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Ioannes Paulus PP. II
Ecclesia in Oceania

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  • CAPÍTULO III - PROCLAMANDO A VERDADE DE JESUS CRISTO NA OCEÂNIA
    • A actividade sócio-caritativa
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A actividade sócio-caritativa

Instituições católicas 

32. A história da Igreja na Oceânia não pode ser narrada sem mencionar as contribuições excepcionais da Igreja no campo da educação, da saúde e da assistência social. As instituições católicas permitem que a luz do Evangelho penetre nas culturas e sociedades, evangelizando-as, por assim dizer, a partir de dentro. Graças ao trabalho dos missionários cristãos, antigas formas de violência têm cedido o lugar a práticas inspiradas no direito e na justiça. Através da educação, têm sido formados dirigentes cristãos e cidadãos responsáveis, e os valores morais cristãos têm forjado a sociedade. Nos seus programas de educação, a Igreja procura a formação integral da pessoa humana, vendo no próprio Cristo a humanidade em plenitude. O apostolado sócio-caritativo testemunha, por palavras e acções, a plenitude do amor cristão. Um tal testemunho de amor leva as pessoas a interrogarem-se sobre a sua origem e perguntarem-se porque é que os cristãos são diferentes nos seus valores e comportamento.(111) E, deste modo, Cristo toca a vida dos outros, encaminhando-os para uma maior percepção do que significa falar de « civilização do amor » (112) e empenhar-se na sua edificação

A Igreja serve-se da liberdade religiosa na sociedade para proclamar Cristo publicamente e partilhar com abundância o seu amor através da criação de instituições nele inspiradas. O direito de a Igreja fundar instituições educativas, sanitárias e de assistência social baseia-se precisamente em tal liberdade. O apostolado social destas instituições pode ser mais eficaz quando os governos não se limitam a tolerar mas cooperam nesta área com as autoridades eclesiais, no respeito inequívoco pela função e competência de cada um. 

Educação católica 

33. Os pais são os primeiros educadores dos filhos quanto aos valores humanos e à cristã; e têm o direito fundamental de escolher a educação idónea para eles. As escolas assistem os pais no exercício deste direito, ajudando os estudantes a desenvolver-se como devem. Nalgumas situações, a escola católica é o único contacto que os pais têm com a comunidade eclesial

A escola católica possui uma identidade eclesial, porque é parte da missão evangelizadora da Igreja.(113) Um dos traços distintivos da educação católica é que está aberta a todos, especialmente aos pobres e aos mais débeis da sociedade.(114) É vital a colaboração entre a escola e a paróquia, e que aquela esteja integrada no programa pastoral paroquial, sobretudo no que se refere aos sacramentos da confirmação, penitência e eucaristia

Na escola primária, os professores desenvolvem nas crianças aquele potencial de e de compreensão que há-de florescer plenamente nos anos seguintes. A escola secundária representa um meio privilegiado para « a comunidade católica proporcionar aos estudantes uma formação intelectual, profissional e religiosa »; (115) durante estes anos, os estudantes normalmente chegam a um maior discernimento acerca da e da vida moral, baseando-as num conhecimento mais pessoal de Jesus Cristo como Caminho, Verdade e Vida. Uma tal , nutrida em família, na escola e na paróquia através da oração e dos sacramentos, manifesta-se por meio duma sólida e recta vida moral. Numa sociedade cada vez mais secularizada, o grande desafio para as escolas católicas é apresentar a mensagem cristã de modo persuasivo e sistemático, tendo presente que « a catequese corre o risco de ficar estéril, se uma comunidade de e de vida cristã não acolher os que estão a ser formados ».(116) Por isso, os jovens devem ser verdadeiramente integrados na vida e actividade da comunidade

Os Padres Sinodais quiseram agradecer a obra dos religiosos e religiosas e dos leigos que tão generosamente têm trabalhado no campo da educação católica,(117) fundando e dotando de pessoal as escolas católicas, afrontando muitas vezes grandes dificuldades com enorme sacrifício. A sua contribuição para a Igreja e a sociedade civil na Oceânia tem sido incalculável. No contexto actual da educação, as congregações religiosas, os institutos e as sociedades de vida apostólica têm toda a razão para estimar a sua vocação. Mulheres e homens consagrados fazem falta nas instituições educativas para dar um testemunho radical dos valores evangélicos e, desse modo, inspirá-los a outros. Recentemente, a generosa resposta dos leigos às necessidades de hoje abriu novas perspectivas para a educação católica. Para os leigos empenhados no ensino, este, mais do que profissão, é visto como uma vocação para formar estudantes, um serviço laical amplamente difuso e indispensável na Igreja. Ensinar é sempre um desafio, mas com a colaboração e o estímulo de pais, sacerdotes e religiosos, a participação dos leigos no campo da educação católica pode ser um valioso serviço ao Evangelho e um caminho de santificação cristã tanto para o professor como para os alunos

A identidade e o sucesso da educação católica estão inseparavelmente ligados ao testemunho de vida dado pelo corpo docente. Por isso, os bispos recomendaram, a « quem é responsável pelo recrutamento dos professores e administradores para as nossas escolas católicas, que tenha em conta a vida de daqueles que são assumidos ».(118) Os professores que vivem profundamente a sua serão agentes duma nova evangelização, criando um clima positivo para o crescimento da cristã e alimentando espiritualmente os estudantes confiados aos seus cuidados. Gozam de particular influência, quando são católicos praticantes, comprometidos na sua comunidade paroquial e leais para com a Igreja e a sua doutrina

Hoje, a Igreja na Oceânia está a ampliar o seu empenho no campo educativo. Leigos católicos diplomados recebem grande ajuda de institutos superiores católicos, de colégios e universidades, que os alimentam intelectualmente, educam profissionalmente e apoiam a sua , para poderem ocupar o seu lugar na missão da Igreja no mundo. Esta aventura ao nível superior da educação está ainda a começar na Oceânia e exige especiais dons de sensatez e discernimento na sua evolução. As universidades católicas são comunidades que reúnem professores dos vários ramos do saber humano; dedicam-se à pesquisa, ao ensino e a outros serviços de acordo com a sua missão cultural. É, para elas, uma honra e uma responsabilidade consagrarem-se sem reservas à causa da verdade.(119) Pede-se-lhes que observem os mais altos parâmetros da pesquisa e ensino académico como um serviço à comunidade local, nacional e internacional. Têm assim uma função vital na sociedade e na Igreja que é preparar futuros profissionais e dirigentes capazes de tomarem a sério as suas responsabilidades cristãs. Os bispos consideraram essencial manter um contacto pessoal com os universitários e promover qualidades de liderança naqueles que labutam no nível superior da educação

A pesquisa e o ensino nas instituições universitárias devem levar os valores cristãos ao mundo das artes e das ciências. A Igreja necessita de peritos em filosofia, ética e teologia moral, para que os valores humanos sejam adequadamente compreendidos no contexto duma sociedade tecnológica cada vez mais complexa; e a unidade de conhecimento não estará completa enquanto não for permitido à teologia iluminar todo o campo da investigação. Há que ter particular cuidado com a selecção e formação de professores para trabalhar na área da teologia. « A constituição apostólica Ex corde Ecclesiæ determina que a maioria dos professores nas universidades católicas e noutros institutos superiores católicos devem ser católicos activos. Os responsáveis pelo recrutamento de pessoal escolham cuidadosamente professores que sejam não apenas competentes no âmbito da sua especialidade, mas possam também servir de modelo para os jovens ».(120) A presença de católicos activos nas instituições académicas superiores é vital e constitui um verdadeiro serviço à Igreja e à sociedade

Assistência sanitária 

34. Jesus curou os doentes e consolou os aflitos. Depois de ressuscitado, continua o seu ministério de cura e consolação através daqueles que levam a misericórdia divina aos débeis e doentes. Este ministério da Igreja na Oceânia constitui, para muitas pessoas, a prova mais saliente e tangível do amor de Deus. A missão messiânica da misericórdia,(121) feita de cura e perdão, deve ser continuada sem parcimónia e segundo modalidades novas que correspondam às necessidades actuais

A história da assistência sanitária na Oceânia demonstra a sua estreita ligação com a missão da Igreja e como engloba os vários âmbitos sanitários, incluindo o fornecimento dos mais elementares serviços médicos às zonas mais remotas. A Igreja foi das primeiras instituições a ocupar-se daqueles que eram segregados pela sociedade como, por exemplo, os leprosos e os doentes da SIDA. Além disso, administra escolas hospitalares, onde os profissionais da saúde são excelentemente preparados. Devido à crise actual que atravessa a prestação e o financiamento dos cuidados médicos na Oceânia, algumas instituições estão a passar sérias dificuldades, mas não se pode permitir que isso comprometa o empenho fundamental da Igreja nesta área

O ensinamento da Igreja sobre a dignidade da pessoa humana e a sacralidade da vida deve ser exposto aos responsáveis das leis e das decisões judiciárias, sobretudo quando as suas posições têm consequências sobre a saúde, a administração dos hospitais e a prestação dos serviços médicos. Hoje os hospitais e as instituições sanitárias católicas estão na vanguarda da luta que a Igreja trava pela vida humana, desde o momento da concepção até à sua morte natural. Os Padres Sinodais reconheceram o zelo das congregações religiosas que fundaram o sistema sanitário católico na Oceânia. A Igreja e a sociedade inteira têm para com elas uma dívida imensa de gratidão. A sua presença nos hospitais deve continuar, juntamente com leigos preparados para trabalhar com os diversos institutos de vida consagrada segundo o espírito do seu carisma. Estas pessoas fazem com que o Evangelho da vida seja proclamado sem ambiguidades numa sociedade que muitas vezes se sente confusa relativamente aos valores morais. Para se neutralizar a influência duma « cultura da morte », os Padres Sinodais recomendaram que se incitem todos os cristãos a darem a sua ajuda para que a grande herança do serviço sanitário católico não seja comprometida.(122) 

As universidades católicas têm uma função mestra a desempenhar na educação de profissionais da saúde capazes de aplicar a doutrina católica aos novos desafios que incessantemente se levantam no campo médico. De toda a forma possível, devem ser promovidas e, onde não existam, instituídas as associações de médicos católicos, de enfermeiros e de agentes sanitários. Os administradores e o pessoal das instituições católicas precisam de formação para aplicar os princípios morais católicos na sua vida profissional. Esta é uma tarefa delicada, quando alguns dos que trabalham em hospitais católicos não estão familiarizados com estes princípios ou não concordam com eles; mas, se a doutrina for apresentada de forma apropriada, tais pessoas acabam muitas vezes por sentir a paz que deriva de viver em harmonia com a verdade e cooperam de boa vontade

A na cruz redentora de Cristo novo significado à doença, ao sofrimento e à morte. Os Padres Sinodais apontaram a necessidade de apoiar aqueles que possuem ou administram estruturas para testemunhar a compaixão de Cristo a quantos sofrem, de modo particular a pessoas inválidas, aos doentes da SIDA, aos idosos, aos moribundos, aos povos indígenas e aos que vivem em áreas isoladas.(123) Uma particular atenção reservaram os bispos a quantos prestam tais serviços nas áreas mais remotas, como a selva, ilhas pequenas ou o sertão australiano. Muitas vezes dispondo de escassos recursos e pouco apoio económico, eles oferecem, com o seu zelo, um poderoso testemunho do amor de Deus pelo pobre, o doente e o abandonado. Quer trabalhem em hospitais, quer cuidem dos idosos, quer prestem outras formas de assistência sanitária ao mais pequeno dos seus irmãos e irmãs (cf. Mt25, 40), saibam que a Igreja aprecia imenso a sua dedicação e generosidade e agradece-lhes por estarem na vanguarda da caridade cristã

Serviços sociais 

35. Jesus, ao longo da sua vida na terra, era sensível a toda a fraqueza e aflição humana. « No centro do seu ensino pôs as oito bem-aventuranças, que são dirigidas aos homens provados por diversos sofrimentos na vida temporal ».(124) Seguindo os passos do Senhor, a missão caritativa da Igreja estende-se aos mais necessitados: os órfãos, os pobres, as pessoas sem abrigo, os abandonados e excluídos. Uma tal missão é cumprida por quem cuida dos necessitados através de iniciativas pessoais ou mediante instituições criadas para acorrer às várias necessidades a nível paroquial, diocesano, nacional e internacional

Não há lugar aqui para um elenco exaustivo dos serviços sociais prestados pela Igreja na Oceânia; de alguns, porém, foi feita menção especial na Aula Sinodal. A Igreja oferece serviços de consultoria a sujeitos com dificuldades pessoais ou sociais procurando reforçar as famílias, a fim de prevenir separações matrimoniais e divórcios ou tratar as suas dolorosas consequências. Dar alimento aos pobres, instituir centros de assistência para várias categorias de pessoas, ajudar os que não têm abrigo e os « meninos de rua » são apenas uma pequena parte do apostolado social da Igreja na Oceânia. De forma silenciosa e reservada, alguns grupos paroquiais e associações apostólicas trabalham para remediar as feridas frequentemente encobertas causadas pela pobreza nos subúrbios ou nas áreas rurais. Grupos há que ajudam a levar a paz e a reconciliação entre clãs, tribos ou outros grupos em conflito. As mulheres, sobretudo mães, gozam duma eficácia extraordinária na promoção de meios pacíficos para resolver conflitos.(125) A solicitude da Igreja estende-se também às pessoas dependentes do álcool, das drogas, do jogo de azar, e às vítimas de abuso sexual. Os Padres Sinodais mencionaram também os refugiados e quantos procuram asilo: o seu número está a crescer e a sua dignidade humana reclama que sejam acolhidos e tratados com os devidos cuidados. Dado que as nações da Oceânia dependem dos oceanos e dos mares, os Padres Sinodais preocuparam-se também dos marinheiros, que trabalham muitas vezes em duras condições e vivem sujeitos a muitas provações

É frequente haver voluntários que oferecem o seu tempo, energias e serviços profissionais a estas formas de apostolado, sem qualquer remuneração. É que quantos escolheram, como modo de vida, amar sacrificando-se a si próprios, não o fizeram à espera de agradecimento ou recompensa humana, nem haveria uma adequada; toda a sua preocupação é desempenhar a parte que lhes cabe na missão eclesial de proclamar a verdade de Jesus Cristo, seguir o seu caminho e viver a sua vida. Estas pessoas são de importância fundamental em qualquer planificação para uma nova evangelização dos povos da Oceânia. A é despertada pela pregação da palavra de Deus, e a esperança é alimentada pela promessa do seu Reino, mas a caridade é infundida pelo Espírito Santo, « Senhor que a vida ». 

  




111) Cf. Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 21: AAS 68 (1976), 19. 



112) Paulo VI, Homilia no encerramento do Ano Santo (25 de Dezembro de 1975): AAS 68 (1976), 145. 



113) Cf. Congr. para a Educação Católica, Doc. A escola católica no limiar do terceiro milénio (28 de Dezembro de 1997), 8-11: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 18 de Abril de 1998), 190



114) Cf. ibid., 7: o.c., 190



115) Propositio 9. 



116) João Paulo II, Exort. ap. Catechesi tradendae (16 de Outubro de 1979), 24: AAS 71 (1979), 1297



117) Cf. propositio 9. 



118) Ibid



119) Cf. João Paulo II, Const. ap. Ex corde Ecclesiæ (15 de Agosto de 1990), 4: AAS 82 (1990), 1478



120) Propositio 8. 



121) Cf. João Paulo II, Carta enc. Dives in misericordia (30 de Novembro de 1980), 13: AAS 72 (1980), 1219



122) Cf. propositio 20. 



123) Cf. ibid



124) João Paulo II, Carta ap. Salvifici doloris (11 de Fevereiro de 1984), 16: AAS 76 (1984), 217



125) Cf. propositio 17. 






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