|
“Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava
os Estados...”
Mas—perguntará alguém—quando existiu
historicamente essa civilização cristã perfeita? Será a perfeição realizável
nesta vida?
A resposta a estas perguntas chocará e
irritará muitos leitores. Sem embargo, devo afirmar que houve tempo no qual uma
larga parte da humanidade conheceu esse ideal de perfeição e para ele tendeu
com fervor e sinceridade. Em conseqüência dessa tendência das almas, os traços
fundamentais da civilização se tornaram tão cristãos quanto o permitiram as
circunstâncias de um mundo que se ia soerguendo da barbárie. Refiro-me à Idade
Média, da qual, a despeito desta ou daquela falha, Leão XIII escreveu com
eloqüência: “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os
Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina
penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias
e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus
Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda
parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos
Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma
feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a
sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, cuja memória subsiste
e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum
dos adversários poderá corromper ou obscurecer” *.
Este modo de ver a amplitude da
influência da Igreja na Idade Média, nós o encontramos também no seguinte texto
de Paulo VI, referente ao papel do Papado na Itália medieval: “Não esquecemos
os séculos durante os quais o Papado viveu sua História [da Itália], defendeu
suas fronteiras, guardou seu patrimônio cultural e espiritual, educou as suas
gerações para a civilização, para a polidez, para a virtude moral e social, e
associou sua consciência romana e seus melhores filhos à própria missão
universal [do Papado]”*.
Assim, a civilização cristã não é uma
utopia. É algo de realizável, e que em determinada época se realizou
efetivamente. Algo, enfim, que durou de certo modo mesmo depois da Idade Média,
a tal ponto que o Papa São Pio X pôde escrever: “A civilização não mais está
para ser inventada, nem a cidade nova para ser construída nas nuvens. Ela
existiu, ela existe: é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se
apenas de instaurá-la e restaurá-la sem cessar sobre seus fundamentos naturais
e divinos contra os ataques sempre renascentes da utopia malsã, da revolta e da
impiedade” *. Portanto, a civilização cristã tem largos vestígios
ainda vivos em nossos dias.
|