3. Mas, nas
circunstâncias actuais, pode-se falar de justiça e, ao mesmo
tempo, de perdão como fontes e condições da paz? A minha
resposta é que se pode e se deve falar, apesar da dificuldade que
o assunto traz consigo, e da tendência que há a conceber a
justiça e o perdão em termos alternativos. Mas o perdão
opõe-se ao rancor e à vingança, não à
justiça. Na realidade, a verdadeira paz é « obra da
justiça » (Is 32, 17). Como afirmou o Concílio Vaticano
II, a paz é « fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a
sociedade humana, e que deve ser realizada pelos homens, sempre anelantes por
uma mais perfeita justiça » (Const. past. Gaudium et spes,
78).
Há mais de quinze
séculos que na Igreja Católica ressoa o ensinamento de Agostinho
de Hipona, segundo o qual a paz, a ser conseguida com a
colaboração de todos, consiste na tranquillitas ordinis,
na tranquilidade da ordem (cf. De civitate Dei, 19, 13).
Por isso, a verdadeira paz
é fruto da justiça, virtude moral e garantia legal que vela sobre
o pleno respeito de direitos e deveres e a equitativa
distribuição de benefícios e encargos. Mas, como a
justiça humana é sempre frágil e imperfeita, porque
exposta como tal às limitações e aos egoísmos
pessoais e de grupo, ela deve ser exercida e de certa maneira completada com o perdão
que cura as feridas e restabelece em profundidade as relações
humanas transtornadas. Isto vale tanto para as tensões entre os
indivíduos, como para as que se verificam em âmbito mais alargado
e mesmo as internacionais. O perdão não se opõe de modo
algum à justiça, porque não consiste em diferir as
legítimas exigências de reparação da ordem violada;
mas visa sobretudo aquela plenitude de justiça que gera a tranquilidade
da ordem, a qual é bem mais do que uma frágil e provisória
cessação das hostilidades, porque consiste na cura em
profundidade das feridas que sangram nos corações. Para tal cura,
ambas, justiça e perdão, são essenciais.
Estas são as duas
dimensões da paz que desejo analisar nesta mensagem. O seu Dia Mundial
oferece este ano, a toda a humanidade e de modo particular aos Chefes das
Nações, a oportunidade de reflectir sobre as exigências da
justiça e sobre o apelo ao perdão diante dos graves problemas que
continuam a afligir o mundo, dos quais, não por último, o novo
nível de violência introduzido pelo terrorismo organizado.
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