|
As crises
nascem, não da mente de algum pensador,
mas das paixões desordenadas,
atiçadas pelo Poder das Trevas
Há quem imagine todas as crises da
cultura e da civilização como nascidas necessariamente de algum pensador, de
cuja mente possante partiria sempre a centelha esclarecedora—ou destruidora—que
se comunicaria primeiramente aos ambientes de alta cultura e ganharia depois
todo o corpo social. É claro que, por vezes, as crises nasceram desse modo. Mas
a História não confirma que assim tenham nascido todas elas. E em particular
não nasceu assim a crise que pôs em declínio a Idade Média e suscitou o
Humanismo, a Renascença e a Pseudo-Reforma protestante.
Pelo próprio fato de pedir ao homem uma
austeridade de costumes penosa para a natureza humana decaída, a influência da
Igreja sobre cada alma, cada povo, cada cultura e cada civilização está
continuamente ameaçada. As paixões desordenadas, atiçadas pela ação
preternatural do Poder das Trevas, solicitam continuamente homens e povos para
o mal. A debilidade da inteligência humana é explorável por essas tendências.
O homem facilmente engendra sofismas para justificar as más ações que deseja
praticar ou já praticou, os maus costumes que contraiu ou está contraindo.
Disse-o Paul Bourget: “Cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou
mais tarde, acabar por pensar como se viveu” *.
|