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Segunda Revolução:
Enciclopedismo, absolutismo, Revolução Francesa
A corrupção dos costumes, que vinha
crescendo desde o fim da Idade Média, atingira no século XVIII um grau que
espantava até alguns de seus corifeus.
A sociedade francesa, túmida dos fatores
que nos países nórdicos haviam produzido o Protestantismo, se preparava,
através do enciclopedismo e do absolutismo, para uma convulsão profunda, que
outra coisa não seria senão a projeção, na esfera política, social e econômica,
com novos desdobramentos no campo religioso e filosófico, daquilo que fora a
essência do Protestantismo.
Assim, quando este último, em fins do
século XVIII, já cansado e envelhecido, se mostrava falho de força de expansão,
minado por dentro pelos progressos crescentes da dúvida e do ceticismo, e
conservando uns restos de vida graças principalmente ao apoio do Estado, na
França as tendências liberais e igualitárias atingiam um ápice. O Humanismo e a
Renascença estavam mortos havia muito tempo. No Protestantismo, como acaba de
ser dito, tudo estava gasto. Mas o que esses três movimentos tinham de mais
dinâmico e fundamental—o espírito que os suscitara—a eles sobrevivera e estava
mais forte do que nunca. Esse espírito haveria de lançar a França, e depois a
Europa inteira, num cataclismo liberal e igualitário.
A Revolução Francesa de tal maneira era
marcada pelo espírito protestante, que a Igreja constitucional por ela
organizada não era senão um mal velado instrumento para implantar na França um
verdadeiro Protestantismo. O sentido igualitário, antimonárquico e
antiaristocrático da Revolução Francesa é a projeção, na esfera civil, da
tendência igualitária que levou o Protestantismo a rejeitar os elementos
aristocrático e monárquico da hierarquia eclesiástica. O fermento comunista,
que trabalhava a extrema esquerda da Revolução, e que acabou por se explicitar
em movimentos como o de Babeuf, não era senão o símile laico dos movimentos
comunistas, como o dos irmãos Morávio, que brotaram daquilo que se poderia
chamar a extrema-esquerda protestante. A completa laicização do Estado, a
mascarada greco-romana, a contínua evocação das repúblicas do paganismo
clássico, mostravam na Revolução Francesa o efeito do Humanismo, da Renascença
e do Enciclopedismo.
Cumpre insistir. O Protestantismo, o
Humanismo, a Renascença não foram senão aspectos que o espírito anárquico e
igualitário tomou em sua longa trajetória histórica. Esses aspectos se
extinguiram, em parte porque o espírito que os suscitara, destruidor por
excelência, os aniquilara no seu próprio foco. A Revolução Francesa não foi
senão um aspecto novo e ainda mais enérgico desse mesmo espírito.
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