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Ioannes Paulus PP. II
Ecclesia in Oceania

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  • CAPÍTULO IV -VIVENDO A VIDA DE JESUS CRISTO NA OCEÂNIA
    • O povo de Deus
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O povo de Deus  

A vocação dos leigos 

43. No discipulado cristão, é fundamental a experiência de sentir-se chamado como Mateus: « Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus, sentado ao telónio, e disse-lhe: "Segue-Me"! E ele levantou-se e seguiu-O » (Mt9, 9). No baptismo, todos os cristãos receberam o chamamento à santidade. Toda a vocação pessoal é um chamamento a partilhar a missão da Igreja; tendo em vista as necessidades da nova evangelização, é urgente recordar aos leigos a sua particular vocação na Igreja. Os Padres Sinodais congratularam-se pelo « trabalho e testemunho de um número tão grande de leigos que muito têm contribuído para o crescimento da Igreja na Oceânia ».(137) De facto, aparecem verdadeiramente empenhados desde os primórdios da Igreja na Oceânia no seu crescimento e missão, e continuam a fazê-lo com a sua colaboração em várias formas de serviço, sobretudo como catequistas nas paróquias, formadores na preparação para os sacramentos, animadores das actividades juvenis, guias de pequenos grupos e comunidades

Num mundo que precisa de ver e ouvir a verdade de Cristo, os leigos são, nas várias profissões, testemunhas vivas do Evangelho. Animar a ordem temporal nos seus múltiplos elementos é a vocação fundamental dos leigos.(138) Os Padres Sinodais asseguraram o seu total apoio « aos leigos, homens e mulheres, que vivem a sua vocação cristã principalmente na vida diária, animando as várias realidades da ordem temporal: "os bens da vida e da família, a cultura, os bens económicos, as artes e profissões, as instituições políticas, as relações internacionais e outras semelhantes" ».(139) A Igreja apoia e anima os leigos na sua missão de estabelecer a justa escala de valores na ordem temporal e assim encaminhá-la através de Cristo para Deus. Deste modo, a Igreja torna-se o fermento que leveda toda « a farinha » (cf. Mt 13, 33) da ordem temporal

Os jovens na Igreja 

44. Em muitos países da Oceânia, os jovens constituem a maioria da população, enquanto noutros, como Austrália e Nova Zelândia, tal já não se verifica. Os Padres Sinodais desejaram transmitir à juventude da Igreja na Oceânia a convicção de que é chamada a ser « o sal da terra (...) e a luz do mundo » (Mt5, 13.14); quiseram que os jovens soubessem que são uma parte vital da Igreja actual, e que os responsáveis não cessam de procurar modos adequados para envolvê-los cada vez mais na vida e missão da Igreja. Os jovens católicos são chamados a seguir Jesus não somente depois como adultos, mas já como discípulos em vias de maturação. Possam eles sentirem-se sempre atraídos pela figura cativante de Jesus e estimulados pelo desafio dos valores sublimes do Evangelho. Deste modo serão capazes de tomar sobre os seus ombros o apostolado activo a que a Igreja os chama, e desempenhar, felizes e decididos, a sua parte na vida da Igreja a todos os níveis: universal, nacional, diocesano e local.(140) Hoje, « os jovens vivem uma cultura própria. É essencial que os responsáveis eclesiais estudem a cultura e a linguagem dos jovens, acolham e introduzam os seus aspectos positivos na vida e missão da Igreja ».(141) 

Entretanto, este é também um tempo em que os jovens têm de enfrentar grandes dificuldades: muitos não conseguem encontrar emprego, frequentemente deslocam-se para as cidades maiores onde a pressão do isolamento, da solidão e do desemprego os arrastam para situações subversivas. Alguns são impelidos para o uso de drogas ou para outras formas de toxicodependência, e até para o suicídio. Apesar disso, mesmo nestas situações, os jovens andam frequentemente à procuram duma vida que só Cristo lhes pode oferecer. Por isso, é indispensável que a Igreja proclame o Evangelho aos jovens de modo que eles o possam compreender e lhes permita agarrar a mão de Cristo que nunca deixa de vir ao seu encontro, sobretudo nos dias cinzentos

Convencidos da necessidade de os jovens serem evangelizadores dos jovens, os membros do Sínodo recordaram o apelo que fiz à juventude quando visitei a região: « Não tenhais medo de vos empenhar na tarefa de fazer Cristo conhecido e amado, em particular entre as numerosas pessoas da vossa idade, que constituem a maior parte da população ».(142) Com os Padres Sinodais, convido os jovens da Igreja a tomarem em consideração, na oração, a possibilidade de seguir Jesus como sacerdotes ou na vida consagrada, porque a necessidade é grande. Os bispos louvaram os jovens pelo seu forte sentido de justiça, integridade pessoal, respeito pela dignidade humana, atenção para com os indigentes, e preocupação pelo meio ambiente. São sinais duma grande generosidade de espírito, que não deixarão de dar fruto na vida actual da Igreja, como sempre aconteceu no passado

Em muitos lugares, as peregrinações da juventude constituem uma iniciativa positiva na vida dos jovens católicos.(143) A peregrinação fez parte durante muito tempo da vida cristã e pode ser de grande ajuda para conferir um sentido de identidade e pertença. Os Padres Sinodais reconheceram a importância do Dia Mundial da Juventude vendo nele uma oportunidade para os jovens experimentarem uma genuína communio, como se verificou de forma extraordinária durante o Grande Jubileu. Reúnem-se para escutar a palavra de Deus apresentada numa linguagem acessível, reflectir sobre a mesma na oração, tomar parte em liturgias e encontros de oração estimulantes.(144) Repetidas vezes tenho constatado como muitos deles são por natureza abertos ao mistério de Deus revelado no Evangelho. Possa o mistério glorioso de Jesus Cristo cumular sempre de paz e alegria os jovens da Oceânia

Matrimónio e vida familiar 

45. « Uma revelação e actuação específica da comunhão eclesial é constituída pela família cristã, que, por isso também, se pode e deve chamar "Igreja doméstica" ».(145) A família, considerada na sua raiz última, é imagem da communio inefável da Santíssima Trindade. Pela procriação e educação dos filhos, a família compartilha a obra de Deus na criação e, como tal, constitui uma grande força para a evangelização dentro da Igreja e para além dos seus confins. « A Igreja e a sociedade na Oceânia muito dependem da qualidade da vida familiar »,(146) o que implica uma grande responsabilidade para os cristãos que celebraram a aliança conjugal; por isso, « é necessária uma conveniente preparação dos noivos que desejam receber o sacramento do matrimónio ».(147) 

A família, como instituição, sempre necessitará de todo o cuidado pastoral da Igreja, mas há que ter em conta as exigências e responsabilidades das famílias mais numerosas. A Igreja e as autoridades civis devem empenhar-se a fornecer os serviços e ajudas possíveis para apoiar os pais e as famílias. A Igreja tem particularmente a peito a liberdade das mulheres na decisão matrimonial, e também o seu direito a serem respeitadas no âmbito do matrimónio. A poligamia, que ainda existe em alguns lados, é uma causa grave de exploração da mulher. Alargando o horizonte, os Padres Sinodais mostraram-se preocupados pela condição social da mulher na Oceânia, insistindo para que seja respeitado o princípio de salário igual para trabalho igual e facultado à mulher o acesso ao mundo do trabalho. Ao mesmo tempo, é extremamente importante que as mães não sejam penalizadas quando têm de ficar em casa a cuidar dos filhos, já que a dignidade da maternidade e da paternidade é muito grande, e o cuidado dos filhos o valor mais importante

Nas famílias cujos pais são ambos católicos, é mais fácil que eles partilhem a sua com os filhos. Embora reconhecendo com gratidão os matrimónios mistos que são bem sucedidos a alimentar a tanto de ambos os esposos como dos filhos, o Sínodo encoraja os esforços pastorais tendentes a promover matrimónios entre pessoas da mesma .(148) 

Hoje na Oceânia, como noutras partes aliás, o matrimónio e a família estão a ser vítimas de muitas pressões que podem corroer a sua função de célula basilar da sociedade humana, com graves consequências para a própria sociedade. Como fiz notar quando estive na Austrália, « o conceito cristão do matrimónio e da família está a ser contestado por uma nova visão secular, pragmática e individualista, que conquistou terreno no campo legislativo e tem uma certa "aprovação" no sector da opinião pública ».(149) Cientes disto, os Padres Sinodais afirmaram haver urgente necessidade de « programas pastorais que dêem apoio às famílias a braços com sérios problemas da sociedade moderna; muitas delas, tanto na cultura urbana como na tradicional, sofrem gravemente por causa do alcoolismo, da droga e doutras dependências, especialmente a do jogo de azar. (...) Face às dificuldades que hoje se levantam para o matrimónio e a família, com o triste cenário da falta de harmonia nos casais, das separações e dos divórcios »,(150) o Sínodo recomendou uma renovada catequese sobre os ideais do matrimónio cristão: uma aliança que, em Cristo, dura toda a vida, baseando-se na generosa doação de ambos e num amor sem reservas. Esta visão admirável do matrimónio e da família oferece uma verdade salutar para os indivíduos e a sociedade inteira; por isso, os princípios teológicos que estão na base da doutrina católica hão-de ser, cuidadosa e convictamente, explicados a todos.(151) 

Os programas de enriquecimento espiritual no matrimónio podem ajudar os casais a aprofundarem a dedicação às suas obrigações e a alegria no dom do amor conjugal. Quando o matrimónio estiver de algum modo ameaçado, os sacerdotes prestem toda a solicitude possível àqueles que se encontram na aflição. O Sínodo reconheceu o grande zelo de tantos pais que ficaram sozinhos a prover ao crescimento e à educação dos filhos, e manifestou profundo apreço a tais pessoas que procuram viver o Evangelho frequentemente em circunstâncias difíceis. A elas e seus filhos, será preciso que os sacerdotes, as escolas católicas e os catequistas prestem especial atenção.(152) 

As mulheres na Igreja 

46. A longa série de santos de todos os tempos põe em evidência que as mulheres sempre contribuíram com dons próprios e indispensáveis para a vida da Igreja, e que, sem estes dons, a comunidade cristã ficaria irremediavelmente mais pobre.(153) Hoje mais do que nunca, a Igreja precisa das capacidades e energias e também da santidade das mulheres, se se quer que a nova evangelização produza os frutos ardentemente esperados. E, enquanto algumas mulheres se sentem ainda marginalizadas na Igreja e também na sociedade inteira, muitas outras provaram um profundo sentido de realização contribuindo para a vida paroquial, participando na liturgia, na vida de oração e nas actividades apostólicas e caritativas da Igreja na Oceânia. É importante que a Igreja, a nível local, consinta às mulheres de desempenharem a sua legítima parte na missão eclesial; nunca deveriam sentir-se postas de lado. Há muitas formas do apostolado laical e muitos programas de formação para leigos abertos às mulheres, como há também várias funções de responsabilidade onde podem largamente colocar os seus dons ao serviço da missão da Igreja.(154) 

Novos movimentos eclesiais 

47. Um dos « sinais dos tempos » para Igreja na Oceânia é a afirmação de novos movimentos eclesiais, que são um fruto mais do Concílio Vaticano II. Oferecem um poderoso estímulo e apoio aos católicos de todas as idades no seu esforço de viverem mais intensamente a vida de discipulado; além disso, tem desabrochado, no âmbito de alguns deles, um bom número de vocações para o sacerdócio e para a vida consagrada, o que é motivo para dar graças. Com o seu auxílio, muitos católicos estão a redescobrir Cristo com maior profundidade, experiência esta que lhes consente de permanecerem fiéis, não obstante as dificuldades, nas culturas deste tempo; ajudando as pessoas a crescerem na dimensão cristã, os movimentos são portadores de muitos dons de santidade e de serviço para a Igreja.(155) Acolhendo-os como sinais do Espírito Santo em acção na Igreja, os Padres Sinodais pedem-lhes que trabalhem dentro das estruturas das Igrejas particulares para ajudarem a construir a communio da diocese onde se encontram. Ao bispo local compete « exercer o discernimento pastoral quanto ao seu acolhimento e orientação, pedindo-lhes que respeitem os planos pastorais da diocese ».(156) 




137) Propositio 30. 



138) Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem; João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Christifideles laici (30 de Dezembro de 1988): AAS 81 (1989), 393s



139) Propositio 30; o texto cita o decreto conciliar Apostolicam actuositatem, 7. 



140) Cf. propositio 26. 



141) Ibid



142) Homilia na beatificação de Pedro To Rot (Port Moresby, 17 de Janeiro de 1995), 8: AAS 87 (1995), 995



143) Cf. propositio 26. 



144) Cf. ibid



145) João Paulo II, Exort. ap. Familiaris consortio (22 de Novembro de 1981), 21: AAS 74 (1982), 105. 



146) Propositio 23. 



147) Ibid



148) Cf. ibid



149) Discurso aos bispos da Austrália (Sydney, 26 de Novembro de 1986), 10: AAS 79 (1987), 960



150) Propositio 23. 



151) Cf. propositio 24. 



152) Cf. ibid



153) Cf. João Paulo II, Carta ap. Mulieris dignitatem (15 de Agosto de 1988): AAS 80 (1988), 1653-1729; Carta às mulheres (29 de Junho de 1995): AAS 87 (1995), 803-812



154) Cf. propositio 27. 



155) Cf. propositio 11. 



156) Ibid






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