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Os
princípios de 1789: tendência para a liberdade e igualdade completas
A tese igualitária exprimiu-se na Declaração
dos Direitos do Homem -- magna
carta da Revolução Francesa e da era histórica por esta inaugurada—em toda a
sua nudez: ”Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos” .
É claro que este princípio é suscetível de uma boa interpretação.
Fundamentalmente, isto é, considerados em sua natureza, os homens realmente são
iguais. É apenas pelos acidentes que são desiguais. Por outro lado, sendo
dotados de uma alma espiritual, e portanto de inteligência e vontade, são eles
fundamentalmente livres. Os limites dessa liberdade estão apenas na lei natural
e divina e no poder das diversas autoridades espirituais e temporais às quais
os homens devem sujeitar-se.
Que em todos os tempos tenha havido autoridades
que violaram a fundamental igualdade e a fundamental liberdade do homem,
ninguém o pode negar. Que ao longo da História se notaram, em contrapartida,
sucessivos movimentos de defesa em face dos excessos da autoridade, procurando
contê-la em seus justos limites, é evidente. Que tais movimentos, enquanto
circunscritos a esse objetivo, só merecem aplauso, também é inquestionável. A
igualdade e a liberdade—retamente entendidas—podiam ser lembradas utilmente no
século XVIII, como em qualquer outra época.
É bem certo que em 1789, entre os
revolucionários das primeiras horas, havia pessoas que não desejavam senão uma
justa contenção do Poder Público, e entendiam a igualdade e a liberdade
promulgadas pela Declaração dos Direitos do Homem no seu sentido mais favorável.
Mas o texto da famosa Declaração era por
demais genérico: afirmava a igualdade e a liberdade sem lhes mencionar qualquer
restrição. Isso propiciava uma interpretação lata e desfavorável: uma igualdade
e uma liberdade absolutas e onímodas.
Bem entendido, esta interpretação é a que
correspondia ao espírito da Revolução nascente. Ao longo do seu curso, foi ela
alijando todos aqueles de seus partidários que não comungavam nesse espírito. A
caça aos nobres e aos clérigos foi seguida pela caça aos burgueses. Só o
trabalhador manual devia subsistir.
Caído o Terror, a burguesia, desejosa de
eliminar por toda a Europa as antigas classes privilegiadas, continuou a
afirmar os imortais princípios
de 1789. Ela o fazia de modo ambíguo e imprudente, não duvidando em
suscitar nas massas populares a tendência para a igualdade e a liberdade
completas, a fim de obter o apoio delas na luta contra a realeza, a
aristocracia e o clero.
Esta imprudência facilitou em larga medida
a eclosão do próprio movimento que haveria de pôr em xeque o poder da
burguesia.
Se todos os homens são livres e iguais,
com que direito existem os ricos? Com que direito os filhos herdam, sem
trabalhar, os bens de seus pais?
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