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Vida espiritual e sacramental
Vinde, Espírito Santo!
36. « O amor de Deus
foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi concedido »
(Rom5, 5). Quando « o Verbo Se fez carne e habitou entre nós » (Jo 1,
14), Deus irrompeu na história humana para nos tornar « participantes da
natureza divina » (2 Ped 1, 4). Viver em Cristo implica um novo modo de
existir que é obra do Espírito. São Paulo diz que temos de « revestir-nos do
homem novo, criado em conformidade com Deus na justiça e santidade verdadeiras
» (Ef 4, 24). A Igreja na Oceânia foi enriquecida pelo Espírito Santo
com muitos dons. Apesar da grande diversidade de culturas e tradições, ela é
uma só na fé, esperança e caridade, na doutrina e disciplina católica, na
comunhão da Santíssima Trindade.(126) Nesta comunhão, todos
são chamados a viver a vida de Cristo no contexto da sua actividade quotidiana,
a patentear os frutos maravilhosos do Espírito (cf. Gal 5, 22‑23)
e a ser testemunhas do amor e da misericórdia de Deus no mundo.
O espírito de interioridade
37. A Assembleia
Especial deu realce à importância fundamental que têm, para a Igreja na
Oceânia, a oração e a vida interior de união com Cristo. Os indígenas
conservaram o gosto pelo silêncio, pela contemplação e pelo sentido do mistério
na vida. A actividade frenética da vida moderna com todas as suas pressões
torna indispensável que os cristãos procurem o silêncio orante e a contemplação
como condição e manifestação duma fé viva. Quando Deus deixa de estar no centro
da vida humana, fica vazia e sem sentido a própria existência.(127)
Os Padres Sinodais reconheceram a
necessidade de dar novo impulso e encorajamento à vida espiritual de todos os
fiéis. Muitas vezes o próprio Jesus « retirou-Se para um lugar solitário e ali
Se pôs em oração » (Mc1, 35); observa o evangelista: « A sua fama
espalhava-se cada vez mais, juntando-se grandes multidões para O ouvirem e para
que os curasse dos seus males. Mas Ele retirava-Se para lugares solitários e
entregava-Se aí à oração » (Lc 5, 15-16). A oração de Jesus é um exemplo
para nós, sobretudo quando nos sentimos oprimidos pelas aflições e
responsabilidades da vida diária. Os Padres Sinodais assinalaram a grande
importância da vida de oração para fazer frente ao impacto crescente da
secularização e do materialismo em toda a região; e, como incentivos à vida
interior, encorajaram a participação na Santa Missa, a visita ao Santíssimo
Sacramento, a via-sacra, o terço e outras práticas devocionais, como também a
oração em família.(128) A presença de comunidades de vida
contemplativa na Oceânia é um apelo particularmente forte ao espírito de
interioridade, que nos ajuda a experimentar a presença de Deus no nosso
coração. Este espírito de interioridade é fundamental também na inspiração e
orientamento das iniciativas pastorais, porque dá a força dum genuíno amor
apostólico no qual se reflecte o amor de Deus.
Lectio divina e Sagrada
Escritura
38. A Igreja «
exorta com ardor e insistência todos os fiéis (...) a que "aprendam a
sublime ciência de Jesus Cristo" (Fil3, 8) com a leitura frequente das
divinas Escrituras (...). Lembrem-se, porém, de que a leitura da Sagrada
Escritura deve ser acompanhada de oração, para que seja possível o diálogo
entre Deus e o homem; "porque a Ele falamos, quando rezamos; a Ele
ouvimos, quando lemos os divinos oráculos" ».(129) A
palavra de Deus do Antigo e Novo Testamento é fundamental para todos os crentes
em Cristo, e constitui a fonte inexaurível da evangelização. A santidade de
vida e uma actividade apostólica eficaz nascem da escuta constante da palavra
de Deus. Um renovado apreço pela Sagrada Escritura permite-nos voltar às fontes
da nossa fé e encontrar a verdade de Deus em Cristo. A familiaridade com as
Escrituras é exigida a todos os crentes, mas de modo particular aos
seminaristas, sacerdotes e religiosos. É preciso animá-los a empenharem-se na lectio
divina, aquela meditação tranquila e devota da Sagrada Escritura que
consente à palavra de Deus falar ao coração humano. Esta forma de oração,
privada ou em grupo, aprofundará o seu amor pela Bíblia, tornando-a parte
essencial e elemento vivificante da sua vida quotidiana.(130)
Por esta razão, é preciso que a Sagrada
Escritura seja acessível a todos na Oceânia, traduzida, conveniente e
fielmente, no maior número possível de línguas vernáculas. Já se realizou um
trabalho altamente louvável de tradução bíblica, mas há ainda muito a fazer.
Contudo, não é suficiente dar aos numerosos grupos linguísticos um texto
bíblico que possam ler; para ajudá-los a compreender o que lêem, há necessidade
duma formação bíblica sólida e contínua para aqueles que são chamados a
proclamar e a ensinar a palavra de Deus.(131)
Liturgia
39. Os Padres
Sinodais reflectiram longamente sobre a importância da liturgia nas Igrejas
particulares da Oceânia, e fizeram votos de que estas continuem a aperfeiçoar a
sua vida litúrgica para que os fiéis possam penetrar mais profundamente no
mistério de Cristo. Reconheceram como um dos frutos do Concílio Vaticano II a
maior participação do povo de Deus na liturgia, daí resultando, como se
esperava, um maior sentido da missão. A vida cristã ficou robustecida com a
renovada compreensão e estima da liturgia, especialmente do sacrifício
eucarístico. O Concílio tinha considerado a renovação da liturgia como um
processo para chegar a um aprofundamento dos ritos sagrados, e nesta linha
muitas Igrejas particulares estão empenhadas na reflexão teórica e actuação
prática duma verdadeira inculturação das formas de culto, com o devido respeito
pela integridade do Rito Romano. Adequadas traduções dos textos litúrgicos e um
uso apropriado de símbolos tirados das culturas locais podem evitar a sensação
de estranheza cultural aos indígenas, quando eles se aproximam do culto da
Igreja.(132) Deste modo, as palavras e sinais da liturgia
serão os mesmos da sua alma.
A eucaristia
40. A eucaristia
completa a iniciação do cristão, sendo a fonte e o cume da vida cristã. Cristo
está real e substancialmente presente no sacramento do seu Corpo e Sangue,
oferecidos em sacrifício pela salvação do mundo e partilhados pelos fiéis na
comunhão. Desde a sua origem, a Igreja não cessou de obedecer ao mandamento do
Senhor: « Fazei isto em memória de Mim » (1 Cor11, 24). Os católicos da
Oceânia têm clara noção do lugar central da eucaristia nas suas vidas; sabem
que a celebração regular e devota do sacrifício eucarístico os torna capazes de
seguir o caminho da santidade pessoal e de cumprir o seu dever na missão da
Igreja. Com grande satisfação reconheceram os Padres Sinodais esta estima
generalizada e grande amor pelo maior sacramento da Igreja.
Ao mesmo tempo, porém, mostraram-se
preocupados com tantas comunidades da Oceânia que ficam longos períodos sem a
celebração da eucaristia.(133) E isso por muitas razões: a
escassez cada vez maior de sacerdotes disponíveis para o ministério pastoral, o
aumento da pobreza rural e a fuga para as cidades, sobretudo na Austrália,
provocando uma diminuição da população e o isolamento de muitas comunidades, as
enormes distâncias entre muitas ilhas traduzem-se frequentemente na
impossibilidade de ter um sacerdote residente. Por tudo isso, muitas comunidades
se reúnem no Dia do Senhor para actos de culto que não são a celebração da
eucaristia; e há necessidade de muita sensatez e coragem para enfrentar esta
lamentável situação. Faço minha a insistência do Sínodo para que haja maior
empenho em despertar vocações para a vida sacerdotal e distribuir os sacerdotes
de forma mais equitativa por todo o continente.
O sacramento da penitência
41. « Torna-se aqui
importante reflectirmos sobre o facto de Cristo querer que o sacramento da
penitência seja fonte e sinal de uma radical misericórdia, reconciliação e paz.
A Igreja serve melhor o mundo quando ela é precisamente o que deve ser: uma
comunidade reconciliada e reconciliadora de discípulos de Cristo. (...) A
Igreja é tanto mais ela mesma, quanto mais realiza a obra de mediação e de
reconciliação, no amor e no poder de Jesus Cristo, mediante o sacramento da
penitência ».(134) À luz desta certeza, os Padres Sinodais
deram graças a Deus por verem, na maioria das dioceses da Oceânia, o sacramento
da penitência intensamente praticado e estimado como fonte de graça
salutar.
Mas observaram também que algumas Igrejas
particulares enfrentam sérios desafios pastorais no âmbito deste sacramento;
sobretudo nas sociedades evoluídas, muitos fiéis mostram-se confusos ou
indiferentes quanto à realidade do pecado e à necessidade do sacramento da
penitência para o seu perdão. Às vezes, não alcançam o verdadeiro sentido da
liberdade humana. A redescoberta do lugar fundamental que tem este sacramento
na vida do povo de Deus constitui um profundo desejo dos bispos, tendo
insistido para que « seja ministrada uma catequese mais ampla sobre a
responsabilidade pessoal, a realidade do pecado e o sacramento da
reconciliação, lembrando aos católicos a terna misericórdia de Jesus Cristo que
lhes é oferecida através deste sacramento e a necessidade da absolvição
sacramental para os pecados graves cometidos depois do baptismo. Em virtude da
ajuda deste sacramento para o progresso espiritual, os sacerdotes devem ser encorajados
não só a fazerem do sacramento da reconciliação um momento importante da sua
vida, mas também a garantirem, como parte vital do seu ministério, o devido
aproveitamento por parte dos fiéis ».(135) A experiência do
recente Jubileu ensina que chegou o tempo para uma renovada catequese e prática
deste grande sacramento da misericórdia.
A unção dos enfermos
42. O amor compassivo
de Cristo é oferecido, de modo especial, aos doentes e atribulados. Isto vê-se
no cuidado que tem a Igreja por todos os que sofrem no corpo e na alma. A
renovada Liturgia dos Doentes foi um dos contributos mais positivos para
quantos atravessam situações em que a vida corre perigo: doenças graves,
operações cirúrgicas arriscadas, ou a velhice. Os idosos sofrem frequentemente
por causa do isolamento e da solidão. As celebrações comunitárias da unção dos
enfermos são de grande ajuda e consolação para os doentes e atribulados, e
tornam-se uma fonte de esperança para aqueles que os assistem. Os Padres Sinodais
testemunharam especial gratidão a quantos acompanham os doentes e moribundos
por oferecerem um precioso testemunho do amor do próprio Cristo no momento em
que o doente e o moribundo poderiam ser considerados um peso.(136)
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