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Civilização cristã: em
inteira consonância com os princípios básicos e perenes da lei natural e da Lei
de Deus
Passo a outro pressuposto de Revolução
e Contra-Revolução . Uma concepção católica da História deve levar em toda
conta o fato de que a Lei Antiga e a Lei Nova contêm em si não só os preceitos
segundo os quais o homem deve modelar sua alma na imitação de Cristo,
preparando-se desse modo para a visão beatífica, como também as normas
fundamentais do procedimento humano, conformes à ordem natural das coisas.
Assim, ao mesmo tempo que o homem se
eleva na vida da graça, vai, pela prática da virtude, elaborando uma cultura,
uma ordem política, econômica e social, em inteira consonância com os
princípios básicos e perenes da lei natural e da Lei de Deus. É o que se chama
a civilização cristã.
É óbvio que a boa disposição das coisas
terrenas não se cifra exclusivamente a esses princípios básicos e perenes, e
comporta muito de contingente, transitório e livre. A civilização cristã
abrange uma incalculável variedade de aspectos e matizes. É isto tão verdadeiro
que, de certo ponto de vista, se pode até falar em civilizações cristãs
, e não apenas em civilização cristã . Não obstante, dada a identidade
dos princípios fundamentais inerentes a todas as civilizações cristãs, a grande
realidade que paira por cima de todas elas é uma possante unidade que merece o
nome de civilização cristã por
antonomásia. A unidade na variedade, e a variedade na unidade, são elementos de
perfeição. A civilização cristã continua una em toda a variedade de suas realizações,
de maneira a poder-se dizer que, no sentido mais profundo da palavra, há uma só
civilização cristã. Mas ela é tão prodigiosamente vária em sua unidade que, com
uma legítima liberdade de expressão, se pode afirmar, sob certo ponto de vista,
existirem várias civilizações cristãs.
Dado este esclarecimento—que aliás vale
analogamente para o conceito de cultura católica—observo que empregarei as
expressões civilização cristã e cultura
cristã no seu sentido maior
, que é o da unidade.
Dispenso-me de fundamentar as asserções
acima em textos de Santo Tomás ou do Magistério da Igreja, pois são eles tão
numerosos e tão do conhecimento dos que com seriedade estudam esses assuntos,
que o trabalho resultaria ao mesmo tempo fastidioso e supérfluo. Esta observação
vale também para mais algumas considerações que se seguirão nesta primeira
parte da presente exposição.
Em função destes pressupostos é fácil
definir o papel da Igreja e da civilização cristã na História.
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