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Metamorfose do comunismo
rumo à sociedade autogestionária
A década seguinte, dos anos 80, não se
encerraria sem que os prognósticos feitos na Parte III de Revolução e
Contra-Revolução recebessem uma
extraordinária confirmação nos fatos.
Não conseguindo esconder mais seu estrondejante
fracasso econômico, bem como o desumano cerceamento de liberdades legítimas, a
Rússia soviética optou por admitir o fato desinibidamente diante do mundo. E
assim, depois das convulsões geopolíticas espetaculares que se seguiram aos
programas liberalizantes da glasnost
(1985) e da perestroika
(1986) desencadeados por Gorbachev, o regime soviético se esboroou
(1989-1991) e parece desde então evoluir para um modelo menos distante do que
vigora no Ocidente.
Essa transformação coloca um problema
estratégico novo para os não comunistas, pois parece conter um apelo: assim
como se dissolveu a estrutura granítica do comunismo, torne-se também o
Ocidente menos rígido em sua aplicação dos princípios da propriedade privada e
da livre iniciativa, aceitando dar passos decisivos na direção do socialismo.
Desse modo, Ocidente e Oriente convergirão para um ponto intermédio—não
necessariamente a meio caminho, e possivelmente bem mais próximo do comunismo
que do capitalismo—e estará encontrada uma solução definitiva para a paz
mundial.
Quantos no Ocidente não se têm deixado
seduzir por esta perspectiva! Quantos não são propensos a dizer: é melhor
aceitarmos um regime mais igualitário, com menos liberdade civil e econômica, a
fim de evitarmos que a situação na Rússia retroceda, os comunistas retomem o
poder e volte a nos importunar o terrível espectro do holocausto nuclear, do
qual milagrosamente nos livramos!
A essa ponderação cabe responder que as
guerras são castigos pelos pecados dos homens. A aceitação de um regime antinatural
e contrário à Lei de Deus, como é o comunismo, ainda que algum tanto mitigado,
constitui enorme pecado que, desdobrando inevitavelmente seus efeitos
maléficos, só pode acarretar a ruína e a infelicidade dos homens.
Assim, face ao esfacelamento do império
soviético, no Ocidente os espíritos mais argutos se perguntam o que isso tudo
tem de autêntico, de consistente, de irrefragável, que autorize esperanças
solidamente fundadas. E embora não faltem otimistas pressurosos de abrir os
braços de par em par para tais perspectivas enganadoramente alvissareiras, a
prudência recomenda muita circunspecção diante da enigmática retração do
comunismo, que muito bem pode não ser mais do que uma metamorfose para atingir
a meta última deste, que é a sociedade autogestionária.
Advertiu-o honestamente o próprio Gorbachev, em seu ensaio
propagandístico Perestroika—Novas idéias para o meu país e o mundo *:
”A finalidade desta reforma é garantir .... a transição de um sistema de direção
excessivamente centralizado e dependente de ordens superiores para um sistema
democrático baseado na combinação de centralismo democrático e
autogestão”. Autogestão esta que, de
mais a mais, era ”o objetivo supremo do Estado soviético” , segundo estabelecia
a própria Constituição da ex-URSS em seu Preâmbulo.
Todas estas considerações encontram-se
mais amplamente explanadas na edição atualizada de Revolução e
Contra-Revolução publicada em 1992
*.
Edições atualizadas da obra se sucederam
na Argentina, Chile, Colômbia, Equador e Espanha (todas em 1992), nos Estados
Unidos (1993), no Brasil (1993), no Peru (1994) e na Romênia (1995).
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