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Uma transformação interna
anunciada pelos próprios teóricos marxistas: a derrocada do Estado e o
surgimento da sociedade cooperativista
Em 1976, acrescentei a Revolução e
Contra-Revolução uma terceira
parte. Trata-se de uma mise au point
do panorama internacional transformado pela Revolução nos cerca de vinte
anos decorridos desde o lançamento da obra, com vistas a que o leitor
relacionasse facilmente o seu conteúdo com a nova realidade de então.
O domínio da III Revolução—a
comunista—chegara a um estado paradoxal de apogeu e crise. Apogeu pela extensa
área que o comunismo efetivamente veio a dominar, e pela influência que exerceu
no Ocidente através da imensa coligação de partidos comunistas,
criptocomunistas, paracomunistas, além do magma ilimitado dos inocentes-úteis.
A par de apogeu, crise. Com efeito, o comunismo entrara pari passu em declínio, junto à opinião pública. O
poder persuasório dele e sua capacidade de liderança revolucionária minguavam
dentro e fora dos limites da União Soviética. Comprometido assim o avanço do
comunismo pelo insucesso dos seus costumeiros métodos de ação e proselitismo,
optaria este, daí em diante, pela aventura?
O fato é que, no auge de seu poder, a III
Revolução deixou de ameaçar e agredir, e passou a sorrir e pedir. Ela abandonou
o caminho reto—sempre o mais curto—e escolheu um ziguezague, no decurso do qual
não faltavam as incertezas.
Colocou ela então o melhor de suas
esperanças na guerra psicológica revolucionária, que usa o sorriso tão-somente
como arma de agressão e de guerra, e transfere seu impacto conquistador, de
violência (isto é, do físico e palpável), para o campo das atuações
psicológicas (isto é, para o campo impalpável). Seu objetivo: alcançar, no
interior das almas, por etapas e invisivelmente, a vitória que certas
circunstâncias lhe estavam impedindo conquistar de modo drástico e visível,
segundo os métodos clássicos.
Bem entendido, esses métodos nada têm de
comum com a mera novela jornalística correntemente denominada de conquistas
das mentes , lavagem cerebral , etc. Não se tratava de efetuar, no campo
do intelecto, algumas operações esparsas e esporádicas. Tratava-se, pelo
contrário, de uma verdadeira guerra de conquista—psicológica, sim, mas
total—visando o homem todo, e todos os homens em todos os países.
Não seria possível descrever esta guerra
psicológica revolucionária sem tratar acuradamente do seu desenrolar naquilo
que é a própria alma do Ocidente, ou seja, o Cristianismo, e mais precisamente
a Religião Católica, que é o Cristianismo em sua plenitude absoluta e em sua
autenticidade única.
Dentro da perspectiva de Revolução e
Contra-Revolução , o êxito dos êxitos alcançado pelo comunismo
pós-staliniano sorridente foi o silêncio enigmático, desconcertante e
espantoso, apocalipticamente trágico, do Concílio Vaticano II a respeito do
comunismo.
A evidência dos fatos aponta, pois, o
Concílio Vaticano II como uma das maiores calamidades, se não a maior, da
História da Igreja. Depois dele penetrou na Igreja, em proporções impensáveis,
a ”fumaça de Satanás” *, que se vai dilatando dia a dia, com a
terrível força da expansão dos gases. Para escândalo de incontáveis almas, o
Corpo Místico de Cristo entrou no sinistro processo de ”autodemolição” ,
do qual falou Paulo VI**.
Nota da redação—Também João Paulo II, em
diversas ocasiões, tem-se referido aos problemas do mundo moderno e a sua
relação com a tempestade que se abate sobre a Santa Igreja. Muitos destes
problemas, afirma o Papa, incluem a difusão de ”verdadeiras heresias, no campo
dogmático e moral, criando dúvidas, confusões e rebeliões” (Alocução de 6 de fevereiro de 1981, in
Insegnamenti di Giovanni Paolo II , Libreria Editrice Vaticana, 1981, vol. IV,
1, p. 235).
Ficava assim delineada a situação da III
Revolução, como ela se apresentava pouco antes do 20° aniversário da publicação
de Revolução e Contra-Revolução .
Entretanto, esse panorama não seria
completo se se negligenciasse uma transformação interna na III Revolução: é a
IV Revolução que dela vai nascendo.
Como é bem sabido, nem Marx nem a
generalidade de seus mais notórios sequazes viram na ditadura do proletariado a
etapa terminal do processo revolucionário. Na mitologia evolucionista inerente
ao pensamento de Marx e de seus seguidores, assim como a evolução se
desenvolverá ao infinito no suceder dos séculos, assim também a Revolução não terá termo. Da Iÿ20Revolução já nasceram duas outras. A terceira, por sua
vez, gerará mais uma. E daí por diante...
Não é impossível prever, por ora, dentro
da perspectiva marxista, como será a IV Revolução . Ela deverá
consistir, segundo os próprios teóricos marxistas, na derrocada da ditadura do
proletariado em conseqüência de uma nova crise, por força da qual o Estado
hipertrofiado será vítima de sua própria hipertrofia. E desaparecerá, dando
origem a um estado de coisas cientificista e cooperativista, no qual—dizem os
comunistas—o homem terá alcançado um grau de liberdade, igualdade e
fraternidade até aqui insuspeitável.
Como? -- É impossível não perguntar se a
sociedade tribal sonhada pelas correntes estruturalistas não dá uma resposta a
esta indagação. O estruturalismo vê na vida tribal uma síntese ilusória entre o
auge da liberdade individual e do coletivismo consentido, na qual este último
acaba por devorar a liberdade. Em tal coletivismo, os vários eus ou as pessoas individuais, com o seu
pensamento, sua vontade e seus modos de ser, característicos e conflitantes, se
fundem e se dissolvem—segundo eles—na personalidade coletiva da tribo geradora
de um pensar, de um querer, de um estilo de ser densamente comuns.
A Parte III de Revolução e
Contra-Revolução termina com
considerações sobre essa IV Revolução nascente.
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