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A necessidade do
perdão
8. Mas o que
significa concretamente perdoar? E perdoar porquê? Uma
dissertação sobre o perdão não pode ignorar estas
questões. Retomando uma reflexão que já tive
ocasião de oferecer no Dia Mundial da Paz de 1997 (« Oferece o
perdão, recebe a paz »), desejo recordar que o perdão, antes de
ser um facto social, tem a sua sede no coração de cada um.
Somente na medida em que se afirmam uma ética e uma cultura do perdão,
é que se pode esperar numa « política do perdão »,
expressa em comportamentos sociais e instrumentos jurídicos, nos quais a
mesma justiça assuma um rosto mais humano.
Na verdade, o perdão
é primariamente uma decisão pessoal, uma opção do
coração que vai de encontro ao instinto espontâneo de
devolver o mal com o mal. Tal opção tem o seu termo de
comparação no amor de Deus, que nos acolhe apesar do nosso
pecado, e o seu modelo supremo no perdão de Cristo que do alto da cruz
rezou: « Perdoa-lhes, ó Pai, porque não sabem o que fazem » (Lc
23, 34).
O perdão tem pois uma raiz
e uma medida divinas. Isto, porém, não exclui que se possa
acolher o seu valor também à luz de considerações
humanas razoáveis. A primeira delas deriva da experiência que o
ser humano vive em si próprio quando comete o mal: ele apercebe-se
então da sua fragilidade e deseja que os outros sejam indulgentes para
com ele. Deste modo porque não fazer aos outros aquilo que cada um
espera que seja feito a si próprio? Cada ser humano abriga dentro de si
a esperança de poder retomar o percurso da vida sem ficar para sempre
prisioneiro dos próprios erros e culpas. Sonha poder levantar de novo o
olhar para o futuro, para descobrir ainda perspectivas de confiança e
empenho.
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