e homens consagrados fazem falta nas
instituições educativas para dar um testemunho radical dos valores evangélicos
e, desse modo, inspirá-los a outros. Recentemente, a generosa resposta dos
leigos às necessidades de hoje abriu novas perspectivas para a educação
católica. Para os leigos empenhados no ensino, este, mais do que profissão, é
visto como uma vocação para formar estudantes, um serviço laical amplamente
difuso e indispensável na Igreja. Ensinar é sempre um desafio, mas com a colaboração
e o estímulo de pais, sacerdotes e religiosos, a participação dos leigos no
campo da educação católica pode ser um valioso serviço ao Evangelho e um
caminho de santificação cristã tanto para o professor como para os
alunos.
A identidade e o sucesso da educação
católica estão inseparavelmente ligados ao testemunho de vida dado pelo corpo
docente. Por isso, os bispos recomendaram, a « quem é responsável pelo
recrutamento dos professores e administradores para as nossas escolas
católicas, que tenha em conta a vida de fé daqueles que são assumidos ».(118)
Os professores que vivem profundamente a sua fé serão agentes duma nova
evangelização, criando um clima positivo para o crescimento da fé cristã e
alimentando espiritualmente os estudantes confiados aos seus cuidados. Gozam de
particular influência, quando são católicos praticantes, comprometidos na sua
comunidade paroquial e leais para com a Igreja e a sua doutrina.
Hoje, a Igreja na Oceânia está a ampliar o
seu empenho no campo educativo. Leigos católicos diplomados recebem grande
ajuda de institutos superiores católicos, de colégios e universidades, que os
alimentam intelectualmente, educam profissionalmente e apoiam a sua fé, para
poderem ocupar o seu lugar na missão da Igreja no mundo. Esta aventura ao nível
superior da educação está ainda a começar na Oceânia e exige especiais dons de
sensatez e discernimento na sua evolução. As universidades católicas são
comunidades que reúnem professores dos vários ramos do saber humano; dedicam-se
à pesquisa, ao ensino e a outros serviços de acordo com a sua missão cultural.
É, para elas, uma honra e uma responsabilidade consagrarem-se sem reservas à
causa da verdade.(119) Pede-se-lhes que observem os mais
altos parâmetros da pesquisa e ensino académico como um serviço à comunidade
local, nacional e internacional. Têm assim uma função vital na sociedade e na
Igreja que é preparar futuros profissionais e dirigentes capazes de tomarem a
sério as suas responsabilidades cristãs. Os bispos consideraram essencial
manter um contacto pessoal com os universitários e promover qualidades de
liderança naqueles que labutam no nível superior da educação.
A pesquisa e o ensino nas instituições
universitárias devem levar os valores cristãos ao mundo das artes e das
ciências. A Igreja necessita de peritos em filosofia, ética e teologia moral,
para que os valores humanos sejam adequadamente compreendidos no contexto duma
sociedade tecnológica cada vez mais complexa; e a unidade de conhecimento não
estará completa enquanto não for permitido à teologia iluminar todo o campo da
investigação. Há que ter particular cuidado com a selecção e formação de
professores para trabalhar na área da teologia. « A constituição apostólica
Ex corde Ecclesiæ determina que a maioria dos professores nas universidades
católicas e noutros institutos superiores católicos devem ser católicos
activos. Os responsáveis pelo recrutamento de pessoal escolham cuidadosamente
professores que sejam não apenas competentes no âmbito da sua especialidade,
mas possam também servir de modelo para os jovens ».(120) A
presença de católicos activos nas instituições académicas superiores é vital e
constitui um verdadeiro serviço à Igreja e à sociedade.
Assistência sanitária
34. Jesus curou os
doentes e consolou os aflitos. Depois de ressuscitado, continua o seu
ministério de cura e consolação através daqueles que levam a misericórdia
divina aos débeis e doentes. Este ministério da Igreja na Oceânia constitui,
para muitas pessoas, a prova mais saliente e tangível do amor de Deus. A missão
messiânica da misericórdia,(121) feita de cura e perdão,
deve ser continuada sem parcimónia e segundo modalidades novas que correspondam
às necessidades actuais.
A história da assistência sanitária na
Oceânia demonstra a sua estreita ligação com a missão da Igreja e como engloba
os vários âmbitos sanitários, incluindo o fornecimento dos mais elementares
serviços médicos às zonas mais remotas. A Igreja foi das primeiras instituições
a ocupar-se daqueles que eram segregados pela sociedade como, por exemplo, os
leprosos e os doentes da SIDA. Além disso, administra escolas hospitalares,
onde os profissionais da saúde são excelentemente preparados. Devido à crise
actual que atravessa a prestação e o financiamento dos cuidados médicos na
Oceânia, algumas instituições estão a passar sérias dificuldades, mas não se
pode permitir que isso comprometa o empenho fundamental da Igreja nesta
área.
O ensinamento da Igreja sobre a dignidade da
pessoa humana e a sacralidade da vida deve ser exposto aos responsáveis das
leis e das decisões judiciárias, sobretudo quando as suas posições têm
consequências sobre a saúde, a administração dos hospitais e a prestação dos
serviços médicos. Hoje os hospitais e as instituições sanitárias católicas
estão na vanguarda da luta que a Igreja trava pela vida humana, desde o momento
da concepção até à sua morte natural. Os Padres Sinodais reconheceram o zelo
das congregações religiosas que fundaram o sistema sanitário católico na Oceânia.
A Igreja e a sociedade inteira têm para com elas uma dívida imensa de gratidão.
A sua presença nos hospitais deve continuar, juntamente com leigos preparados
para trabalhar com os diversos institutos de vida consagrada segundo o espírito
do seu carisma. Estas pessoas fazem com que o Evangelho da vida seja proclamado
sem ambiguidades numa sociedade que muitas vezes se sente confusa relativamente
aos valores morais. Para se neutralizar a influência duma « cultura da morte »,
os Padres Sinodais recomendaram que se incitem todos os cristãos a darem a sua
ajuda para que a grande herança do serviço sanitário católico não seja
comprometida.(122)
As universidades católicas têm uma função
mestra a desempenhar na educação de profissionais da saúde capazes de aplicar a
doutrina católica aos novos desafios que incessantemente se levantam no campo
médico. De toda a forma possível, devem ser promovidas e, onde não existam,
instituídas as associações de médicos católicos, de enfermeiros e de agentes
sanitários. Os administradores e o pessoal das instituições católicas precisam
de formação para aplicar os princípios morais católicos na sua vida
profissional. Esta é uma tarefa delicada, quando alguns dos que trabalham em
hospitais católicos não estão familiarizados com estes princípios ou não
concordam com eles; mas, se a doutrina for apresentada de forma apropriada,
tais pessoas acabam muitas vezes por sentir a paz que deriva de viver em
harmonia com a verdade e cooperam de boa vontade.
A fé na cruz redentora de Cristo dá novo
significado à doença, ao sofrimento e à morte. Os Padres Sinodais apontaram a
necessidade de apoiar aqueles que possuem ou administram estruturas para
testemunhar a compaixão de Cristo a quantos sofrem, de modo particular a
pessoas inválidas, aos doentes da SIDA, aos idosos, aos moribundos, aos povos
indígenas e aos que vivem em áreas isoladas.(123) Uma
particular atenção reservaram os bispos a quantos prestam tais serviços nas
áreas mais remotas, como a selva, ilhas pequenas ou o sertão australiano.
Muitas vezes dispondo de escassos recursos e pouco apoio económico, eles
oferecem, com o seu zelo, um poderoso testemunho do amor de Deus pelo pobre, o
doente e o abandonado. Quer trabalhem em hospitais, quer cuidem dos idosos,
quer prestem outras formas de assistência sanitária ao mais pequeno dos seus
irmãos e irmãs (cf. Mt25, 40), saibam que a Igreja aprecia imenso a sua
dedicação e generosidade e agradece-lhes por estarem na vanguarda da caridade
cristã.
Serviços sociais
35. Jesus, ao longo
da sua vida na terra, era sensível a toda a fraqueza e aflição humana. « No
centro do seu ensino pôs as oito bem-aventuranças, que são dirigidas aos homens
provados por diversos sofrimentos na vida temporal ».(124)
Seguindo os passos do Senhor, a missão caritativa da Igreja estende-se aos mais
necessitados: os órfãos, os pobres, as pessoas sem abrigo, os abandonados e
excluídos. Uma tal missão é cumprida por quem cuida dos necessitados através de
iniciativas pessoais ou mediante instituições criadas para acorrer às várias
necessidades a nível paroquial, diocesano, nacional e internacional.
Não há lugar aqui para um elenco exaustivo
dos serviços sociais prestados pela Igreja na Oceânia; de alguns, porém, foi
feita menção especial na Aula Sinodal. A Igreja oferece serviços de consultoria
a sujeitos com dificuldades pessoais ou sociais procurando reforçar as
famílias, a fim de prevenir separações matrimoniais e divórcios ou tratar as
suas dolorosas consequências. Dar alimento aos pobres, instituir centros de
assistência para várias categorias de pessoas, ajudar os que não têm abrigo e
os « meninos de rua » são apenas uma pequena parte do apostolado social da
Igreja na Oceânia. De forma silenciosa e reservada, alguns grupos paroquiais e
associações apostólicas trabalham para remediar as feridas frequentemente
encobertas causadas pela pobreza nos subúrbios ou nas áreas rurais. Grupos há
que ajudam a levar a paz e a reconciliação entre clãs, tribos ou outros grupos
em conflito. As mulheres, sobretudo mães, gozam duma eficácia extraordinária na
promoção de meios pacíficos para resolver conflitos.(125) A
solicitude da Igreja estende-se também às pessoas dependentes do álcool, das
drogas, do jogo de azar, e às vítimas de abuso sexual. Os Padres Sinodais
mencionaram também os refugiados e quantos procuram asilo: o seu número está a
crescer e a sua dignidade humana reclama que sejam acolhidos e tratados com os
devidos cuidados. Dado que as nações da Oceânia dependem dos oceanos e dos
mares, os Padres Sinodais preocuparam-se também dos marinheiros, que trabalham
muitas vezes em duras condições e vivem sujeitos a muitas provações.
É frequente haver voluntários que oferecem o
seu tempo, energias e serviços profissionais a estas formas de apostolado, sem
qualquer remuneração. É que quantos escolheram, como modo de vida, amar
sacrificando-se a si próprios, não o fizeram à espera de agradecimento ou
recompensa humana, nem haveria uma adequada; toda a sua preocupação é
desempenhar a parte que lhes cabe na missão eclesial de proclamar a verdade de
Jesus Cristo, seguir o seu caminho e viver a sua vida. Estas pessoas são de
importância fundamental em qualquer planificação para uma nova evangelização
dos povos da Oceânia. A fé é despertada pela pregação da palavra de Deus, e a
esperança é alimentada pela promessa do seu Reino, mas a caridade é infundida
pelo Espírito Santo, « Senhor que dá a vida ».
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